/Entre gotas com um BMW 1602

Entre gotas com um BMW 1602

Os meses chuvosos são tipicamente sinónimo de menos clássicos na estrada, quer pela óbvia vertente de preservação, quer pela maior propensão a desaires automóveis.

Certamente os mais ávidos pela salvaguarda darão por si a dizer vezes demais que “se chover, o clássico fica na garagem”. Confessando, mais cumpridor deste mandamento é praticamente impossível (em seis meses apenas caí na tentação uma vez, e tratando-se do religioso dia de certificação), mas há vezes, e vezes.

Ao esmorecer no leito do sofá de sala ao fim de mais um dia de labuta, veio o pensamento de a derradeira descontracção vir de uma condução em hora já alongada ao volante da minha Blau (baptismo recente da matriarca automóvel cá de casa).

Sem mais demoras, e como que acerbado por uma súbita lufada de ar, dou início ao ritual que preconiza qualquer saída ao volante do pequeno 1602: a recolha da chave do seu local de repouso, da boina (mais pela aragem nocturna do que pelo sol inexistente), das luvas, e do fiel kit de rápidos reparos. Nove a treze minutos depois (valor proveniente de um fatigante desenho de experiências), e com o alcance das temperaturas certas, tudo pronto.

O roteiro foi o típico de domingo, com um best of dos locais de natureza cinematográfica da cidade. Entre a marginal da Praia Norte, o Forte Santiago da Barra, o topo de Santa Luzia (sem nunca esquecer a afamada Rampa), e a Avenida dos Combatentes da Grande Guerra, acabo por me recordar da noção de tempo, e da previsão meteorológica que havia visto há já hora e meia atrás. Dá-se então o inevitável, e gota após gota, a intensidade eleva-se.

Pelo conhecimento de locais de abrigo (ou não fosse a mente já anteriormente ter perspectivado tal situação afligente), inicio um desvio de rota até ao estacionamento subterrâneo mais próximo, o que em Viana do Castelo se traduz numa distância percorrida em 2 minutos para qualquer direcção. Já havia tanta vez feito caso da situação, que achei caricato o recurso a um destes como fonte de abrigo, mesmo na chamada “hora H”, em que os céus se abrem em toda a plenitude, e um aguaceiro passa a dilúvio.

Ao início dou por mim numa imensidão de espaço livre, com um lugar ocupado a cada cem, mas com o aumento da deslocação subterrânea, também aumentava a recompensa, e os olhos, já cansados, começam a reconhecer as curvas que lhes são apresentadas.

Clássicos. Para onde quer que olhasse, clássicos. Dispersos pela zona mais “profunda” do parque, alguns sob uma qualquer coberta, outros destapados, em melhor e pior estado de conservação, com maior e menor proximidade ao automóvel do lado, mas, ao fim, clássicos!
Levo a Blau à paragem junto a uma das silhuetas mais conhecidas, e vejo a fotografia na minha mente. A imaginação torna-se realidade, e visualizo a foto seguinte, e a seguinte, tendo nos interlúdios os mais puros momentos de contemplação e admiração para o tesouro que havia descoberto.

Certamente, e pelos sinais mais óbvios, havia automóveis deste grupo que não se moviam à semanas, talvez meses, passando decerto desapercebidos ao típico utilizador do espaço, com a premência de picar o ponto pelas oito, e de o despicar pelas dezassete, mas existe uma certa beleza nesta natureza morta, nas linhas empoeiradas, no “velho” e no restauro, beleza essa que não encontrou melhor momento de admiração do que as “altas” horas da madrugada.

Escusado será dizer que o tempo passado sob a terra foi o suficiente para que as águas se esgotassem e, perante tal conclusão, é de forma célere e algo desgostosa que abandono a boa companhia, e inicio um sprint caseiro pela cidade, que vê a sua conclusão no local de pernoite designado, mesmo antes de novo dilúvio.

José Brito / Jornal dos Clássicos