Atual campeão da Fórmula E, António Félix da Costa prepara a nova época com serenidade e vontade de se divertir em pista, mesmo sabendo que será o principal ‘alvo a abater’ por parte dos seus principais rivais – cada vez em maior número e mais fortes. No entanto, à enorme competitividade da DS Techeetah, o piloto português destaca ainda a capacidade da equipa de resistir aos “dias maus”.
A preparação para o arranque da temporada de Fórmula E prossegue de forma vertiginosa, com a primeira ronda dupla já no horizonte, prevista para Riade, na Arábia Saudita, a 26 e 27 de fevereiro, respetivamente. Apesar disso, Félix da Costa reforça a sua mentalidade confiante e serena, assegurando que esta será uma temporada difícil face à melhoria dos seus rivais, mas que os pequenos detalhes voltarão a ser fundamentais para o saldo da temporada. E nisso, reconhece o piloto luso, a DS Techeetah distingue-se claramente.
Com efeito, aquela formação parte como a mais forte para a época de 2021, contando nas suas fileiras com os dois anteriores campeões da Fórmula E, Jean-Eric Vergne e, precisamente, António Félix da Costa. Sem pressão, o piloto de Cascais quer fazer melhor, mas não esquece que foi com uma postura de diversão em pista, fazendo o que faz melhor, que os resultados positivos surgiram em força na temporada de 2019/2020.
“Começamos todos do zero, não há pontos de vantagem ou qualquer coisa do género. Quando muito, sinto que conheço muito melhor a equipa e o carro, por isso vou correr numa posição muito mais confortável. Mesmo no simulador, todas as prestações em comparação com Riade no ano passado, sinto que consigo controlar a corrida muito melhor. Sei que vou ter uns tempos difíceis, a equipa já era o alvo a bater, agora sou eu o alvo a bater, mas tudo bem. Sei que não vou ganhar todas as corridas e que vai ser uma temporada difícil. Toda a gente está a chegar com carros melhores e pilotos mais fortes, pelo que espero uma temporada complicada, mas é isso que torna [a modalidade] divertida”, afirma Félix da Costa numa conferência digital na qual o Motor24 marcou presença.
Mas, numa modalidade tão competitiva e renhida como a Fórmula E, na qual todos os detalhes contam na qual nenhum piloto ou equipa está imune a dias menos bons, António Félix da Costa reconhece que mais do que olhar para a DS Techeetah como uma equipa dominadora, a ‘chave’ é precisamente o oposto – preparar ao máximo os dias maus, porque também aí se ganham pontos importantes.
“Penso que não somos dominadores, mas sim uma das equipas mais fortes. Mas, no final de contas, temos menos dias maus do que os outros e é aí que os pontos começam a fazer a diferença e é aí que se vence o campeonato na Fórmula E. Para mim, é uma questão de dias maus. Se conseguirmos minimizar os dias maus – porque todos vamos tê-los, sobretudo se a qualificação não funcionar – há sempre um misto e é nesses dias maus, em que temos de começar de 14º, 15º, ou 16º que temos de extrair o máximo de uma má situação. Como equipa, temos um carro muito forte e a forma como nos preparamos para os dias maus também julgo que é onde fazemos a diferença e que nos leva a colher muitos pontos”, garante, sem abdicar da sua filosofia de confiança nas suas qualidades e a aposta na diversão e no aproveitamento do momento.
“Como disse, sinto-me melhor com a equipa e com o carro. Se tanto, ficámos apenas mais fortes. Penso que em termos de performance pura, estamos melhores. Eu estou melhor, a equipa está melhor e estou bastante satisfeito com isso. Em termos de mentalidade, a abordagem é partir de forma a divertir-me. Foi como abordei as coisas o ano passado e tudo saiu de forma bastante natural, por isso vamos tentar a mesma coisa. Dito isto, tenho a certeza de que todos melhoraram e estão aqui para nos fazer a vida muito difícil. Vamos lutar para vencer cada corrida, vamos ver se conseguimos vencer umas quantas e onde estaremos no final do ano”.
Não obstante, a DS Techeetah prepara também algumas melhorias dentro do pouco que é possível alterar neste campeonato. Antes da prova italiana de Roma, está prevista a aprovação de um novo sistema motriz para o monolugar da equipa, o que o piloto português aponta como um passo em frente, mas não um ganho substancial.
