Nissan Leaf Black Edition: Quase no ponto

Esta podia ser a história do homem que apostou no preto e ganhou. Esta podia ser a história do homem que tinha uma mulher de sonho e morreu de velhice ao seu lado. Podia ser a história do jornalista que achava os carros elétricos uma ideia falhada, mas estava enganado. Não apostei nada, não espero morrer de velho ao lado de ninguém, mas fui um jornalista que detestava os carros elétricos. Como já tinha acontecido anteriormente, o Leaf 30kWh deu-me uma bofetada de humildade neste ensaio.

Não é novidade absoluta e, na verdade, nem é sequer uma novidade. É apenas a forma que encontrei para revisitar um carro que não impressionando como um Tesla, custa uma fração do americano e permite fazer a nossa vida quotidiana sem problemas. Pode não ser tão barato como o Renault Zoe e a autonomia não chega à do modelo francês. Mas o Leaf é um verdadeiro familiar que deixa o mais exigente satisfeito.

Origens…

Sabia que a eletricidade nos carros é algo quase tão velha como a criação do automóvel e no caso da Nissan, tudo começou em 1947? Não foi por isso que a Nissan abraçou a causa da proteção dos ursos polares, das árvores do paraíso e dos senhores das organizações ambientais que, de outra forma, ficam a falar sozinhos. Não, o Leaf é fruto do espírito aguçado de Carlos Ghosn que antecipou uma tendência que, na época, lhe custou muita chacota e olhar de soslaio. Hoje é assumida por quase todos e o Leaf deixou de ser uma anedota para assumir o papel de pai dos elétricos modernos. A persistência pagou dividendos.

O Leaf 30 kWh…

Assim de repente, este parece o mesmo Leaf de sempre, verdade? E tem toda a razão, pelo menos no que pode ser visto por fora e por dentro pois ficou tudo, praticamente, na mesma. A grande diferença está na bateria que passa a ter 30 kWh de capacidade. Pronto, aqui está a grande novidade deste Leaf.

Pode parecer pouco, mas sabe quantos Leaf é que já foram vendidos no mundo? Assim com este aspeto meio futurista, meio estranho? Já são mais de 200 mil unidades, sendo o líder mundial por larga margem! E olhe que os donos dos Leaf são fieis, pois o modelo elétrico da Nissan tem o maior valor de satisfação de cliente de toda a gama da marca japonesa: 92% dos utilizadores estão muito satisfeitos e 96% recomendariam o Leaf! Ah pois é… E, depois, o Leaf já cumpriu mais de 1800 milhões de quilómetros sem avarias anormais.

Com tamanho e posicionamento igual, a bateria recebeu atualização na arrumação interna e na química, com o recurso a um cátodo de alta capacidade melhora o desempenho, ajudado pela alteração da disposição das células no interior do bloco de baterias. Assim, a potencia subiu de 24 para os 30 kWh e a autonomia esticou-se até aos 250 quilómetros, embora até os técnicos da Nissan acreditem que, no mundo real, estejamos a falar de cifras próximas dos 200 km de autonomia.

E a confiança da Nissan nesta nova bateria – que adiciona, apenas, 21 quilogramas de peso – é tanta que a garantia da mesma passou para 8 anos ou 160 mil quilómetros! E se tiver perto de si um carregador rápido, bastam 30 minutos para carregar a bateria. Atraente, verdade?

E se acrescentar o facto dos utilizadores de modelos do segmento C não fazerem mais de 50 quilómetros diários e que poucos são os que vão alem dos 160 quilómetros diários? Ou seja, o carro elétrico não é uma idiotice e o anterior Leaf já satisfazia a maioria das necessidades. Faltava aquele bocadinho “assim” para que o leque de utilizadores se alargasse, particularmente àqueles que vivem angustiados com falta de bateria, seja no telemóvel, seja no carro ou até no relógio. Com este novo pacote de baterias, acaba-se essa angústia.

