Opiniao DN

Que regresse a saudável desconfiança: por que precisamos de um novo 'X-Files'

Entre a infantilização reinante do "Estado paizinho" e a apatia de uma cultura pop domesticada, esquecemo-nos de que a liberdade começa com uma pergunta desconfortável: quem vigia os que nos prometem salvação?

Ricardo Simões Ferreira

Há uma frase icónica da ficção televisiva dos anos 90 que marcou pelo menos duas gerações, mas que hoje soa quase como um dialeto alienígena: Trust No One.

Quando Chris Carter colocou Fox Mulder e Dana Scully a percorrer armazéns sombrios e corredores cinzentos do Pentágono, repletos de caixas com segredos de Estado (cenário, aliás, inspirado no final de Raiders of the Lost Ark – Os Salteadores da Arca Perdida, de Spielberg), The X-Files (Os Ficheiros Secretos) não era apenas uma série sobre extraterrestres ou aberrações genéticas. Era, acima de tudo, um tratado sobre a necessária, higiénica e saudável desconfiança do poder.

Nos anos 90 – a era da ingénua proclamação do "fim da história", do triunfo presumido das democracias liberais e de um otimismo complacente pós-Guerra Fria –, a ficção teve a clarividência de nos lembrar de uma verdade atemporal: o monstro burocrático mente, e mente sempre. O poder oculta, manipula e preserva-se a si próprio a todo o custo.

Três décadas passadas, olho para a cultura popular e para o debate público com uma conclusão desoladora: desaprendemos a duvidar. Pior! Fomos ensinados a desejar a tutela.

Precisamos urgentemente de um novo X-Files. Não para procurar discos voadores ou homenzinhos verdes (perdão, cinzentos), mas para desmantelar a ficção perigosa – e sobretudo suicida – de que o poder institucional existe para cuidar de nós.

A linha de montagem da complacência

A evolução das últimas décadas é sintomática e revela um empobrecimento programado do espírito crítico dos cidadãos. Se os anos 70 foram marcados por uma rebeldia cínica e desconfiada e os anos 80 pelo individualismo pragmático do mérito – isto nos EUA e na Europa Ocidental, ainda que menos em Portugal, por razões que já cheguei a aflorar num artigo no DN sobre o ano em que a verdadeira democracia chegou –, os anos 90 ofereceram-nos uma autonomia reflexiva rara: a consciência lúcida de que o cidadão comum precisava de manter os olhos abertos perante um Estado (ou melhor, um Governo) que crescia em opacidade, ambição e alcance tecnológico.

E The X-Files não foi um fenómeno isolado. A ficção daquela década parecia partilhar o mesmo desassossego cívico. Em Nowhere Man, a vida de um fotojornalista era cirurgicamente apagada no espaço de uma tarde após testemunhar uma execução sumária governamental; em Dark Skies, a história contemporânea era reescrita como uma vasta encenação orquestrada pelo Majestic 12, onde tecnocratas decidiam que a população não tinha maturidade para conhecer a verdade; Millennium crivava uma sociedade para-estatal infiltrada nas agências públicas sem qualquer escrutínio democrático; La Femme Nikita levava a "razão de Estado" para um vazio legal absoluto, gerindo vidas humanas como mero inventário descartável… Nestas séries, o maior perigo para o cidadão comum não vinha de fora, mas do secretismo arrogante dos seus próprios governantes.

Hoje, pelo contrário, o entretenimento de massas, tanto na televisão como no cinema, parece saído de um rolo compressor a papel químico. A cinematografia perdeu textura e contraste, a iluminação digital tornou-se propositadamente plana com o ponto de foco ao centro para ser depois fácil caber no ecrã de um telemóvel, e os guiões parecem exercícios burocráticos de preenchimento de conformidades morais desenhadas por departamentos corporativos de relações públicas. Nem o célebre Código Hays da Hollywood dos anos 30 conseguia fazer algo tão homogéneo!

