Aula de mecânica e ladies night na Tailândia

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

No domingo, depois de passar numa estação de serviço a dar uma lavagem à moto, já sem a companhia da minha filha Maria, fui tratar de mudar os retentores da suspensão da frente da “Cross Tourer” e substituir um parafuso dum suporte da peseira de trás esquerda e depósito de bomba do travão traseiro, que se tinha partido,

Como referi há dias, a fuga de óleo na suspensão da frente ainda era causa das terríveis estradas que apanhei no norte da Índia e na Birmânia, mas como não tinha cá os retentores acabei por fazer a volta à Tailândia com a minha filha a perder óleo da suspensão.

Para a operação fui ter com os tipos da “Big Wing”, que só vendem Hondas de alta cilindrada e têm instalações que fazem inveja à maioria das europeias.

De início disseram-me que só reparavam motos vendidas por eles mas, enquanto eu bebia um sumo e um bolo no bar que ali tinham, reconsideraram e o gerente veio dizer-me que, como caso excepcional, aceitavam fazer o trabalho na minha moto.

O problema é que não sabiam como e, depois de verificar que a desmontagem das bainhas de suspensão estava a demorar muito, fui lá dentro ver o que se passava. Dois mecânicos olhavam para as instruções do fabricante  e para uma das suspensões, meio desmontada, sem saberem como prosseguir o trabalho.

Como eu tinha feito um mini curso de como substituir os retentores da suspensão na Honda em Portugal e já tinha feito o trabalho uma vez na Índia, acabei por fazer de professor de mecânica. Mais dois mecânicos juntaram-se à obra e os quatro, seguindo as minhas instruções, lá desmontaram a suspensão e substituíram os retentores, colocando depois óleo novo no sistema. Foi uma aula de que não mais se vão esquecer.

Como as estradas na Tailândia são de bom piso e a maioria dos clientes acabam por fazer poucos quilómetros (só vi motos de maior cilindrada em Bangkok) eles nunca tinham tido que substituir uns retentores de suspensão.

Encontrei um hotel onde fiquei a cem metros da “Big Wing” e, no dia seguinte, arranquei rumo a sul, a caminho da Malásia.

Nesse dia tive a sensação que andei quase sempre dois ou três quilómetros atrás da chuva porque, na maior parte do percurso, a estrada ainda estava molhada mas já não chovia. A sorte não podia durar sempre e, quando estava próximo de Hua Hin apanhei uma boa dose de água em cima. Como eram quatro e meia da tarde resolvi ficar por ali.

Hua Hin, tal como a vizinha Cha Am é uma vila costeira onde muitos dos habitantes de Bangkok vêm passar férias, mas sem grande graça. Aquela parte da Tailândia é das raras que não tem muita vegetação e a vila em si não é atrativa. Instalei-me num hotel no centro da vila e, pelas oito e meia da noite fui à procura de um restaurante para jantar. Atravessei a rua e encontrei um bar/restaurante com bom aspecto. O dono, um inglês dos seus sessenta e poucos anos, rabo de cavalo e barriga a condizer, veio receber-me à porta de copo de vinho tinto na mão. O estabelecimento era pequeno, mas quatro empregadas movimentavam-se de um lado para o outro sem clientes para servir. Uma quinta, dos seus trinta e cinco anos bem conservados, que acompanhava o proprietário e um amigo com um enorme balão de vinho tinto, veio apresentar-se como gerente e aconselhar-me a voltar lá na sexta feira que era a “ladies night”. Pela forma como o patrão lhe agarrava a cintura e beijava o pescoço pareceu-me ser mais que gerente.

Saí dali pelas nove e meia da noite e decidi explorar a movimentada rua. Era composta por uma série de bares e restaurantes, muitos visivelmente propriedade de europeus que ali se decidiram instalar, repletos de miúdas e travestis a chamarem-me para cada um deles.

A prostituição é um grande negócio na Tailândia. Movimenta milhões, representando, segundo os últimos números, 3 a 4% do PIB. Existe principalmente nos locais turísticos pois os melhores clientes são estrangeiros. Por todo o lado se vêm rapazes da minha geração acompanhados de raparigas locais com menos vinte ou trinta anos e algumas vezes miúdos nos seus trintas, com raparigas das mesmas idades. Algumas giras mas muitas “de fugir”. Ainda no outro dia comentei com a minha filha o caso de um inglês, dos seus trinta e poucos anos, com bom aspecto, que estava no nosso hotel ao pequeno almoço acompanhado por uma tailandesa gorda e feia que metia medo ao susto.

Ele estava com uma cara de quem não se tinha bem apercebido com quem tinha dormido e só com a luz da manhã se tinha consciencializado da situação em que se encontrava. Imaginei aquele miúdo a encomendar pela internet uma miúda maravilhosa e entregarem-lhe aquele estafermo, na escuridão da noite, já depois de ter bebido três litros de cerveja.

Só no dia seguinte ao pequeno almoço percebeu onde se tinha metido e a cara dele não enganava ninguém. Suponho que nestes casos não se aceitem reclamações.