Eu e o meu Porsche 911 ‘996’ Carrera 4

Terceiro capítulo dedicado à paixão e as histórias que ligam os entusiastas da Porsche aos seus modelos de eleição.

Simão Pedro Marques da Costa Ferreira da Silva , 34 Anos, Arquitecto /Gestor de Obra em Macau.

Qual a primeira recordação que tem da Porsche?
A minha introdução ao mundo Porsche começa com o primeiro carro do meu Pai, um VW carocha de 1955 oval comprado em 1980. Foi nele que eu cresci e que tive o primeiro contacto com a configuração de motor traseiro e tracção traseira. Com isto começaram logo desde cedo as historias contadas pelo meu Pai da relação histórica que existe entre a VW e a Porsche (naquele tempo usava isto para enaltecer o nosso velhinho carocha). Nunca vendemos o Carocha e ainda hoje o conservamos, foi totalmente restaurado em 2002. Essa seria uma outra história. Em simultâneo também tivemos um Brasília com motor 1600 e carburadores duplos. Nesse então o meu pai não se calava.
Agora vamos a materialização do Porsche. Devia ter uns três anos. Estávamos na praia de Miramar, no café da praia, onde todos os Domingos o meu Pai gostava de tomar café e ler o jornal. À saída do café tivemos uma visão. (eu com três ou quatro anos, o meu irmão com dois ou três e o meu Pai nos seus 31 ou 32 anos de idade), no estacionamento, parado ao lado do nosso Carocha, estava um 911 da década de 70. O tal super carro descrito pelo meu Pai. Um “amor platónico” que até então tinha vivido materializava-se em frente aos meus olhos. Desde aí a paixão cresceu, como em qualquer criança daqueles tempos em que a F1 era vista aos Domingos, por todos em família. Nos ralis, corriam os “Grupo B”. Enfim a nossa geração e a anterior foram as verdadeiras gerações “Petrol Head”.

Quando decidiu que ia ter um Porsche?
Em 2015, em Macau, onde já trabalhava, tinha um bom Amigo, o Engenheiro Amir (devia ter uns 47 anos de idade). Trabalhava na mesa ao lado da minha e era apaixonado por carros, em especial pelos Porsche.
Neste tipo de carreira, temos de andar sempre com a casa as costas. De dois em dois anos mudamos de projecto, de casa e, a maior parte das vezes, de país. O Amir estava cansado e queria regressar a casa a Londres; queria ir para junto da mulher e dos filhos. Passava a vida a dizer que este seria o último trabalho. Disse-me muitas vezes que ia comprar o Porsche, mesmo contra a vontade da mulher, dizia que depois de tantos anos de trabalho era tempo de realizar esse sonho. Infelizmente o Amir nunca chegou a deixar Macau. Teve um enfarte no ginásio e foi encontrado pelos amigos que estavam com ele, já sem vida. Nunca chegou a regressar a casa nem a comprar o Porsche que tanto desejava.
Esta foi para mim a gota de água, para eu decidir que ia comprar o carro dos meus sonhos. Pensei em muitos, mais baratos, mais caros, desde BMW M3, M5, Audi S2 ou RS2, Maserati, Alfa Romeo. A certa altura eu andava obcecado com a ideia, a minha mulher assistia as minhas pesquisas todos os dias durante dois anos. Um dia, a minha mulher, já farta de me ver a mudar de rumo “30 vezes” disse-me: ”Simão qual o carro que tu realmente queres? Qual independentemente do preço?” Então fez-se luz na minha cabeça e respondi de imediato “um 911 996 coupe carrera 2 ou 4 manual”. Ainda disse “Mas pode ser um Boxster” mas levei como resposta: “Não! Compra o 911 996 que tu queres”.
Em Macau, seleccionei três exemplares, estudei-os, consegui saber o passado de todos, marquei uma inspecção na Porsche, que resultou em 111 pontos com o que mais gostei… Comprei o bilhete de avião e fui a Portugal de propósito buscá-lo. Estive cinco dias em Portugal, comprei o carro no segundo dia da minha estadia, em Lisboa e vim ao volante para o Porto. Chorei muito de alegria durante essa viagem. Agradeci muito a Deus ter esta oportunidade na minha vida. Fui direito a casa do meu Pai. Ele ficou de boca aberta, muito feliz por o ter conseguido comprar e por me ver feliz, disse-me “Esse carro fica-te bem filho” e “o teu carro não podia ser outro”.

Qual foi o seu primeiro automóvel da marca?
Porsche 911 ‘996‘ Carrera 4 com caixa manual de 1999, com algumas boas surpresas: interior em pele azul, bancos do turbo, tablier em pele, volante de três braços, fundo do quadrante em alumínio, tudo extras de origem. Extras sem ser de origem, suspensão Bilstei Tem 150.000 quilómetros e um motor novo montado na Porsche com 5.000 km

Qual ou quais os Porsche que tem actualmente?
Por enquanto, só o Carrera 4.

Qual o seu Porsche antigo preferido?
911 930 turbo do meu ano 1982 (todo preto)… Óbvio que o sonho seria um 959, mas isso é loucura e sacrilégio. Teria medo de o conduzir diariamente.

Qual o modelo actual que mais gostava de ter?
911 GT3 de 2018, com a caixa manual de sete velocidades, puro e simples.

Conte-nos um segredo ou uma história engraçada consigo e o seu Porsche…
Ainda não tenho muitas histórias, mas, no dia em que o comprei, cheguei a casa cansado, vindo de Lisboa para o Porto. Estacionei-o na garagem deveriam ser uma 22h30. A garagem do prédio não tem boxes fechadas. Com o entusiasmo nessa noite dormi muito pouco. Acordei cedo de manhã eram umas 4h30, não conseguia dormir mais. Tomei o pequeno almoço solitário em casa, vesti-me e preparei-me para ir dar uma volta na minha máquina. Quando chego à garagem, deparei-me com uma situação engraçada: o meu vizinho estacionou a dois metros de distância, com medo de o riscar. Ri-me orgulhoso, sozinho, no silêncio daquela manhã de Abril. E lá estava o meu 911 cinza prata a brilhar, pronto para um passeio junto ao mar, na marginal de Vila Nova de Gaia, entre as 6 e as 8 da manhã. Andei para trás e para a frente, a experimentá-lo e vi o sol nascer. As 8h00 parei finalmente em Miramar, para o tal café e o Jornal. Foi uma manhã muito especial. Tenho a certeza que não me vou esquecer até ao meu último dia.

Percorra a galeria de imagens acima clicando sobre as setas.