Grécia: Um jogo de gamão e o melhor cabrito do mundo

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Ontem ao fim da tarde, quando andava naquela serra, debaixo de chuva, à procura de sítio onde ficar, parei num restaurante de borda de estrada que tinha ar de fechado mas lá dentro estava um rapaz e uma rapariga dos seus vinte anos a esquartejar uma carcaça que seria de um porco ou cabrito.

Chamaram outro que perceberia alguma coisa de inglês, aliás é extraordinário que na Albânia que supostamente é um país mais atrasado, todos os miúdos falam inglês e alguns com óptima pronúncia e na Grécia é raro o que diz duas palavras, e esse outro indicou-me uma aldeia vinte quilómetros à frente onde acabei por arranjar onde dormir.

Quando quis jantar entrei no único restaurante da aldeia, que funcionava como uma espécie de clube, ou seja, estava praticamente cheio mas só numa mesa é que estavam a jantar, os outros estavam a beber copos e petiscar.

Por cima de um fogão a lenha assava um cabrito e o dono, extrovertido, achou divertidissimo entrar ali um estrangeiro. Fartou-se de falar comigo sem dizer uma palavra de inglês e eu de grego. Apontava para o cabrito para saber se era aquilo que eu queria, depois pegava com a mão uma batata frita que estava numa travessa e comia a fazer sinal que estavam muito boas, enquanto a mulher levantava uma folha de alface e um tomate no ar.

Pedi tudo aquilo que me ofereciam e acabei por comer o melhor cabrito da minha vida, acompanhado por um rosé da casa. O homem às tantas sentou-se na minha mesa, pegou numa conta de um restaurante croata que eu tinha a marcar o livro que estava a ler, e foi mostrar a todo o restaurante aquela conta, que ele presumia ser em euros, como quem diz: “que grande martelada que o amigo levou”. Todos viram e riram com a conta até eu conseguir explicar que aquilo não eram euros. Enfim, foi uma noite animada.

Hoje de manhã estava na rua da aldeia a ver passar um desfile de miúdos por fazer anos que os gregos tinham expulso os alemães do território na Segunda Guerra, quando apareceu o meu tradutor do restaurante da berma de estrada do meio da serra a convidar-me para um café com os amigos.

Fomos beber café e jogar gamão e acabei por sair só depois do meio dia, debaixo de chuva e vento devastadores. Levei uma eternidade a fazer os primeiros 60 quilómetros pelo meio da serra. O vento e a chuva estavam fortíssimos, a estrada muito escorregadia e com derrocadas de pedras de todos os tamanhos e rios de lama a atravessarem.

Nesses 60 Km não vi um único carro e acabei por parar numa tasca de beira de estrada que era mais uma casa particular onde decidi almoçar, mesmo não tendo fome. Pensei que, provavelmente seria a minha ultima refeição do dia, pois por vezes não conseguia passar dos 20, 30 Km/h e não sabia quando chegaria a uma povoação.

A seguir ao almoço a chuva e o vento acalmaram e a coisa correu melhor. Pude finalmente apreciar a paisagem fantástica de cedros enormes e, pelas quatro da tarde, tinha atravessado a serra.

Rodei até às cinco e meia, com uns últimos 20 Km divertidos numa estrada de montanha larga, com curvas rápidas e piso ainda húmido mas com boa aderência. Estou numa pequena cidade no meio da Grécia chamada Elassona.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica diariamente o seu livro de bordo

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