Darwin e a praia dos crocodilos de água salgada

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Mal o avião aterrou um cheiro intenso a queimado invadiu a cabina. Os passageiros que estavam à janela apressaram-se a tentar perceber, através da noite escura, de onde vinha aquela cor encarniçada do céu. E, assustados, observavam asas e motores. Ao mesmo tempo a hospedeira chefe, com ar preocupado, soltava-se do seu cinto de segurança, mais completo que o dos passageiros, levantava-se da cadeira com assento que levanta de costas para a cabine de pilotagem, a lembrar as das velhas salas de cinema, e pegava no telefone para anunciar ao comandante o forte cheiro a queimado, ainda o avião rolava pela pista. Tudo isto não demorou mais de 10 a 15 segundos, até se ouvir a voz do comandante anunciar aos passageiros: Não se preocupem. Este cheiro a queimado não vem do avião. O que se passa é que parece estar tudo a arder à volta do aeroporto.

No dia seguinte os jornais mostravam carros e casas em cinzas mas a maior parte foi mato, em grandes extensões, como é comum na Austrália.

Tinha acabado de aterrar em Darwin, para o regresso à minha volta ao mundo de moto. Passava pouco das cinco da manhã e decidi ficar uma hora ou duas pelo bar do pequeno aeroporto, à espera que fossem horas decentes para aparecer no hotel que tinha reservado uns dias antes.

Quando finalmente saí para a rua o sol já tinha nascido mas o fumo intenso não deixava ver mais que uns vinte metros à frente. O chofer de táxi considerou o fogo uma banalidade e três ou quatro quilómetros fora daquela zona já podíamos ver o azul do céu com o calor que prometia.

— As praias são boas, por aqui?

— Sim, mas não se pode tomar banho.

— Porquê?

— Crocodilos e alforrecas, que se agarram ao corpo e provocam fortes queimaduras.

Nunca tinha ouvido falar em crocodilos de água salgada, mas o homem informou-me que são os piores.

— Bastante maiores que os dos rios e pântanos atingem facilmente os cinco metros e em vez de arrancarem um braço ou uma perna comem a vitima até ao ultimo osso.

Aqui, todos os anos morrem pessoas comidas pelos crocodilos, conta-me o homem.

— Já ninguém vai nadar mas às vezes andam à pesca, em pé nos barcos e os animais saltam da água para os agarrar.

Darwin é uma cidade pequena, com pouco movimento. É aqui que chegará a moto que, depois de muita insistência minha junto da companhia de navegação timorense, lá foi carregada num contentor transportado por um navio que, a fazer escala em Singapura, há de aqui chegar dentro de uns dez dias. Não me resta mais que aguardar a passear e ler na pequena piscina do hotel.

___________________________________________________________________

*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica o seu diário de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

ler + em Volta ao Mundo em Crosstourer