Vive no litoral? O ar que respira está inquinado por algo que nunca imaginou

Sem se aperceber, quem vive nas zonas costeiras portuguesas anda a respirar emissões de enxofre, azoto e principalmente partículas ultrafinas, muitas delas de grande toxicidade, provenientes de fontes que, provavelmente, não suspeitaria. A origem do problema vem do mar.

Através da análise do tráfego marítimo (proporcionada pelo site da internet Marine Traffic), a associação ambientalista Zero quantificou o número de navios que passam na Zona Económica Exclusiva (ZEE) de Portugal Continental no trajeto Norte–Mediterrâneo ou vice-versa.

Conclusão: por dia, cruzam as nossas águas aproximadamente 110 navios de carga, 30 navios-tanque (petroleiros) e dois grandes navios de cruzeiro.

Estes navios, de acordo com uma estimativa aproximada recorrendo ao guia para inventário de emissões atmosféricas da Agência Europeia de Ambiente, totalizam aproximadamente uma emissão de 31 mil toneladas de dióxido de enxofre por ano, representando um acréscimo de 90% às emissões deste poluente em Portugal Continental no ano de 2016 e 85 mil toneladas de óxidos de azoto, o que traduz uma subida de 58% das emissões deste poluente em relação ao total do país.

EM COMPARAÇÃO COM O TRANSPORTE RODOVIÁRIO, POUCAS AÇÕES FORAM TOMADAS PARA REDUZIR AS EMISSÕES DE POLUENTES DOS NAVIOS.

“Os navios são assim uma fonte de poluição atmosférica muito significativa, influenciando a qualidade do ar das zonas litorais face à predominância de ventos de Oeste e Noroeste que encaminham a poluição do mar para as zonas terrestre, apesar de não haver ainda uma quantificação clara desta influência”, refere a Zero, entidade que se assume preocupada com a poluição por navios nas cidades portuárias, sobretudo os grandes navios de cruzeiros que, como é o caso de Lisboa, causam elevadas emissões de enxofre, azoto e principalmente partículas, muitas delas de maior toxicidade por serem ultrafinas, tendo vários estudos apontado para situações grave noutros portos.

Poluição atmosférica causada pelos navios

Os ambientalistas da Zero declaram que a poluição atmosférica associada à navegação internacional causa aproximadamente 50 mil mortes prematuras por ano na Europa, com um custo anual para a sociedade de mais de 58 mil milhões de euros, de acordo com estudos científicos recentes.

Através de reações químicas no ar, o dióxido de enxofre e os óxidos de azoto são convertidos em partículas finas, aerossóis de sulfatos e nitratos. Além das partículas diretamente emitidas por navios, como o carbono negro, as partículas secundárias anteriormente referidas aumentam os impactos na saúde causados pela poluição do transporte marítimo. “Estas pequenas partículas no ar estão associadas a mortes prematuras porque entram nos pulmões e são pequenas o suficiente para passar pelos tecidos e entrar no sangue, causando inflamações e problemas cardíacos e pulmonares”, alerta a Zero.

Áreas costeiras sob ameaça

A navegação é um contribuinte significativo para a poluição do ar que tem impactes na saúde humana, no ambiente e no clima. “Para as áreas costeiras e cidades portuárias, os navios são uma importante fonte de poluição do ar”, deixa claro a Zero. No entanto, em comparação com o transporte rodoviário, poucas ações foram tomadas para reduzir efetivamente as emissões de poluentes.

A Organização Marítima Internacional (IMO – International Maritime Organization) adotou em outubro de 2016 um limiar de 0,5% de enxofre para o transporte de combustível, mas que só entrará em vigor em 2020. No entretanto, os navios continuarão a ser uma importante fonte de poluição atmosférica tóxica. Assim, áreas com elevado tráfego marítimo, como o Mar Mediterrâneo, são particularmente afetadas por essas emissões prejudiciais de transporte marítimo, como partículas, carbono negro, óxidos de azoto e óxidos de enxofre.

“Graças à criação de Áreas de Controlo de Emissões de Enxofre (SECA – Sulphur Emission Control Areas) no Norte e no Mar Báltico, a qualidade do ar melhorou significativamente nesta área. Por conseguinte, também devem ser estabelecidos meios eficazes para reduzir a poluição atmosférica provocada por navios no mar Mediterrâneo demarcando uma área com estas características”, defendem os ambientalistas que lançam este debate numa altura em que, em Paris, esta terça-feira, decorreu a 2ª Conferência Internacional sobre Transporte Marítimo no Mediterrâneo, uma coorganização do Ministério da Transição Ecológica e Solidariedade de França e diversas organizações não-governamentais de ambiente, entre elas, a Zero.

Zero propõe área de controlo de emissões

Face aos números apresentados, a Zero propõe que o Governo inicie uma articulação com os países do Mediterâneo, origem/destino maioritário do tráfego da zona costeira de Portugal Continental, de forma a implementar tão rapidamente quanto possível uma Área de Controlo de Emissões (ECA – Emission Control Area) para o enxofre e para o azoto, que ligue a área já existente do Mar Báltico, Mar do Norte e Canal da Mancha ao Mediterrâneo, abrangendo-o também.

A Zero estima que essas reduções em relação aos níveis atuais seriam da ordem dos 93% no caso do enxofre e de 23,5% no caso dos óxidos de azoto, com reflexos claros na melhoria da qualidade do ar em Portugal Continental.

Estas áreas estão previstas no Anexo VI da Convenção MARPOR da Organização Marítima Internacional. Nestas áreas, o combustível a ser utilizado não poderia ter mais de 0,1% de enxofre (por comparação com os atuais 3,5% de todos os navios, exceto os de passageiros que têm de usar 1,5%) e é também bem mais baixo que o limite de 0,5% previsto para o ano de 2020. No que respeita aos óxidos de azoto, os novos navios têm de utilizar tecnologias que permitam uma redução significativa das emissões de óxidos de azoto.

Percorra a galeria de imagens acima clicando sobre as setas.