Bosch com papel central nas fraudes de emissões?

Após quatro fabricantes que utilizam os sistemas de controlo para motores diesel da Bosch terem sido já acusados de ilegalidades relativas aos limites de emissões, surgem noticiam que adensam as dúvidas sobre o papel da empresa neste escândalo.

Poderá o maior fabricante de componentes estar no centro dos escândalos de emissões das marcas? Segundo artigos hoje publicados em sites de referência como a Automotive News, a Reuters, Bloomberg e outros, essa é uma dúvida que se vai adensando. A hipótese é avançada após quatro fabricantes que utilizam os sistemas eletrónicos de controlo para motores a gasóleo da Bosch terem sido alvo de processos judiciais por possíveis comportamentos fraudulentos para enganar os testes de emissões. O caso começou com o Dieselgate da VW e ganhou esta semana novos capítulos nos Estados Unidos, com as acusações a recaírem sobre a Fiat-Chrysler (FCA) e a General Motors (GM). Além disso, surgiram informações de que funcionários da Bosch também vão ser alvo dos inquéritos para averiguar o seu papel no caso da possível fraude de emissões da Mercedes.

Em todos os casos referidos e passados no continente americano o nome da Bosch surge associado aos dos construtores automóveis nas queixas apresentadas, e o procurador Steve Breman afirma que “acreditamos que a Bosch foi a impulsionadora. Eles forneceram o software num formato em que os fabricantes e a Bosch podiam trabalhar em conjunto para calibrar os motores de forma a enganar os testes de emissões”. É ainda referido que, como demonstrado no caso do já julgado e considerado culpado Grupo Volkswagen, estes eram sistemas tão inteligentes que conseguem distinguir entre a realização dos testes em laboratório, com variáveis sempre constantes, ou numa condução quotidiana. A empresa germânica já reagiu a esta possibilidade, e indica que “leva as alegações de manipulação dos diesel muito a sério. A Bosch está a cooperar com as continuadas investigações, e a defender os seus interesses neste contencioso”.

 

Esta é, como já referido, a quarta vez que no espaço de dois anos que um grupo automóvel que utiliza os softwares para motores diesel da Bosch se encontra na mira das autoridades por possível fraude nos testes de emissões. Logo no início do Dieselgate da Volkswagen foram levantadas dúvidas e feitas alegações sobre o papel que a principal fabricante de componentes para a indústria automóvel poderá ter desempenhado no caso, uma situação agora novamente levantada nos processos sobre a FCA e a GM. Relativamente ao caso do Grupo Volkswagen, que chegou à barra dos tribunais e apenas foi solucionado com uma gigantesca penalização à líder do mercado mundial, a Bosch chegou a ser também acusada judicialmente, mas acabou por concordar em pagar 375,5 milhões de dólares e assim encerrar o contencioso.

O principal “suspeito” dentro da Bosch é o EDC-17 (Eletronic Diesel Control) das fotos do artigo, que foi lançado em 2006 e, segundo a Bloomberg e a Reuters, funciona como um “mini-computador” que regula o funcionamento do motor a gasóleo e respetivo sistema de tratamento dos gases. O que é indicado é que este componente foi criado a pensar num formato de facilitar os softwares ilegais, que reconheciam se o automóvel estava em testes, limitando as emissões produzidas, ou numa condução real em que poderia ter um comportamento menos restritivo e lançar mais gases. A favor da Bosch está o facto de no caso do Grupo Volkswagen ter sido considerado que foi o fabricante, segundo noticiado em diversos meios, a efetuar sozinho a fraude e inclusão de software ilegal para alterar o comportamento do EDC. Ou seja, isto demonstra que as próprias marcas têm capacidade para empreender estes esquemas sem intervenção da fornecedora de componentes. No entanto, com os recentes casos da FCA e GM, são já quatro os fabricantes que utilizam os sistemas da Bosch a verem-se envolvidos em acusações de fraudes de emissões, o que coloca a empresa na mira das autoridades. E, além disso, na acusação do caso GM é indicado que “a Bosch participou não apenas no desenvolvimento do defeat device, mas também num esquema para impedir as autoridades de descobrir a sua verdadeira função”.

 

Até ao momento não existe, no entanto, qualquer prova que demonstre que a Bosch trabalhou com as marcas para enganar os testes de emissões, pelo que não é possível afirmar que a empresa desempenhou efetivamente um papel para estas fraudes com impacto no meio ambiente e na saúde de todas as pessoas. Mas as dúvidas e suspeições sobre o papel que desempenhou estão na mira tanto das autoridades americanas como do seu país natal, a Alemanha.

 

Fonte: Bloomberg, Automotive News e Reuters