F1: Ferrari joga “trunfo secreto” na Áustria para travar domínio da Mercedes

A Scuderia apressou a estreia da sua primeira evolução de motor sob o novo sistema “ADUO”, depois do triunfo histórico de Hamilton em Barcelona.

Facebook Lewis Hamilton

A Ferrari confirmou que vai antecipar a introdução da sua primeira grande atualização de motor da temporada de 2026 já para este fim de semana, no Grande Prémio da Áustria. A decisão surge no rescaldo de uma motivadora vitória de Lewis Hamilton no GP da Catalunha — a sua primeira de encarnado —, que quebrou uma sequência avassaladora de seis triunfos consecutivos da Mercedes.

A novidade técnica assenta no novo mecanismo regulamentar da FIA conhecido como ADUO (Additional Development and Upgrade Opportunities). Este sistema de compensação foi desenhado para equilibrar as forças entre os fabricantes de motores. Após a primeira avaliação da federação, o motor da Red Bull (RBPT) foi coroado como a referência da grelha. A Mercedes ficou ligeiramente atrás (mais de 2%), garantindo direito a uma atualização de desenvolvimento, enquanto a Ferrari, a Audi e a Honda, com um défice registado superior a 4% no motor de combustão interna (ICE), receberam “luz verde” para introduzir duas evoluções ao longo do ano.

Maranello não perdeu tempo e é a primeira das equipas a acionar este trunfo técnico.

Nos bastidores da Scuderia, a evolução é tratada internamente como o “Motore 3 Evoluto”. Embora a imprensa italiana já lhe chame “truque de magia”, a verdade técnica esconde uma engenharia térmica extrema e agressiva.

Para suportar pressões brutais sem comprometer a fiabilidade, a Ferrari abdicou do alumínio tradicional na cabeça dos cilindros, optando por uma liga metálica altamente resistente. Depois, rompendo com os manuais clássicos de mecânica — que procuram ar o mais frio possível para admissão —, a Ferrari vai elevar a temperatura de entrada do ar no intercooler para lá dos 115°C (quando os rivais operam entre os 70°C e 80°C). Esta pressão e calor extremos visam alcançar uma combustão com níveis de eficiência energética nunca antes vistos.

Parceria com a Shell – combustível especial

Para complementar as alterações de hardware, a petrolífera Shell desenvolveu um combustível de alta caloria específico para esta especificação, maximizando a potência por cada gota e contornando as restrições de fluxo de combustível a que os automóveis estão limitados.

Apesar do entusiasmo dos tifosi, o diretor de motores da Ferrari, Enrico Gualtieri, apressou-se a acalmar as expectativas. O engenheiro italiano recordou que o desenvolvimento nesta era da F1 faz-se ao milímetro.

“A atualização que trazemos para Spielberg é relativamente menor. É o fruto de semanas de trabalho intenso para transferir as simulações de laboratório para a pista. No entanto, seria pouco realista esperar que uma única alteração mude a ordem competitiva por si só. A performance constrói-se de forma progressiva e este é apenas o primeiro passo de um plano muito mais ambicioso, disse o diretor técnico de motores da Ferrari

Estima-se que este primeiro pacote ADUO traga um ganho modesto, inferior a 10 cavalos de potência. Contudo, serve como base de validação crucial para a segunda e mais robusta fase de atualizações, prevista para o Grande Prémio de Itália, em Monza, que deverá incluir um turbo redesenhado.

Contas do campeonato e estreia de Beganovic no FP1

A urgência da Ferrari em colocar cavalos adicionais em pista justifica-se ao olhar para a tabela de classificação. Lewis Hamilton, galvanizado pela vitória em Barcelona, subiu para os 115 pontos, mas continua a uma distância considerável (41 pontos) do jovem prodígio da Mercedes e líder do campeonato, italiano Kimi Antonelli, que soma 156 pontos.

Num fim de semana de extrema importância técnica, a Ferrari terá ainda de gerir o programa de pista com um olho no futuro. Charles Leclerc vai ceder o seu monolugar (SF-26) na primeira sessão de treinos livres (FP1) desta sexta-feira ao jovem piloto da academia da Ferrari, Dino Beganovic, cumprindo assim uma das sessões obrigatórias de rookies impostas pelo regulamento.

Se o “truque de magia” da Ferrari vai mesmo assustar a Mercedes nas subidas íngremes do Red Bull Ring, é a grande resposta que começará a desenhar-se já a partir das primeiras sessões de treinos na Estíria.

Ricardo Simões Ferreira

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