Tecnologias de segmentos superiores, assinatura visual forte… O novo Renault Mégane está irreconhecível. Um salto qualitativo sustentado por uma completa oferta de motorizações. Conhecemos primeiro o diesel de 130 CV.

Pode não passar de uma coincidência, mas as gerações par do Renault Mégane têm tendência para romper com a monotonia. Avaliar a estética de um automóvel não é fácil. No entanto, não arriscamos muito se dissermos que o sucessor do Renault 19 nasceu cinzento e redondinho. Depois veio a segunda geração. Cheia de ângulos, com uma traseira tão arrojada que nunca chegou a reunir consenso. A terceira geração eliminou as arestas e o Mégane voltou a diluir-se no trânsito. Uma discrição difícil de manter com a quarta geração. Não por ter mudado radicalmente o design. Mantém a fluidez das linhas como nota dominante. Antes pela soma das partes que lhe garantem uma presenta forte e distinta.

Mais comprido e baixo, o novo Mégane apresenta um recorte bem proporcionado, com as vias mais largas a darem um toque desportivo. No entanto, é a forte assinatura visual que o distingue dos “outros”. É a iluminação diurna LED com efeito 3D que primeiro capta a atenção. A partir dela, os olhos seguem as curvas da carroçaria de cinco portas que termina com um novo conjunto de óticas LED. Este, concebido de forma criar uma ilusão de largura. Não parece, mas com 4,36 metros, o mesmo comprimento do Ford Focus, o Mégane é ultrapassado apenas pelos 4,37 metros do Opel Astra.

Carroçaria: 36/50

Desenvolvido sobre a arquitetura modular CMF C/D, a Renault considera o termo plataforma demasiado redutor, comum ao Espace e ao Talisman, o novo Mégane é 64 mm mais comprido que o anterior. A distância entre eixos aumentou 28 mm para os 2,67 metros enquanto a altura desceu 25 mm para os 1,45 metros. Como a arquitetura não permite grandes alterações à largura, as vias cresceram apenas 47 mm à frente (1591 mm) e 39 mm atrás (1586 mm). Ao apuro da imagem, o Mégane soma um cuidado evidente na construção, montagem e escolha dos materiais. Folgas uniformes e ausência de ruídos provocados pela deslocação do ar sugerem uma aerodinâmica bem trabalhada. No entanto, a Renault divulga apenas o fator de resistência que, com um valor de 0,69, fica atrás dos 0,64 do Opel Astra. Amplas no tamanho e na abertura, as portas do Mégane colocam o Renault no topo da tabela das acessibilidades.

O alinhamento do banco com a porta facilita as entradas e saídas que, atrás, podem tropeçar apenas no curto espaço disponível entre a base dos bancos e o pilar B. Aceder aos 384 litros da bagageira – mais 12 litros que o anterior mas atrás dos 420 litros do Peugeot 308 ou dos 477 litros do Honda Civic – não é complicado, desde que o volume a arrumar não seja grande ou pesado. O plano de carga elevado e sem possibilidade de alinhar pelo piso cria uma bagageira funda. Rebatendo as costas da fila traseira, na proporção 30:70, cria-se um pequeno degrau e amplia-se a capacidade até aos 1247 litros.

Interior: 46/70

Curiosamente, para quem aumentou o comprimento e a distância entre eixos, o novo Mégane é mais apertado que o anterior. Perdeu altura ao teto, largura ao nível dos cotovelos à frente e atrás, espaço para as pernas e viu igualmente a medida diagonal do habitáculo baixar de um dos valores de referência do segmento, só ultrapassada pelo Kia cee’d, para baixo da média. Uma redução quotas que arrasta o índice de habitabilidade para baixo da linha de água. Contudo, graças a uma afinação mais branda dos amortecedores, o conforto geral é superior ao da geração anterior.