Esta domesticação narrativa assenta em dois pilares convenientes. Em primeiro lugar, no fetiche desmedido pelos super-heróis dos comics. As novas figuras tutelares da cultura pop já não desafiam as estruturas de autoridade; funcionam antes como a sua guarda pretoriana de luxo, limitando-se a gerir danos colaterais e a restaurar o statu quo. A mensagem subliminar passada aos mais jovens é inequívoca: perante a complexidade do mundo, a única salvação reside na entrega a uma elite extraordinária, dotada de poderes benevolentes e legitimidade inquestionável. (Até Batman, o eterno outsider, na versão mais realista até agora levada ao grande ecrã por Matt Reeves em 2022 e interpretada por Robert Pattinson, consegue estar a trabalhar lado a lado com a polícia!)

Em segundo lugar, quando Hollywood procura simular audácia crítica, refugia-se invariavelmente no bode expiatório da grande corporação gananciosa. É sempre um alvo seguro, totalmente inócuo. O recente (e brilhante) Coyote vs. ACME – um dos melhores exercícios modernos de "David contra Golias" – até esteve literalmente prestes a ser encerrado para todo o sempre num cofre pela Warner Bros. Discovery para servir como dedução fiscal em balanço contabilístico. Há de facto uma ironia suprema no facto de a indústria lucrar com a denúncia do capitalismo voraz enquanto gere as suas próprias obras com a frieza de quem apaga ficheiros para poupar impostos, mas essa crítica esquiva sistematicamente o verdadeiro monstro do nosso tempo: o corporativismo de compadrio, onde a megaempresa só sobrevive e asfixia a concorrência porque vive abraçada aos reguladores e subsídios do Governo. Convém nunca esquecer: qualquer isenção fiscal é, tecnicamente, um subsídio. Claro que o facto de os impostos serem altíssimos, e o mesmo poder político que cria o imposto inventar a seguir a isenção para os atenuar, é uma questão de (má) política fiscal.

Os mitos intocáveis e o silêncio seletivo

Esta condescendência com o poder revela-se, de forma gritante, na assimetria escandalosa do escrutínio público e artístico.

O exemplo mais recente encontra-se com o que (não) se passa relativamente à Administração de Joe Biden. O evidente e progressivo declínio cognitivo de um presidente em exercício, a gestão autoritária dos mandatos da era pandémica, a teia de assessores a erguer um cordão sanitário em torno da Sala Oval, os perdões presidenciais preventivos no fim do mandato… Tudo isto teria dado direito a dezenas de sátiras impiedosas, minisséries dramáticas e investigações aprofundadas se o inquilino da Casa Branca usasse outra cor partidária. Mas como o imperativo moral da indústria era, e é, combater Donald Trump – com todos os imensos defeitos manifestos que este carrega –, o escrutínio jornalístico e cinematográfico simplesmente suspendeu-se.

Este vício de Hollywood em proteger os seus favoritos não nasceu ontem. É, aliás, a mesma condescendência histórica que consagrou John F. Kennedy como o mártir intocável e o herói supremo de Camelot. A cinematografia vendeu JFK como o modelo perfeito do estadista lúcido, vigoroso e progressista, mas o registo factual e documental revela um balanço recheado de falhas desastrosas.

Foi a fraqueza transmitida por Kennedy no desastroso encontro de Viena com Khrushchev, em 1961, que abriu a porta à agressividade soviética e encorajou a instalação de ogivas nucleares nas Caraíbas. Foi a sua hesitação fatal na Baía dos Porcos (o apoio aéreo faltou) que humilhou os Estados Unidos e empurrou definitivamente Cuba para a órbita soviética. A própria Crise dos Mísseis de 1962, cuja resolução é eternamente celebrada como uma vitória de nervos de aço, iniciou-se tarde demais por hesitações desnecessárias e terminou numa capitulação, à época, secreta: a paz foi comprada com a retirada oculta dos mísseis da NATO na Turquia e em Itália, fragilizando o flanco defensivo europeu apenas para salvar as aparências políticas da Casa Branca perante a sua opinião pública.

A tudo isto, o curto “reinado” de JFK na Casa Branca somou a escalada imprudente no Vietname, o aval tácito ao golpe que assassinou Ngo Dinh Diem e uma conduta privada compulsiva que roçava negligência de segurança nacional em plena Guerra Fria.

E, no entanto, Kennedy continua a ser o príncipe encantado do audiovisual, enquanto outros líderes são reduzidos a caricaturas do mal absoluto. A razão é simples: a cultura pop prefere a estética à substância e apaixona-se facilmente pela fábula do líder carismático que nos promete a Lua, esquecendo a fatura das suas fraquezas humanas e a realidade implacável dos incentivos políticos.

