Manuel Gião e os segredos do Kia Picanto GT

O Delivery Day do Kia Picanto GT Cup, serviu de mote para dois dedos de conversa com o ‘decano’ Manuel Gião, que em 2018 celebra 35 anos de carreira. O atual piloto da CRM Motorsport deixa em evidência alguns segredos do novo troféu monomarca do automobilismo nacional, o Kia Picanto GT Cup, ele que foi uma espécie de “Stig” deste projeto, já que emprestou a sua enorme experiência no desenvolvimento do carro.

Manuel, em 2018 optaste por regressar a tempo inteiro a Portugal. Oportunidades como conduzir o Kia Picanto GT Cup estiveram por trás desta decisão ou foi uma mera casualidade?
Mera casualidade (risos). A minha primeira opção e aquilo que eu quero fazer é o Campeonato de Portugal de Velocidade de Turismos com o Kia Cee’d TCR preparado pela CRM Motorsport. Mas claro que acabou por ser uma experiência engraçada poder estar envolvido no desenvolvimento de um projeto como o Kia Picanto GT Cup — um troféu que, considero, irá ter o maior sucesso. Acredito que é uma competição que fazia falta em Portugal, que muita gente procurava, e que assenta num carro muito divertido de conduzir, contendo, desta forma, todos os ingredientes para se traduzir num grande espetáculo desportivo.

O que muda no posicionamento e atenção de um piloto quando tem um papel fundamental no desenvolvimento de um carro? Quais as diferenças entre um piloto de testes comparativamente a um piloto titular, habituado a competir?
Penso que, como o troféu Kia Picanto GT Cup será sobretudo uma fórmula de iniciação, a minha responsabilidade enquanto piloto experiente é a de transmitir à equipa técnica da CRM Motorsport, que lidera o seu desenvolvimento, uma afinação que tornasse o carro fácil de conduzir. No seu equilíbrio em travagem, na sua inserção em curva, na sua estabilidade, no desgaste homogéneo dos pneus. Foi mais essa a minha preocupação. Obviamente que, se calhar, para competição, se possa ter uma afinação um bocadinho mais agressiva que, num treino cronometrado, a duas ou três voltas, torne o carro mais rápido, embora com reflexos posteriores no desgaste dos pneus e na facilidade de condução. Mas essa é uma decisão e um tipo de condução que depende de cada piloto. No fundo, é encontrar um acerto-base ideal, e a partir daí cada piloto tomará as decisões que considerar corretas.

Como é que o Kia Picanto GT Cup tem evoluído? Que pontos fortes integra neste momento e que segredos nos podes contar acerca da sua condução?
Penso que a principal preocupação que a Kia e a CRM Motorsport tiverem no desenvolvimento do Picanto GT Cup foi garantir que era um carro seguro. Que travasse bem e que, em termos de impacto, fosse resistente. Depois, que fosse divertido de conduzir. Pelos testes que fiz, vi que o carro em termos de potência, peso e condições que tinha, comparativamente a carros até mais potentes, se encontrava num nível superior. Respondendo diretamente ao que me perguntantes, penso que os principais aspetos a reter são a sua fiabilidade e a fácil adaptação e condução. Tive também a hipótese de andar ao lado de pessoas com pouca experiência neste meio e estas rapidamente se adaptaram ao carro e começaram a poder puxar um bocadinho por ele sem que o Kia Picanto GT Cup se tornasse difícil de conduzir, sem que a carroçaria adornasse muito ou a traseira se virasse contra o piloto. Em nenhum momento isso aconteceu. Obviamente que para mim o grande truque da sua utilização reside no facto de ser uma viatura de tração à frente, em que é necessário adaptar a nossa condução face a um carro de tração traseira. Quem andar bem neste carro terá de ter em atenção o sair de curva, não propriamente o entrar. Será necessário preterir a entrada e beneficiar a saída, porque é um carro que já tem uma certa potência, e se chegarmos a meio da curva com o volante muito virado e começarmos a dar potência, ele, como qualquer carro que tem potência e tração à frente, vai ser sempre um bocadinho subvirador. Quem perceber que deve utilizá-lo desta forma irá andar nos lugares da frente, sem dúvida, até por ter um motor turbo.

Foste um dos grandes beneficiados dos troféus monomarca em Portugal, integrando uma geração de ouro que abrange grandes nomes que, ainda hoje, continuam ligados ao desporto motorizado. Qual a importância de iniciativas como o Kia Picanto GT Cup para a promoção do automobilismo?
Bom, fizeste-me agora recordar que que ganhei o troféu MG Rover, em 2003, ou o Troféu Datsun 1200, que também venci. Quando fui campeão nacional de Fórmula Ford, em 1991, havia na altura o Troféu VW Golf G40, onde fui convidado para fazer algumas provas e o mesmo com a Porsche Cup, sem esquecer o facto de ainda recentemente ter sido Vice-Campeão Europeu da Seat Leon Cup. Iniciativas como o Kia Picanto GT Cup são super importantes. Super. Tenho muita gente que vem ter comigo, tanto jovens como pessoas com mais idade, que me perguntam como se podem iniciar no automobilismo com custos reduzidos. A paixão existe, mas obviamente que os custos inerentes à competição surgem como a grande barreira. E é por isso que eu considero que o Troféu Kia Picanto tem tudo. Tem hipótese de dividir os custos por dois pilotos, tem bons prémios monetários por corrida, é um carro que tem custos de operação muito baixos. Portanto, eu acho que tem tudo para vingar e que surge numa altura em que Portugal precisa de dar uma mexida na velocidade. Os troféus monomarca sempre tiveram muitos participantes também por estas razões, o que só reforça a enorme mais-valia de haver novamente uma competição deste género em Portugal. Sem esquecer que, no final do ano, os melhores classificados irão certamente querer evoluir e terão, aqui, hipótese de mostrar aos seus patrocinadores resultados positivos com base em carros iguais e nivelados tecnicamente. Acrescentaria, ainda, que um piloto, hoje, já não olha com tanta relevância para os fórmulas, e sim para os turismos, porque percebe que é aqui que pode vir a ter uma carreira mais duradoura. O mercado evoluiu muito nesse sentido e a prová-lo está o sucesso dos TCR, com o Kia Picanto GT Cup a assumir-se, também aqui, como uma excelente porta de entrada neste meio.