“A cada ano tentamos encontrar performance em todo o lado, mas já estamos no máximo de tantos pontos que a performance da maioria dos motores da Fórmula E em termos de eficiência já esta acima dos 99%. Mesmo que possamos dizer que sim, não será um grande ganho, estamos a falar de 0,1s ou 0,2s, o que é fantástico mas não será do outro mundo. Sim, melhorámos a nossa eficiência, o que significa que poderemos ter mais potência e capacidade de regeneração, ou seja, eficiência pura e uma unidade de potência mais leve. Dos testes que temos feito sabemos que será um passo em frente, mas não será uma diferença do dia para a noite”, afirma, sem revelar muitos detalhes dessa melhoria que chegará no arranque da fase europeia. Noutro tópico, destaca ainda a ligeira alteração nas regras em relação ao peso, com António Félix da Costa a procurar ganhar sete ou oito quilos, enquanto outros pilotos tentam perder peso.
Um rival para 2021? “Poderia dizer dez ou 12”
No que diz respeito aos seus rivais, Félix da Costa olha com dificuldade para apenas um. Na verdade, o campeão de Fórmula E sabe que terá cerca de uma dezena de adversários com potencial para lhe fazer a vida bastante difícil na luta pelos triunfos, a começar logo ‘dentro de portas’, pelo seu colega de equipa, Jean-Eric Vergne.
“Vindo da BMW, por exemplo, quando lá estive nem sempre aproveitámos bem o carro e as corridas, mas vimos que no ano passado estiveram muito melhor e julgo que vai ser a tendência geral. Creio que todos vão estar muito melhores, sobretudo as equipas novas como a Porsche ou a Mercedes, que vão ter carros melhores e vão conhecer melhor o campeonato e espero que sejam muito rápidas com pilotos muito fortes. Logo aqui temos quatro rivais e nunca podemos excluir o [Lucas] di Grassi, o [Sébastien] Buemi e os Jaguar, que estiveram muito fortes no ano passado e que agora têm o Sam Bird na equipa, assim como a Virgin. É difícil apontar um nome, podia dizer dez ou 12 nomes que tenho a certeza de que que poderão ganhar uma corrida. Mas é por isso que a nossa abordagem tem de ser a de dar o nosso melhor, divertirmo-nos em pista e competir contra quem quer que seja”.
Com Jean-Éric Vergne também nomeado recentemente para o projeto do Hypercar da Peugeot Sport para o regresso a Le Mans, Félix da Costa descarta qualquer hipótese de o seu companheiro de equipa perder o foco na temporada de Fórmula E, até porque, como ele próprio reconhece, é normal aos pilotos da categoria participarem noutras modalidades em paralelo.
“Penso que o Vergne não [se irá distrair], o projeto Peugeot não vai começar, para ele, possivelmente antes de novembro e nessa fase já a temporada terá acabado. Por isso não espero que ele tenha qualquer problema em controlar o seu foco e, por outro lado, mesmo eu e muitos pilotos da Fórmula E fazemos muitas competições em conjunto ao longo do ano e estamos habituados a dividir a nossa atenção por diferentes carros, diferentes competições e diferentes equipas. Creio que não vai ser um problema”, explica.
Corrida em Portugal seria bom, mas…
Se a pandemia está ainda longe de resolvida, algumas competições vão ajustando o seu calendário e as suas operações. Com índole internacional, a Fórmula E acaba por não estar imune a potenciais mudanças no plano para 2021. Neste cenário, Félix da Costa admite que, se houvesse a possibilidade de contar com uma qualquer pista mais convencional no calendário, como ‘plano B’ para um qualquer cancelamento, o circuito do Estoril seria a sua escolha e revela até que houve alguns contactos nesse sentido.
“Por certo que gostaria do Estoril. Seria ótimo… Poderia dormir na minha cama. [risos] Para ser sincero, os responsáveis do circuito ligaram-me para que transmitisse à Fórmula E que eles estão aqui para receber a competição se tiverem um problema de última hora. Creio que houve contactos, mas não julgo que vá acontecer este ano”, refere, indicando que também não tem grande esperança na realização de uma prova nas ruas da cidade de Lisboa, mesmo que também já se tenha falado disso anteriormente.
“Para a corrida na cidade de Lisboa estavam a decorrer também conversas, mas é difícil também para as cidades e este ano estamos em ano de eleições [NDR: autárquicas] em Portugal e é difícil para o governo e para os políticos tomarem grandes decisões. Para ser honesto, do meu lado, ajudo com o que posso, mas tento não me envolver em demasia, não é o meu lugar. Se puder ajudar a ter uma corrida em ‘casa’ ótimo, mas se não acontecer, não aconteceu. É o que é”, sublinha, com uma boa dose de realismo, admitindo que deve concentrar-se, sobretudo, “na minha performance e deixar isso fora da minha mente”.
Ainda assim, este ano voltará a competir em solo português, embora numa outra competição, no Mundial de Resistência (WEC), na pista de Portimão.