O Autódromo Hermanos Rodríguez acolheu este domingo um Grande Prémio da Cidade do México de nervos à flor da pele, pautado por múltiplos incidentes em pista e acesas polémicas.
Alheio ao ambiente tenso e às disputas acidentadas que varreram o pelotão, Andrea Kimi Antonelli fez história ao levar o seu Mercedes até ao terceiro lugar, a 4,006 segundos do vencedor Max Verstappen (Red Bull). Aos 20 anos, o piloto transalpino assegurou matematicamente o Campeonato do Mundo de Pilotos de 2026 com quatro rondas de antecipação, quebrando o recorde de precocidade de Sebastian Vettel e recuperando para a Itália um ceptro que não era conquistado desde Alberto Ascari em 1953.
Uma das maiores polémicas da corrida surgiu logo após os mais de 800 metros de aceleração até à primeira travagem, onde a disputa interna da Ferrari descarrilou. Lewis Hamilton defendeu o interior na Curva 1 face ao ataque exterior de Charles Leclerc, mas a falta de espaço na transição para a Curva 4 revelou-se fatal: sem raio de viragem suficiente para os dois carros, ambos alargaram a trajetória para além dos corretores. Leclerc acabou mesmo empurrado para a relva e cortou a curva em linha reta, reentrando no asfalto com tração e velocidade superiores, o que lhe conferiu uma vantagem imediata sobre o britânico que prontamente chamou a atenção dos comissários. A hesitação e o desfasamento provocados pela manobra abriram a porta perfeita a Verstappen que, embalado pelo cone de aspiração, contornou a confusão por dentro e assumiu a liderança da corrida. Antonelli, ciente de que um nono lugar lhe bastava para o título, travou com prudência, evitou os detritos e instalou-se com segurança no terceiro posto.
Os comissários acabaram por atribuir apenas 5 segundos de penalização a Leclerc (e não os 10 que as regras ordenariam) por considerar atenuante que Hamilton, ele próprio, saiu com as quatro rodas da curva. Ou seja, também ele estava com velocidade acima da necessária para conseguir curvar, pelo que a responsabilidade do incidente deveria ser partilhada.
Mas os incidentes não se ficaram por aqui. Conforme a prova avançava, as disputas na zona pontuável endureceram: manobras defensivas no limite nas curvas 4 e 5 deram origem a toques, saídas para a relva e penalizações por limites de pista e pilotagem errática, gerando fortes protestos via rádio de vários chefes de equipa contra o critério dos comissários.
Antonelli, ciente de que um nono lugar lhe bastava para fechar as contas, adotou uma abordagem prudente, mantendo-se fora dos focos de atrito e assumindo a terceira posição sem arriscar em disputas desnecessárias.
O momento verdadeiramente decisivo do Grande Prémio ocorreu à volta 42. Valtteri Bottas sofreu uma quebra repentina na suspensão dianteira esquerda e embateu violentamente contra as barreiras Tecpro. O impacto destruiu a secção de segurança e espalhou peças pela pista, obrigando a direção de corrida a acionar a bandeira vermelha e ordenar a paragem total no pit lane. O finlandês saiu do carro sem ferimentos, mas a neutralização alterou por completo a equação estratégica: as diferenças acumuladas esfumaram-se, as equipas efetuaram trocas de pneus gratuitas nas boxes e a prova foi relançada com uma partida parada na grelha. No reatamento, Verstappen segurou a liderança sob pressão asfixiante de Hamilton até à bandeirada de xadrez, enquanto Antonelli geriu com frieza a distância para Leclerc (que com uma travagem a frio ficou com os pneus danificados e esteve a defender com dificuldade o quarto lugar até ao fim) e Norris, carimbando sem sobressaltos os 15 pontos vitais para o título.
Na frente da corrida, o duelo pela vitória manteve-se vivo até aos metros finais, sob as habituais dificuldades mecânicas provocadas pelo ar rarefeito da altitude mexicana. Verstappen geriu com rigor a refrigeração do monolugar e a borracha dos pneus, sustando os ataques contínuos de Hamilton, que terminou a escassos 0,799 segundos. "A largada foi decisiva. Conseguimos a aspiração certa e assumir a liderança permitiu gerir as temperaturas de forma mais tranquila, mesmo numa tarde com tanta fricção em pista e decisões complicadas. O Lewis esteve sempre perto, mas o carro respondeu nos momentos críticos", apontou o neerlandês no parc fermé.
Hamilton, apesar da frustração de ver a vitória escapar por menos de um segundo, destacou a intensidade da perseguição e congratulou o sucessor: "Demos tudo para colocar pressão no Max, mas faltou aquele último décimo nas retas. Deixo também os meus parabéns ao Kimi: fez uma época brilhante, manteve a cabeça fria perante todos os incidentes de hoje e merece inteiramente este campeonato."
Sem entrar em batalhas que pudessem comprometer o objetivo maior, Antonelli geriu a distância para Charles Leclerc (4.º, a 10,707 segundos de Verstappen), Lando Norris (5.º, a 11,778 segundos) e George Russell (6.º, a 12,263 segundos), garantindo com segurança os 15 pontos do pódio.
Visivelmente emocionado após sair do W17, o novo monarca da disciplina máxima do desporto motorizado destacou o pragmatismo da sua prova: "É difícil encontrar palavras para descrever este momento. Sabíamos exatamente o que tínhamos de fazer: manter a calma, evitar as zonas de conflito e as manobras arriscadas e levar o carro até à meta. Ser campeão do mundo é um sonho de infância tornado realidade, que pertence a toda a equipa Mercedes."