Do azelha da scooter até Cameron Highlands

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Ao sair de George Town ainda tive direito a assistir a uma cena que podia ter acabado mal, à porta do Guest House onde estava instalado.

Estava a colocar as malas na moto enquanto o proprietário do Hostal ao lado explicava a um miúdo inglês, acompanhado da namorada, como se conduzia a “scooter” que acabara de lhe alugar. O rapaz, com ar confiante, dizia que sim, que não havia problema, e sentou a namorada atrás dele.

Com milhares de “scooters” a serem conduzidas nestes países por homens e mulheres de todas as idades e muitas delas alugadas a turistas que normalmente se vão safando melhor ou pior, o miúdo achou que tinha que ser uma coisa facílima. E é, só que ele nem de bicicleta devia saber andar. Acelerou e travou ao mesmo tempo e a “scooter” lá arrancou debaixo de uma barulheira que se confundia com os berros do homem do Hostal: “SLOWLY, SLOWLY. BRAKE”

Conseguiu parar nem ele sabe como e o homem foi ter come ele a insistir que tinha que ir devagar.

“Sim, sim” respondeu o bife. “sem problema”.

Voltou a arrancar e não fez mais de vinte metros aos esses a acelerar a fundo e a travar com quanta força tinha, antes de se espetar com a namorada no alcatrão.

O velho berrava que nem um desalmado enquanto recolhia a mal tratada “scooter” e a namorada desatou a correr assustada, de capacete na cabeça, e só parou no quarto do Hostal, para desespero do homem que no meio dos berros pedia o capacete de volta. Tive que fazer enorme esforço para não me desatar a rir

Arranquei em direção ao interior, para visitar uma zona montanhosa onde existem grandes plantações de chá. Desta vez atravessei para o continente pela ponte, ao estilo da nossa Vasco da Gama, e percorri cerca de 100 Km de autoestrada para sul.

Pouco depois de deixar a via rápida, onde as motos estão isentas de portagem, entrei numa estrada de montanha fantástica com sequencias de curvas e contracurvas rápidas, de quinta, rodeada de uma paisagem de floresta que se foi tornando mais densa ao longo dos 150 Km que me levaram a Cameron Highlands, no topo da montanha. Um gozo. Pelo caminho encontrei 4 rapazes que tinham vindo simplesmente acelerar para aquela serra nas suas motos coreanas de 250 c.c. e bebemos um chá juntos numa barraca de borda de estrada.

Em Cameron Highlands instalei-me num simpático Hotel de montanha, com plantas a crescerem no telhado. A temperatura tinha passado dos 39º à saída de George Town para 25º no alto da montanha. De noite baixou ainda para uns 19 ou 20º. Tomei um duche mais quente que o habitual e para jantar, na sala com lareira acesa, vesti uma camisola. Prefiro calor a frio mas já tinha saudades de uma temperatura destas.

Um rapaz de origem Russa e a sua bonita namorada Malaia, que me tinham visto chegar na moto à tarde, pediram para se sentarem à minha mesa de jantar e quiseram saber pormenores da viagem. Ele vive há anos na Malásia, tinha ali vindo passar dois ou três dias e conhece bem o país. Perguntei-lhe o que devia visitar e deu-me excelentes indicações não só para a Malásia como para a Indonésia.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica o seu diário de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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