Refinamento, conforto e fiabilidade

São estes os pilares da agradabilidade do Leaf, coisas que os clientes do segmento C desejam para os seus carros e que neste Leaf são evidentes. Além disso, não existe, na minha opinião, um carro tão fácil de conduzir como este Nissan. Tem coisas estranhas como o travão de mão… de pé e o esquisito comando da caixa de velocidades, mas passada essa barreira, o Leaf é simples e fácil de conduzir.

Não sendo muito potente, o Nissan Leaf apoia-se num excelente valor de binário (254 Nm) disponível imediatamente, para avançar sem grandes hesitações. E com a alargada autonomia, pode levar o Leaf para a auto estrada, onde a ausência de ruído e de passagens de caixa tornam a viagem um regalo.

Depois, o atual Leaf já consegue lidar com estradas sinuosas de forma mais capaz, num trabalho que tem vindo a ser feito pela casa japonesa desde o lançamento do primeiro modelo. Por isso, agora, consegue curvar de forma mais eficaz e com aderência inusitada. Esta muito longe de ser um desportivo, mas é eficaz e sereno. Enfim, suficiente.

Depois temos o conforto, oferecido por um interior de qualidade muito agradável, bancos confortáveis e muito espaço habitável. Nesse aspeto, o Leaf pede meças aos melhores do segmento C.

E agora mais um pormenor que segue direitinho para a sua carteira. Nem tudo podiam ser boas notícias… Se tiver um Leaf com bateria de 24 kWh, não pode chegar à oficina, comprar uma bateria das novas e colocar no seu Leaf… Diz a Nissan que a culpa é dos legisladores de Bruxelas, pois para trocar as baterias velhas pelas novas mais potentes, teriam de ser feitas caras homologações para cada modelo que iriam onerar o processo de tal forma que fica mais simples trocar de carro.

Já sei, está a perguntar-se porque raio é que o tipo não fala da autonomia! Faz ou não os 250 quilómetros?!

Não faço a mínima ideia! Cumpri mais de 200 quilómetros ao volante, mas carreguei-o duas vezes em tomadas domésticas porque não consegui faze-lo nos carregadores de rua – continuam a existir umas bestas que entendem que os carregadores e os lugares reservados para isso são um privilégio – e por isso, não sei bem qual o limite. Mas se faz muita autoestrada, tenha cuidado que a bateria descarrega enquanto o diabo esfrega o olho.

Mas se usar o modo Eco (que lhe limita as prestações) tudo é mais pacífico. Seja como for, a ansiedade da autonomia é bem menos evidente que anteriormente e já podemos ir muito mais longe que antes. No anterior Leaf? Nem me atrevia a subir a Serra de Sintra e voltar!!

Veredicto

Que fique claro! O carro elétrico não será a primeira opção de automóvel de uma família. Pelo menos por enquanto. A Nissan ousou, arriscou e petiscou (e de que maneira!!), com um Leaf que pode não ser o carro mais bonito do mundo – calma que a próxima geração corrige isso – mas é dos mais interessantes. E depois custa custa menos de 1,5 euros por cada 100 quilómetros percorridos.

José Manuel Costa

 

FICHA TÉCNICA

Motor

Tipo – Elétrico síncrono

Cilindrada (cm3) – NA

Diâmetro x curso (mm) – NA

Taxa de compressão – NA

Potência máxima (cv/rpm) – 109/3000-10000

Binário máximo (Nm/rpm) – 254/0-3008

Transmissão e direcção – Tração dianteira; direção de pinhão e cremalheira, com assistência elétrica

Suspensão (fr/tr) – Independente tipo McPherson/eixo de torção

Prestações e consumos

Aceleração 0-100 km/h (s) – 11,5

Velocidade máxima (km/h) – 144

Consumos Extra-urb./urbano/misto (l/100 km) – NA

Emissões de CO2 (g/km) – 0

Dimensões e pesos

Comp./largura/altura (mm) – 4445/1770/1550

Distância entre eixos (mm) – 2700

Largura de vias (fr/tr) (mm) – 1540/1535

Travões (fr/tr) – Discos/discos

Peso (kg) – 1570

Capacidade da bagageira (l) – 370/720

Depósito de combustível (l) – NA

Pneus – 205/55 R16

Preço versão ensaiada (€) – 29.200

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