Com uma bagageira funda, sem possibilidade de alinhar o piso com o plano de carga, e bancos traseiros com rebatimento simples, o Mégane conta com os diversos compartimentos fechados da consola central para reforçar a funcionalidade. É bom mas, tal como o forro em tecido das bolsas das portas, não chega. Para compensar, não encontramos nenhum dos plásticos lacados da moda. Os revestimentos lisos são mate e os metais mate ou escovados. O tablet da consola central e o head-up display a cores, inéditos no segmento, reforçam o sentimento de gama superior deste Mégane.

Os completos sistemas de segurança ativa e passiva também não desapontam. Aos seis airbags e reforços estruturais do costume junta-se um conjunto completo de ajudas eletrónicas que vão do simples aviso de ângulo morto ao regulador de velocidade adaptativo. Não falta igualmente uma câmara traseira para melhorar a visibilidade e ajudar as manobras de estacionamento.

Mecânica: 35/50

Com estrutura McPherson e eixo semirrígido atrás, a grande novidade da suspensão do Mégane está nas ligações. Sem borracha entre o subchassis dianteiro e a plataforma, a direção tornou-se mais precisa e reativa. Atrás, a travessa de eixo foi modificada de forma permitir um maior apoio ao esforço de curvar. Afinações específicas dos triângulos inferiores dianteiros e das articulações do eixo traseiro, bem como amortecedores e respetivos batentes otimizados para o conforto, mantêm as irregularidades fora do habitáculo. Cortesia da nova arquitetura, o comando Multi-Sense cria cinco modos de condução e outros tantos ambientes luminosos. Resposta do motor e pedal do acelerador, peso da direção e ar condicionado variam em função dos habituais modos Neutro, Sport, Comfort, Perso(nalizado) e Eco. Pela mesma ordem, a luz ambiente pode ser sépia, vermelho, azul, violeta ou verde.

Sem novidades a registar, o motor 1.6 dCi de 130 CV casa bem com o novo Renault Mégane. Os 1318 kg não atrapalham os 320 Nm de binário que, por estarem disponíveis desde as 1750 rpm, são garantia de fluidez abaixo das 2000 rpm. Bem escalonada, a caixa manual de seis velocidades é uma ajuda preciosa para manter o ritmo dentro e fora da cidade.

Ao volante: 32/50

Uma das situações mais ingratas de ter apenas um dia para fazer o Ensaio Completo é a dependência do clima. Espera-se que não chova, porque quando tal acontece não se conseguem resultados fidedignos. As travagens registam valores exagerados, o comportamento em curva e a capacidade de aderência e tração ficam comprometidos, tal como as prestações. A graciosidade com que o Mégane dançou entre os cones da prova de ultrapassagem deixa perceber que o chassis está bem equilibrado. Ao mesmo tempo, sublinha a subtileza das intervenções do controlo de estabilidade. Sempre presente, mas sem solavancos ou cortes de potência muito evidentes.

Com o piso molhado, o peso aplicado pelo modo Sport à direção pareceu sempre excessivo. A rapidez da resposta do acelerador é bem-vinda, mas preferimos a direção no modo normal. Nada que o modo personalizável não resolva. Um comando na consola central permite saltar entre os diversos modos de condução. O tablet ao centro do tablier também o permite mas, apesar de ser muito sensível ao toque, o que é bom, apresenta menus complexos e difíceis de utilizar em andamento, o que não tão bom.

Economia: 41/60

Sendo o Mégane Energy dCi 130 das imagens um Bose Edition, o preço será de 30.400 €. A garantia de cinco anos ou 100 000 km é um descanso, ao qual se juntam três anos para a pintura e 12 para a corrosão. As revisões a cada dois anos ou 30 000 km não favorecem muito os custos de utilização, tal como a média ponderada de 6,2 l/100 km. Mais de dois litros acima dos 4 l/100 km oficiais. A cidade, com uma média de 7,8 l/100 km, foi o fator de desequilíbrio de uns consumos que não foram além dos 4,4 l/100 km em estrada e dos 4,8 l/100 km em autoestrada. As emissões são calculadas com base nos consumos oficiais, mas nem por isso o Mégane Energy dCi 130 baixa dos 100 g/km.

Texto: Ricardo Machado

Fotografia: José Bispo