Os anos 80 é que eram: o KITT até já era autónomo

Pedro Junceiro
Pedro Junceiro
Editor Conteúdos

O ser humano é nostálgico por natureza. Está no nosso subconsciente a obsessão de olhar para o passado com uns ‘óculos’ que nem sempre mostram a realidade como ela decorreu. Mas é também indesmentível que há que conhecer o passado para se compreender o presente e antecipar o futuro. Assume-se assim como um exercício de viagem no tempo.

Nesse trajeto, uma das décadas que mais emoções atrai é a de 1980, em que as inovações tecnológicas começavam a diversificar-se e a propor novos horizontes. O computador ia-se reduzindo nas dimensões, os telefones ganhavam portabilidade, o formato VHS tornou-se ‘rei e senhor’ e os automóveis começaram a ganhar atributos de segurança e de tecnologia que agora são banais. Mas nada banais eram os carros que se viam no cinema e na televisão naquela época.

Os anos 1980 é que eram. O automóvel era uma coisa de sonhador e material de sonhos. Dos que queriam os carros do momento, em especial os superdesportivos (quem não teve um poster na parede do quarto com um Ferrari ou Lamborghini), e dos que almejavam pelo carro do futuro, fosse ele voador ou autónomo, elétrico ou com turbinas. Ou, até, imagine-se, com um simples motor de quatro cilindros em linha…

Hoje, rodeados de tecnologias, nem nos apercebemos de quase tudo o que se alcançou e o que aí vem, quando aparecer, arrisca-se a já nem merecer um esgar de admiração. Porque se tornou, muito simplesmente, banal. Como que uma exigência da própria evolução acelerada da tecnologia.

Carro autónomo? Hoje está perto. Mas na década de 80, era o KITT. Aquele Pontiac Trans Am preto era tudo o que se podia sonhar num carro do futuro. Era autónomo e movia-se para todo o lado pela sua própria ‘mente’, falava com o condutor e era o rei da conectividade. Ao ‘Justiceiro’ Michael Knight perguntava sempre se estava tudo bem e andava em duas rodas quando o espaço era apertado para fugir. E com o Turbo Boost saltava por muros e por cima de carros ameaçadores. Olhando um pouco mais atentamente, tinha até um modo de silêncio, mas não se falava em elétrico. O que tinha, isso sim, era um modo de Super Perseguição impressionante. Ridículo na sua conceção (estivesse num espaço aberto ou fechado, as imagens da transformação eram sempre as mesmas), mas impressionante, ainda assim…

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O KITT, acrónimo para Knight Industries Two Thousand, deixava muito gente ‘embasbacada’, mas não era caso único. Cá no burgo, a dupla de detetives mais caricata de Portugal, Duarte e Tó, de Duarte & Companhia tinham um Citroën 2 CV que também andava sozinho, mas não falava. Era uma abordagem mais low-cost numa série em que até a bazuca do Rocha era comprada “no Chinês”.

Ainda lá fora, B.A. Baracus conduzia uma carrinha GMC preta que servia de base operacional aos Soldados da Fortuna (ou Esquadrão Classe A, numa segunda vaga, com cortesia dos Estúdios BKS), protagonizando emocionantes perseguições e saltos por montes e valetas. Michael J. Fox viajava no tempo a bordo de um incrível DeLorean DMC12 (com uma história rocambolesca…) e criava-se assim mais um ícone, embora este não tenha durado muito tempo.

Se o automóvel fazia sonhar, parte dessa sua aura nascia também da sua participação televisiva ou cinematográfica, com grandes contribuições da saga James Bond, além do já mencionado KITT. Mais tarde, já nos anos 1990, até o Viper teve direito a uma série policial, em que o Dodge desportivo tinha um ‘alter-ego’ escamoteável na forma do Defender, e o Peugeot 405 ganhou estatuto de táxi ‘infernal’ nas ruas de Paris, também com uma transformação radical ao estilo do KITT.

Em 1980, os carros do futuro pareciam tão distantes que perceber a sua iminência em 2017 mostra como tem sido rápida a evolução da indústria. Mas tinham uma aura peculiar e inegável que lhes oferecia uma conotação muito própria de agilidade e potência na dose certa. Se o seu Cartão do Cidadão tiver uma data de nascimento anterior a 1985 ou 1980 identificar-se-á com a noção de que os carros do passado tinham qualquer coisa de especial. Uma agilidade muito própria e simplicidade mecânica que tende, decididamente, a desaparecer, a reboque de automatismos, sensores e câmaras.

Condução autónoma: o que (não) nos dizem…

Por outro lado, em relação à condução autónoma, surgiu-me durante conversa com um responsável por uma das maiores marcas mundiais, uma dúvida que aos dois nos deixou sem resposta. A condução autónoma tenderá a ser decisiva para os capítulos da segurança e da eficiência, reduzindo acidentes e as filas de trânsito. Mas, e a nossa vida? O automóvel é um dos nossos – poucos – espaços privados pessoais, geralmente ainda intransmissíveis. Será ele futuramente um local de trabalho? Uma espécie de prolongamento do escritório?

Querem que aproveitemos o tempo que passamos no para-arranca para responder a e-mails, fazer conferências virtuais e delinear estratégias de trabalho para planear o dia-a-dia? Ver filmes ou ler são também hipóteses mas num mundo em que cada vez mais é obrigatório estar-se 100% ligado ou contactável, o mais credível é que aqueles 25 minutos (ou mais) de viagem sejam passados a pensar numa qualquer reunião mais tarde ou a olhar para os ‘horríveis’ documentos financeiros que chegaram há 15 minutos à conta de e-mail e que têm de ser vistos com urgência. Será isso interessante do ponto de vista humano?

Pense nisto e talvez aquela fila logo à tarde, enquanto conduz para casa, não seja tão intolerável. Pense que podia ser pior. Podia estar a ler um relatório e contas.