Tavares defende liberdade de movimentos e ecossistema ecológico dos transportes com “visão total”

Pedro Junceiro
Pedro Junceiro
Editor Conteúdos

Na indústria automóvel, um dos altos responsáveis que melhor exprime as suas opiniões é Carlos Tavares, presidente do Grupo PSA. Com uma capacidade oratória muito bem estruturada e ‘gatilho’ súper rápido na resposta a qualquer questão, o português que lidera os destinos daquele que é agora o segundo maior grupo automóvel europeu concentra em si todas as atenções quando discursa publicamente.

Daí que a sua opinião quanto ao futuro da mobilidade e às transformações que o setor automóvel enfrenta se revista de enorme importância. Num evento exclusivo do Grupo PSA, no qual o Motor24 esteve presente, Carlos Tavares abordou todos os pontos daquilo que será a mobilidade do futuro – ainda que o comboio esteja já em movimento -, querendo posicionar a companhia sedeada nos arredores de Paris como uma das ‘pontas de lança’ do setor, adequando a oferta a todo o tipo de necessidades.

Energia elétrica, conectividade, carros autónomos e soluções para todos foram temas de um conferência dedicada à mobilidade numa estratégia que está já em marcha.

Em defesa da liberdade

Num aparente contrassenso face a uma época em que o mundo está interligado de forma rápida e fácil, Tavares aponta para uma noção de que a liberdade de movimentos está em perigo. Não pela forma como barreiras físicas são colocadas, mas pelos constrangimentos ‘invisíveis’, como os financeiros, para que as pessoas se possam movimentar de forma mais adequada.

“Estamos numa era em que existe uma mudança da sensação de liberdade e da noção de propriedade para a de utilização. Manter a liberdade é uma preocupação minha. O ser humano tem procurado segurança, conveniência e conforto ao longo dos anos e isso não vai mudar. Estamos empenhados em defender a liberdade e a mobilidade individual para ir ao encontro de todos os interesses e necessidades, acompanhando o ciclo de vida de cada um. Já não pensamos em carros, mas em mobilidade que muda em função das necessidades e das expectativas de cada um”, começou por referir o português, alertando para o facto de que a “liberdade de cada pessoa pode estar em risco”.

Para Tavares, as limitações à liberdade podem ser várias, mas são fáceis de encontrar e até em locais simples, como nos arredores de Paris. “Se quisermos passar um fim de semana numa outra cidade europeia com a família, muito provavelmente terá de o programar com muita antecipação. Muito provavelmente, porque se o fizer terá um valor muito mais convidativo no bilhete do avião. Torna-se evidente que a mobilidade está a ficar cada vez mais cara. Outro exemplo: todos os dias, de manhã, vou de casa para o trabalho utilizando um túnel que evita muito trânsito mas que é muito caro se for utilizado de manhã ou à noite. É muito caro mesmo. Por isso, ser espontâneo na mobilidade e programar uma viagem com pouca antecedência sai mais caro. Se amanhã nos disserem que não podemos circular numa autoestrada sem um carro autónomo para a nossa própria segurança, então temos de comprar um carro autónomo, mas esse tem tanta tecnologia que pode ser muito caro e fora do meu alcance financeiramente. O meu ponto de vista é que as restrições à liberdade de movimentos podem nem sempre ser visíveis. Podem ser económicas, que tornam a mobilidade mais difícil”, afirmou, lembrando que o percurso evolutivo da mobilidade e dos instrumentos de transporte tem sido precisamente o inverso ao longo das últimas décadas.

“Eu sou da geração que tem estado a democratizar tecnologia ao longo de 40 anos. Quero evitar ir no sentido contrário e fazer com que um carro ou instrumento de mobilidade seja tão caro que seja apenas acessível a um pequeno numero de pessoas. As limitações podem-se sentir na nossa vida dia-a-dia, temos de proteger a nossa liberdade de movimentos de forma espontânea e acessível”, considerou, sendo por isso essencial à companhia estruturar as suas ofertas em torno de um amplo leque de serviços de mobilidade ao abrigo da marca Free2Move.

“A liberdade de movimentos não pode ser uma matéria dogmática. A limitação pode ser uma questão económica. A mobilidade que os seres humanos desfrutam está na base do enriquecimento e do valor criativo das nossas sociedades. Não podemos dizer que vamos estabelecer barreiras à movimentação dos nossos cidadãos sem impactar a sua capacidade de criar riqueza, a qual podemos distribuir e garantir que é bem utilizada numa série de coisas em beneficio da humanidade, como a educação ou saúde. Assim, a liberdade de movimentos está no cerne da performance económica”.

Olhar a mobilidade de forma global

Abordando a situação atual das transformações em termos de propulsão na indústria automóvel, com os veículos elétricos a ganharem cada vez mais preponderância, Carlos Tavares demonstrou a sua confiança de que o Grupo PSA estará “muito bem preparado” para responder às exigências, mas enalteceu que se deve ter uma perspetiva global do cenário e não uma meramente centrada nos carros.

“Temos de olhar para a mobilidade sustentável de forma global. Vemos muitas decisões, mas temos de dar um passo atrás para olhar a situação na totalidade. Na União Europeia, a percentagem das emissões relacionadas com os automóveis é de 13%, valor que é alto e tem de ser reduzido, claro, mas e o que fazemos com o resto? A nível global, é de 7%. Temos de olhar a para a indústria no total, para a produção de energia e garantir que estamos a dar o passo certo”.

