Hoje saí de Katmandu pelas 11 horas  para enfrentar a terrível estrada que é a principal, senão a única, entrada e saída da cidade e onde já tinha passado quando cheguei.

Demorei cerca de duas horas para fazer os primeiros cinquenta quilómetros. É uma estrada de serra muito esburacada com centenas de camiões que se arrastam e formam filas intermináveis de cada vez que um avaria, ficando a impedir uma das duas únicas vias.

De moto, vamos conseguindo passar entre os camiões mas a “Crosstourer”, com os 400 Kg que desloca carregada, não é “pêra doce” para dominar, principalmente quando escorrega para dentro das valas que existem no meio da estrada nas partes de terra, ao passar entre dois camiões.

Depois deste inferno saí para uma estrada estreita através dos Himalaias a caminho da cidade de Hetauda. Foram cem quilómetros numa estrada muito sinuosa e esburacada mas praticamente sem trânsito e com uma paisagem deslumbrante. Muitas vezes tive que engatar primeira para passar por rios com pedras que atravessavam a estrada ou em cotovelos com o piso muito degradado.

Tinha saído de Katmandu com 26º de temperatura mas na montanha, onde a altitude subia a perto de 2500 metros, a temperatura desceu para 17º e começou até a chover um pouco. O problema foi o nevoeiro denso que encontrei na parte mais alta e que não me deixava ver um palmo à frente do nariz.

Por estes lados vêm-se muitos grupos de crianças de todas as idades a virem das escolas e parecem mesmo existir mais escolas que casas onde viverem.

Pelas três e meia da tarde, sem ainda ter encontrado uma das habituais bancas de fruta para almoçar, fui atraído por uma panela ao lume numa barraca sem janelas e parei. Comi uns fritos estranhos, não sei de quê, embrulhados em papel de jornal. Provavelmente pernas de lagarto. Lembrei-me de uma conversa que tinha tido há quinze dias com a embaixatriz do Peru na India que me perguntava:

— Mas não leva nada reservado?

— Não.

— Então é como nos filmes.

— Sim, é como nos filmes.

Cheguei a Hetauda perto das cinco da tarde. Tinha percorrido apenas 150 Km desde Katmandu, mas instalei-me no único hotel existente na cidade, pois a distância para a próxima não me permitia que lá chegasse de dia.

Mostraram-me primeiro o quarto standard, de três euros por noite, mas acabei por ficar no “luxury”, com um ar bastante melhor e mais limpo, por seis euros.

Um dos empregados a observar a moto perguntava-me às tantas quanto custava, a primeira pergunta que fazem na Índia, mas pouco habitual aqui. Quando lhe respondi cerca de 20 mil dólares  respondeu: “Ena pá, com esse dinheiro compram-se duas casas aqui”.

Amanhã a estrada é bastante melhor e espero fazer perto de 400 Km até à fronteira com a Índia para no dia seguinte entrar no Butão.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica diariamente o seu livro de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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Francisco Sande e Castro

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