A perigosíssima sedução do "Estado paizinho"

É precisamente deste vazio de memória crítica que nasce o perigo civilizacional mais agudo do nosso tempo.

Hoje, as gerações mais jovens encontram-se encurraladas numa pinça ideológica sufocante. De um lado, a sedução tecnocrática de um "Estado paizinho" que promete redistribuição total, subsídios infinitos e proteção garantida contra todas as incertezas da vida adulta. Do outro, uma nostalgia nacionalista que promete exatamente o mesmo paternalismo tutelar, apenas trocando o vocabulário social pela retórica da ordem e segurança. Ambos os polos partilham o mesmo princípio fundacional: a convicção infantil de que existem governantes suficientemente iluminados para planear a nossa existência ao milímetro, desde que pertençam à nossa tribo ideológica.

Chegámos aqui por várias razões. Mas também ajudados pelo facto de que o cinema e a televisão abdicaram de alertar como essa promessa de redenção pelo poder central sempre terminou. Pelo contrário. O entretenimento de massas (e grande parte da informação, também) foi ocupado por pessoas que dedicaram décadas a ilustrar – e muito bem – a monstruosidade hedionda do nazi-fascismo, mas mantiveram uma amnésia cúmplice em relação ao horror do planeamento central coletivista que foi responsável por ainda mais mortes do que o outro regime hediondo.

A violência burocrática dos gulags, a fome planificada do Holodomor, os milhões de mortos do Grande Salto em Frente de Mao ou os campos de extermínio do Camboja – já para não falar dos assassínios de Fidel Castro – nunca tiveram direito a um tratamento proporcional no imaginário popular.

Como estas ideologias se mascaram de boas intenções, de igualdade e de compaixão pelos mais fracos, a cultura pop trata o seu rasto de miséria como um mero desvio de percurso ou um azar de execução. Mas a História não deixa margem para enganos: a tirania não é um acidente de percurso do Estado omnipotente, é a sua consequência biológica e matemática. Quem detém o monopólio de nos alimentar detém, por definição, o poder de nos matar à fome. Quem nos garante segurança absoluta exige em troca a única moeda que verdadeiramente importa: a nossa liberdade individual.

O que Mulder e Scully têm para nos ensinar

É por isto que precisamos de resgatar com urgência o espírito de The X-Files. Não precisamos de teorias da conspiração delirantes incubadas em caixas de comentários, nem do histerismo tribal das redes sociais. Isso temos em barda, tanto que ensurdece. O verdadeiro valor daquela dupla residia na fricção fecunda entre duas virtudes esquecidas.

Por um lado, o instinto de Mulder: a recusa visceral em aceitar conferências de imprensa e comunicados oficiais como a verdade. Trata-se daquela intuição cívica fundamental de que, sempre que o poder declara estar a agir para o nosso bem, devemos redobrar a vigilância sobre os nossos direitos. Quantas vezes o tivéssemos feito durante a pandemia e muitas inconstitucionalidades não teriam acontecido, como o caso dos turistas detidos num hotel da Madeira sem ordem judicial, só para dar um exemplo…

Por outro lado, encontramos o método de Scully: o rigor empírico intransigente, a medicina forense e o compromisso inegociável com os factos, sem os quais o ceticismo degenera em demência, paranoia e ruído inútil. Tivéssemos um pingo desse raciocínio crítico e não andaríamos aos gritos de pânico de cada vez que aparece um hantavírus algures… Ou um empresário resolve dizer que a IA vai matar-nos a todos.

Os monstros do século XXI já não habitam florestas escuras, nem descem de naves espaciais. Vestem fatos cortados à medida, comunicam através de campanhas de relações públicas irrepreensíveis ou manifestos online, manipulam subtilmente os algoritmos do debate público e legislam a partir de gabinetes climatizados sobre aquilo que nos é permitido dizer, pensar ou consumir.

Há um facto que não mudou nestes 30 anos: a verdade continua lá fora. Mas para podermos começar a procurá-la, o primeiro e mais urgente passo é recuperar a coragem moral de olhar para quem nos governa – venha ele de fato cinzento ou bandeira desfraldada – e dizer: nós não acreditamos em ti.