Austrália: Ao fim da tarde o salto do canguru

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Estava estafado depois da grande etapa do dia anterior. Às nove da noite enfiei-me dentro do saco cama a ler e meia hora depois apaguei a luz e adormeci. Acordei às seis da manhã, fresco que nem uma alface. Antes de arrumar as coisas peguei na moto e fui para a porta de um pub onde tinha estado na tarde anterior com acesso à internet. Sentei-me na escada cá de fora, pois ainda estava fechado, e liguei o computador. Uma hora depois voltei ao acampamento arrumar a tralha e tomar um duche e o pequeno-almoço. Arranquei pelas dez da manhã, como de costume.

Ao longo do dia e à medida que me aproximava mais do oceano, a temperatura foi ficando mais agradável e parei para almoçar numa pequena cidade já com um ar civilizado, Charters Towers.

Queria ir a Cairns, na costa mas mais a norte do ponto em que estava e em vez de escolher ir direito à costa e apanhar uma estrada que iria mais tarde percorrer em sentido inverso, preferi rumar a norte pelo interior. Era mais uma vez uma estrada muito isolada e 200 Km depois de sair de Charters Towers, onde pensava existir uma pequena cidade, o local não era mais que um posto de abastecimento muito básico, com um parque de campismo sinistro. Perguntei onde era a próxima vila e disseram-me ficar a cerca de 160 Km de maneira que, embora já tarde para mim, porque evito o mais possível andar de noite, arranquei para Mount Garnet.

A minha teoria sobre a hora dos cangurus saírem para a estrada confirmou-se quando, ao final da tarde, comecei a ver primeiro dois cangurus na berma da estrada, mãe e filho, com ar de quem hesitava, com medo de serem atropelados e, mais à frente, três adultos aos saltos a atravessarem a estrada. Aqui percebi porque são tantas vezes atropelados. É que eles dão saltos grandes e, não olham para ver se vêm carros ou motos, simplesmente saltam da berma para o meio da estrada. Foi 100 metros à minha frente e por isso não corri o risco de os atropelar mas, ao constatar que era aquela hora que eles saíam à rua fui o resto do trajeto com enorme atenção, até porque a vegetação começava a ser bastante mais densa.

Cheguei a Mount Garnet já ao cair da noite e acabei por montar a tenda com muito pouca luz.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica o seu diário de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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