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Onda de choque varre indústria automóvel europeia

Anúncio de profunda reestruturação da Volkswagen veio agravar o panorama do mercado automóvel europeu, que já atravessava um período muito difícil.

(Foto: HANNIBAL HANSCHKE/EPA)

As bolsas de valores europeias refletem perdas das grandes marcas da indústria automóvel europeia. É uma onda de choque que varre toda a indústria automotiva, indicam os analistas da corretora XTB numa das suas mais recentes análises.

A grande “pancada” foi dada pelo grupo alemão Volkswagen, que tem participação acionista pública (Estado da Baixa Saxónia), e que comunicou estar a estudar o encerramento de quatro fábricas no país, Hanover, Zwickau, Emden e Neckarsulm (esta dedicada à Audi), e a supressão de cerca de 100 mil postos de trabalho. Também o investimento em investigação e desenvolvimento (I&D), que é crítico para contrabalançar o sucesso da indústria chinesa, será reduzido em 15% ao longo dos próximos cinco anos. Estes cortes levaram o título mobiliário da empresa a cair para mínimos do final da primeira década deste século. Estes cortes são mais violentos do que os anunciados em 2009 pela General Motors.

Indica a XTB no referido estudo que os elevados de custos de produção na Alemanha e a rigidez laboral “são apenas sintomas” de um problema mais profundo: “a verdadeira causa é a crise de vendas e a perda acelerada de quota de mercado”. A VW é a terceira marca na China, mas já dominou o mercado, sendo ultrapassada pelos conglomerados BYD e Geely (este detém a Volvo e a Polestar).

A grande questão que se coloca é se todo o setor automotivo europeu está em risco, e se a crise se tornará sistémica e ampliará o contágio. Refere a XTB que a Stellantis – que detêm uma dúzia de marcas, caso da Peugeot, Citroën, Fiat, Jeep, DS, Alfa Romeu e outras – é o segundo maior conglomerado europeu, e perdem terreno “de forma consistente”. Estão em dificuldades na transição para os EV (veículos elétricos) e registam uma redução da procura nos veículos a combustão mais acessíveis. As margens operacionais estão a ser ameaçadas com a potencial “guerra de preços” onde terão de entrar.

Sobre a alemã BMW, esta é das poucas em contraciclo: a marca está a conseguir contrariar a tendência de contração e regista um crescimento sólido. Na bolsa de valores já fez mínimos relativos, mas está a cair com menos intensidade.

Também a Mercedes-Benz, do grupo alemão Daimler, e cujos maiores acionistas individuais são chineses, tem sucesso em mercados periféricos, caso de Portugal, mas a desaceleração económica na China revê impacto e já faz revisões nas perspetivas de lucro no segmento premium.

A Renault refugiou-se na aposta “em marcas de valor económico”, caso da Dacia, e em parcerias estratégicas de motores híbridos, mas tem em risco o volume de vendas no “velho continente”, perante a subida dos concorrentes chineses. Na bolsa, as ações da Renault estão próximas dos mínimos de 2022, sendo que estes valores coincidem com os mínimos de cotação obtidos pela marca em 2008/2011, mas a empresa, em termos bolsistas, está melhor do que a Stellantis que já quebrou os mínimos de 2020.

Em contraste, as marcas BYD, Cherry, SAIC e Leapmotor (esta última é representada em Portugal pela Stellantis) duplicaram a quota de mercado combinada na Europa durante o corrente ano, e em termos homólogos.

Será escusado frisar que as tarifas aduaneiras impostas aos carros chineses e as tensões geopolíticas são ultrapassáveis pela cadeia de abastecimento de baterias, e que permite aos grupos chineses colocarem produtos tecnológicos com valores altamente competitivos, e que os construtores europeus não conseguem competir, exceto se trabalharem sem margens.

A XTB diz que o caso VW tem de ser visto como “um choque de realidade” na indústria automóvel, e aconselha os investidores a monitorizar os fluxos de caixas para perceberem se as marcas irão aguentar as vendas em queda sem penalizarem as remunerações acionistas.

Os analistas antecipam que o índice de referência alemão DAX tornar-se-á mais volátil com as oscilações dos títulos da VW e da BMW perante conflitos laborais que acontecerão com o fecho das unidades industriais. O mercado financeiro prefere, atualmente, as empresas que canalizam a liquidez para a IA e a eficiências de softwares, em detrimento de empresas tradicionais de capital intensivo.

Vitor Norinha

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