“É o fim da maior parte da vida no planeta”, afirma cientista

Numa inquietante entrevista ao The Guardian, o cientista britânico Mayer Hillman diz que “não há forma de reverter o processo de alteração climática que está a derreter as calotas polares”.

O nome Mayer Hillman talvez pouco lhe dirá. Porém, este cientista social britânico de 86 anos, que tem ao longo da sua vida académica estudado dossiers ligados aos transportes, planeamento urbano, segurança rodoviária, ambiente e alterações climáticas, tem revelado através das suas teses, uma grande assertividade e uma invulgar capacidade de projetar ideias à frente do seu tempo e de antever, nas suas dissertações, aspetos que, mais tarde, se vêm a confirmar ou soluções que, à posteriori, acabam por ser aplicadas.

Talvez por isso valha a pena prestar atenção às suas mais recentes declarações. Ainda que aterradoras.

Doutorado pela Universidade de Edinburgo, Escócia, e professor, agora emérito do Policy Studies Institute, este londrino entende que o aquecimento global é irreversível. Apesar de todos os esforços que têm sido encetados e de todos os acordos climáticos que têm sido firmados, Mayer Hillman afirma que “não há forma de reverter o processo [de alteração climática] que está a derreter as calotas polares. E muito poucos parecem estar preparados para dizê-lo”. Mayer Hillman não tem pejo em assumir em papel, dizendo mesmo: “Estamos condenados”.

Hillman declara, sem rodeios, que “o resultado é a morte e é o fim da maior parte da vida no planeta pelo facto de sermos tão dependentes da queima de combustíveis fósseis”.

Em entrevista ao The Guardian, este cientista dá conta da sua sombria previsão a respeito das consequências das alterações climáticas.

“Com o abismo diante de nós, defender a utilização das bicicletas como o principal meio de transporte é quase irrelevante”, diz. “Temos que parar de queimar combustíveis fósseis. Há muitos aspetos da vida que dependem de combustíveis fósseis, exceto a música, o amor, a educação e a felicidade. Essas coisas, que dificilmente precisam de combustíveis fósseis, são aquilo em que nos devemos focar”.

À frente do seu tempo
Em 1972, Hillman criticou a abertura de centros comerciais fora da cidade mais de 20 anos antes de o governo britânico mudar as regras de planeamento para impedir a sua expansão. Em 1980, Hillman recomendou parar o encerramento de linhas férreas – apenas agora algumas dessas linhas encerradas estão a reabrir.
Em 1984, ele propôs a instituição de classificações de energia para as habitações, algo que foi adotado como política do governo inglês em 2007.
Também algumas das suas posições políticas acabaram por se tornar comuns – como a defesa de limites de velocidade de 20 km/h nalgumas zonas.

Embora o cerne do pensamento de Hillman no último quarto de século tenha sido sobre as alterações climáticas, este autor é mais conhecido no Reino Unido pelo seu trabalho na área da segurança rodoviária e nos efeitos da utilização massiva dos automóveis.

Ele, por exemplo, em 1971, observou que 80% das crianças inglesas de sete e oito anos deslocavam-se para a escola sozinhas; hoje é praticamente impensável que uma criança de sete anos vá a pé até a escola sem a companhia de um adulto, nota este autor. Hillman frisa que removemos as crianças do perigo em vez de remover o perigo das crianças, tendo enchido as estradas com carros poluentes a caminho das escolas. Este cientista social calculou que o acto de levar as crianças de carro para a escola por parte dos encarregados de educação exigiu, no ano 1990, um total de 900 milhões de horas aos adultos que as levaram, custando à economia 23 mil milhões de euros por ano.

Dependência do automóvel

Para Hillman, o fracasso da nossa sociedade em compreender o verdadeiro custo dos veículos está na génese desta dificuldade de combater as alterações climáticas.

Temperaturas positivas no Polo Norte no inverno foram registadas quatro vezes entre 1980 e 2010. Mas agora ocorreram em quatro dos últimos cinco invernos.

O mais curioso na entrevista publicada pelo The Guardian é este cientista ter insistido com o jornalista que o entrevistou que ele não deveria apresentar o seu pensamento sobre as alterações climáticas como “uma opinião”.

O permafrost, também chamado de pergelissolo, é um tipo de solo existente na região do Ártico. Trata-se de uma espessa camada de solo congelado que, seria suposto, não derreter. Consiste num solo formado ao longo de milhares e milhares de anos e armazenou grandes quantidades de metano e de carbono no seu interior.

Nas épocas mais quentes do ano, a camada mais superficial de gelo do permafrost derrete, formando-se um terreno pantanoso. Com o regresso das temperaturas baixas, o terreno volta a congelar.

