O interior do Li Auto L9, um dos melhores exemplos de como os ecrãs tomaram conta do tabelier em alguns modelos modernos.

Pequim quer travar a vertigem dos ecrãs gigantes nos automóveis

Regulador chinês coloca em consulta pública regras para impor botões físicos, manípulos mecânicos e bloqueio de funções críticas em andamento. Projeto para 2027 alinha-se com a pressão semelhante da Euro NCAP no Ocidente.
O interior do Li Auto L9, um dos melhores exemplos de como os ecrãs tomaram conta do tabelier em alguns modelos modernos.Li Auto
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A indústria automóvel passou a última década a tentar transformar o habitáculo num prolongamento do ecossistema dos telemóveis inteligentes: ecrãs quase de canto a canto do tablier, comandos físicos reduzidos a quase zero, manípulos de portas embutidos na carroçaria e menus digitais para tarefas tão elementares como ligar os limpa pára-brisas ou ajustar as saídas de ventilação. Mas agora o país que mais acelerou esta tendência digital prepara-se para travar a fundo esse minimalismo.

O Ministério da Indústria e Tecnologias de Informação da China (MIIT) publicou uma consulta pública técnica com 51 parâmetros de segurança que visam colocar ordem naquilo que as autoridades locais encaram como "inovação precipitada".

A iniciativa visa diretamente o modelo de desenvolvimento dos novos fabricantes de veículos elétricos e de gigantes tecnológicas como a Xiaomi, a Huawei (através do consórcio HIMA), a Li Auto ou a Zeekr, cujos ciclos de lançamento comprimidos para prazos de 12 a 18 meses têm levantado dúvidas quanto à validação ergonómica e à segurança física na estrada.

O regresso previsto do botão

As propostas do regulador chinês apontam para metas temporais exigentes. Caso o texto final venha a ser aprovado sem alterações substanciais, as novas regras aplicar-se-ão a 1 de janeiro de 2027 a novos projetos de homologação, concedendo aos modelos já em comercialização um prazo de adaptação técnica até 1 de julho do mesmo ano — sob pena de revogação de licença de venda ou ordens de recolha obrigatória (recall).

Entre as intenções mais incisivas está a interdição de ecrãs flexíveis ou desdobráveis no habitáculo — uma solução que fornecedores como a BOE já começavam a propor para criar divisórias ou monitores retráteis de tejadilho.

Além disso, os ecrãs centrais de grandes dimensões e os sistemas de projeção no pára-brisas (os Heads-up-Displays - HUD) deverão passar por avaliações apertadas de obstrução ao campo de visão do condutor (ao abrigo da norma GB 11562) e testes específicos de fragmentação e absorção de impacto em caso de colisão.

O projeto regulamentar inscreve ainda uma lista restrita de comandos essenciais que não poderão depender de menus táteis ou interfaces digitais. Luzes de perigo (quatro piscas), comutação de médios e máximos, limpa para-brisas, desembaciador dianteiro e traseiro, travão de estacionamento e seletores de marcha terão obrigatoriamente de manter comandos físicos dedicados.

As orientações vão ao ponto de sugerir dimensões mínimas para as teclas (pelo menos 10×10 mm) e exigir que continuem operacionais por via mecânica ou cablagem independente se o sistema de infoentretenimento sofrer uma falha de corrente.

Sem 'manípulos fantasmas' nem "Gravidade Zero' em marcha

A intervenção planeada por Pequim visa também duas soluções de design que geraram polémica recente em sinistros rodoviários: os puxadores exteriores embutidos e os bancos reclináveis "Gravidade Zero".

No caso das portas, a proposta pretende afastar os puxadores exclusivamente operados por atuadores eletrónicos, que a experiência já demonstrou falharem em situações de frio intenso ou de acidente grave.

A intenção é exigir uma folga física que permita a inserção manual dos dedos e a presença de uma ligação mecânica de recurso (por tirante ou cabo), viabilizando a abertura a partir do exterior mesmo após um embate violento com corte total de energia.

Em paralelo, os fabricantes poderão ser obrigados a instalar bloqueios de software nos bancos com modo de repouso profundo: reclinar o assento para além dos limites de eficácia dos cintos (os bancos "Gravidade Zero") com o veículo em marcha deixará de ser permitido.

O projeto prevê ainda proibir comandos de voz acionados por passageiros para manobrar funções críticas de condução (como fecho de portas, capô ou faróis) e restringir mensagens ou animações gráficas exteriores nas barras de iluminação LED.

Pressão chinesa junta-se à exigência europeia

O plano de Pequim surge numa altura em que o setor automóvel enfrenta um escrutínio idêntico na Europa, ainda que por vias distintas. O consórcio independente de segurança automóvel Euro NCAP já começou a penalizar na sua avaliação de segurança (no parâmetro "Safe Driving") os veículos que transferem piscas, buzina, limpa para-brisas, quatro piscas e chamada de emergência para ecrãs ou botões capacitivos no volante — o que já levou marcas ocidentais a rever as suas opções de design

Enquanto a Europa recorre à ameaça de retirar a classificação máxima de cinco estrelas, a China prepara-se para utilizar a via da homologação legal obrigatória.

Como grande parte dos fabricantes chineses concebe plataformas mundiais para suportar as suas ambições de expansão no mercado europeu e internacional, a combinação entre a futura lei do MIIT e os critérios da Euro NCAP indica que a indústria automóvel está mesmo em vias de encerrar a era do "tudo no ecrã", devolvendo ao botão físico e à ligação mecânica o seu lugar indispensável na segurança rodoviária.

Motor24
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