O nascer do sol na grande duna do Erg Chebbi em Marrocos é o mais próximo que já estive de uma experiência religiosa. O majestoso Sahara estende ali o seu primeiro tapete de areia fina que se perde num horizonte de reflexos dourados. A luz e a força que a visão do deserto emana é ainda maior quando estamos sentados em cima de um camelo e temos a cabeça envolta num lenço touareg. É impossível não me imaginar um Lourenço das Arábias ou o Omar Sharif a fazer a sua extraordinária corrida de aparição no horizonte em cima de um camelo.
Um camelo dromedário (camelus dromedarius) de uma bossa, porque há os de duas – o camelus bactrianus – é um extraordinário animal, o maior dos viajantes, o mais resistente e estóico e o mais determinante para as civilizações do Norte de África e da península arábica. Autêntico símbolo de uma civilização, o camelo é conjuntamente com o cavalo o mais importante animal para a história da humanidade. É usado desde a antiguidade como meio de transporte, carga e alimentação (carne e leite). Curiosamente vestígios paleontológicos indicam que os antepassados dos camelos, os Camelops, habitavam a América do Norte durante o período Paleogénico e depois se disseminaram por vários lugares da Ásia e do Norte de África. Foi no misterioso Reino de Punt, algures na Somália, que os primeiros camelos foram domesticados aproximadamente em 2000 A.C. São esses cinco mil anos de servidão que os camelos carregam no seu olhar ausente, triste e conformado. A sua história e a forma como se foram apurando geneticamente para enfrentar os mais extremos ambientes são testemunho da prodigiosa capacidade da natureza em adaptar as suas espécies. As bossas, onde armazenam substâncias nutritivas em forma de tecido adiposo e a gordura concentrada no topo do corpo, evitam a retenção da energia térmica. As patas com larga base de apoio dão capacidade de tração e evitam que se enterrem na areia e as longas pestanas e robustas sobrancelhas protegem os olhos durante as tempestades da areia. Apesar de serem grandes maratonistas, os camelos são animais rápidos, capazes de atingir velocidades próximas dos 65 km/h o que os transformou, naturalmente, em poderosas armas de guerra, capazes de investidas brutais e rápidas que assustavam a cavalaria adversária.
A capacidade de suportar grandes amplitudes térmicas (um camelo só começa a suar a partir dos 40 graus) e de aguentar sem beber muito tempo são no entanto as suas características mais lendárias. Nas tabernas portuguesas não era raro haver o pratinho de loiça na parede com os seguintes dizeres “O camelo é o animal que aguenta mais tempo sem beber, não sejas camelo, bebe”. Mal saberão os taberneiros que o camelo é um raro cliente, mas quando bebe é melhor que uma cáfila de bêbados. Um camelo pode ingerir 200 litros de água de uma só vez e que lhe dão para uns bons dias no deserto. Outra caracteristica muito apreciadas nos camelos é a sua docilidade. Quando se sentem ameaçados cospem e em casos extremos podem morder, mas são naturalmente fieis e complacentes com os donos. Uma formação de camelos é uma cáfila e tem esta extraordinária condição – os camelos gostam de trabalhar em equipa e para um novo camelo ser aceite pelos seus pares tem primeiro de ser “apresentado” aos restantes membros do grupo. Se há animal que melhor ilustra o team building é o camelo.