Todavia, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente lançou, em 2012, um alerta acerca do derretimento acentuado do permafrost. O problema está no facto desse derretimento libertar uma grande quantidade de metano e de carbono, até aí aprisionada no gelo. Em contacto com a atmosfera, esse carbono transforma-se em dióxido de carbono, um dos principais gases responsáveis pelo agravamento do efeito estufa. Quanto ao metano, gás com efeito de estufa mais potente que o CO2, foi descoberta uma perfuração desta camada de gelo.

Segundo Hillman, os dados são claros; o clima está a aquecer exponencialmente.

De resto, o Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (IPCC) estima que o mundo, no seu curso atual, irá aquecer até 3ºC até 2100. Modelos revistos ​​recentemente sugerem uma estimativa mais favorável de 2,8ºC, mas Hillman recorda que os cientistas ainda estão confrontados com a dificuldade de prever o real impacto total que terão no futuro situações como as da libertação de metano pelo derretimento dos permafrost.

HILLMAN ACREDITA QUE A SOCIEDADE NÃO CONSEGUIU VENCER A SUPREMACIA DO CARRO.

Hillman mostra a sua surpresa pelas análises nos media raramente se estenderem para lá do horizonte de 2100. “Isso é o que eu acho extraordinário quando os cientistas alertam que a temperatura pode subir para 5ºC ou 8ºC. E vão parar aí? Que legado estamos a deixar às futuras gerações? No início do século 21, não fizemos nada de bom para dar resposta à mudança climática no planeta. Os nossos filhos e netos serão extraordinariamente críticos”.

Hillman afirma que a concentração de dióxido de carbono na atmosfera foi confirmada em mais de 400 partes por milhão, o nível mais elevado em, pelo menos, três milhões de anos (quando o nível do mar era 20 metros mais alto do que agora).

“Mesmo supondo que o mundo tivesse hoje uma pegada zero-carbono, isso não nos salvaria porque passámos do ponto sem retorno”, diz Hillman para quem mesmo que não emitíssemos, em absoluto, dióxido de carbono, daqui em diante, o que se conseguiria era uma redução do ritmo de subida das emissões, não a redução das emissões.

a carregar vídeo

Nos últimos mais de vinte anos, Hillman não viajou de avião como parte de um compromisso pessoal de reduzir as emissões de carbono. Contudo, ele mostra desdém pelo contributo das ações individuais que ele descreve como “tão boas quanto fúteis”. Aliás, pela mesma lógica, clarifica Hillman, a ação nacional também é irrelevante “porque a contribuição da Grã-Bretanha é diminuta. Mesmo se o governo fosse para zero carbono, isso não faria quase diferença alguma”.

Que solução haverá? Hillman diz que a população mundial deve passar a ter, em todos os campos, zero emissões, desde a agricultura, às viagens aéreas, da navegação, ao aquecimento de casas. Para abrandar o ritmo de aumento da temperatura global. Outro pressuposto apontado por este cientista é o da redução da população humana. Isso pode ser feito sem um colapso da civilização? “Eu não penso assim”, responde Hillman. “Consegue ver todas as pessoas do mundo numa democracia a voluntariarem-se para desistir de voar? Consegue ver a maioria da população a tornar-se vegetariana? Consegue ver a maioria a concordar em restringir o tamanho dos seus agregados familiares?”, lança em tom provocatório.

Visão catastrofista

O cenário futurista traçado por Hillman é assustador, quase roçando um argumento dos típicos filmes-catástrofe.

“As pessoas ricas serão mais capazes de se adaptar, mas a população mundial deslocar-se-á para regiões do planeta, como o norte da Europa, que será temporariamente poupado dos efeitos extremos da mudança climática. Como vão essas regiões responder? Isso já se vê agora. Os migrantes serão impedidos de chegar”.

O The Guardian lembra que um pequeno grupo de artistas e escritores, como o projeto Dark Mountain de Paul Kingsnorth, abraçou a ideia de que a “civilização” terminará numa catástrofe ambiental, mas apenas alguns cientistas sugeriram isso. A visão de Hillman é consequência da velhice e da doença?, pergunta o jornal: “Eu há trinta anos que venho afirmando este tipo de coisas, quando era forte e saudável”, responde.

Hillman acusa todos os tipos de líderes – desde os religiosos aos cientistas, passando pelos políticos – de não discutir honestamente o que devemos fazer para passarmos para emissões zero de carbono.

“Eu não acho que eles podem, porque a sociedade não é organizada para permitir que eles façam isso. O enfoque dos partidos políticos é no emprego e no PIB, os quais dependem da queima de combustíveis fósseis”.