“Aquilo que defendemos é que não nos podemos focar apenas no utensílio de mobilidade. Se o fizermos estamos a perder o ponto de vista global. Porque podemos analisar todos os dados disponíveis das administrações governamentais de todo o mundo e veremos que se apenas nos focarmos no instrumento de emissões zero sem olharmos para o mix de energia na sua produção, se não se tiver em conta a pegada de CO2 na produção de uma bateria e se não se tiver em conta o seu processo de reciclagem, podemos passar ao lado do mais importante. Se formos realmente sinceros na criação de um ecossistema de mobilidade sustentável, temos de pensar em tudo: na geração de energia, no instrumento de mobilidade e na pegada de produção dos grandes componentes desse aparelho, bem como na sua reciclagem”, afiançou, ao mesmo tempo debruçando-se noutro tema que é o dos materiais raros que compõem as baterias.

“O que é mais provável que aconteça é que consigamos estabilizar a química das células de baterias num ponto específico de materiais raros, mas não está comprovada a existência de materiais raros na Terra suficientes para suportar a mobilidade da Humanidade. A pegada na produção de CO2 de uma bateria elétrica não pode ser maior do que a de um carro. Isto é algo que acreditamos que é realmente importante: quando falamos de liberdade de mobilidade e de transportes limpos temos de ter uma perspetiva global no ecossistema da mobilidade e não nos podemos focar apenas no utensílio de mobilidade. Somos a favor de uma abordagem de tecnologia neutra em termos de emissões poluentes”, referiu, admitindo ainda que os regulamentos técnicos que poderão vir a ser impostos pelos governos e administrações poderão não oferecer aos engenheiros a liberdade de desenvolverem outras soluções que possam ser úteis para reduzir as emissões de CO2.

“Muito simplesmente, se tivermos apenas em conta os principais fabricantes automóveis globais, percebemos facilmente que existem cerca de 250.000 a 300.000 engenheiros nos departamentos de Pesquisa e Desenvolvimento dessas marcas e se as administrações ou entidades decisórias obrigarem a irem pelo caminho dos elétricos, não há problema, iremos conseguir cumprir os regulamentos. Somos ágeis e conseguiremos adaptar-nos. Mas, se o fizerem, não iremos tirar partido do poder cientifico de 250 mil engenheiros para encontrar a solução mais adequada para se chegar a um determinado nível de emissões”, considerou.

“A nossa posição é de dizer que as sociedades em que operamos ficam mais bem servidas se estabelecemos uma meta muito ambiciosa em termos dos principais poluentes que compõem a qualidade do ar e pusermos todos esses engenheiros a trabalhar numa meta muito ambiciosa nesse portefólio de poluentes, em vez de deixar os governos ou administrações tomarem a responsabilidade cientifica de escolherem a tecnologia que deve ser adotada. A acontecer, isso quer dizer que vão tomar a decisão científica de escolher uma única solução e nós acreditamos que não vamos estar a utilizar da melhor forma a força cientifica de todos os engenheiros dos fabricantes para encontrar a solução mais eficiente, que é aquela que atinge as metas diferentes dos diferentes poluentes com o menor custo possível. Porque se o custo for baixo, a velocidade e o volume a que podemos expandir esta solução de baixas emissões será maior”.

Mudança a duas velocidades

Admitindo que o mundo e que a indústria automóvel está a passar por uma revolução sem precedentes, Tavares considera que o Grupo PSA está bem posicionado para lidar com estas mudanças, na medida em que “é uma companhia ágil e mentalmente flexível com líderes jovens dispostos a mudar o mundo com novos negócios, enquanto se assiste à mudança do negócio de propriedade para o de utilização, estando nós agora mais ligados com o nosso cliente para perceber o que esperam de nós”.

Por outro lado, a progressão tecnológica poderá trazer uma diferenciação e fraturamento mais evidente entre várias regiões mundiais com diferentes ritmos de evolução, como o presidente do Grupo PSA reconheceu.

“Vemos que o mundo não está a mover-se à mesma velocidade e de forma homogénea. No mundo ocidental, as necessidades entre áreas industriais e rurais são completamente diferentes. As necessidades das zonas urbanas estão a divergir progressivamente das necessidades do mundo rural. Estamos a vê-lo de forma evidente. Muito provavelmente teremos de nos adaptar com dispositivos de mobilidade diferentes, uns para o lado rural, outro para o lado urbano e outro para longas distâncias. O mercado vai continuar a fragmentar-se, pelo que faz sentido para a PSA ter dois lados: um de construtor de ponta automóvel e outro de fornecedor de serviços, para irmos ao encontro das diferentes expectativas dos clientes”.

Autónomos sim, mas…

Abordando outra das tendências da indústria automóvel, a da condução autónoma, Carlos Tavares demonstrou a sua convicção de que a mesma pode ser importante, mas que o seu custo não poderá ser um entrave às condições de mobilidade.

“Emissões zero, por certo, vai ser um dos nossos objetivos, tal como os carros autónomos, nos quais estamos a trabalhar. Temos carros com tecnologia de nível 1, como o Peugeot 3008, mas em janeiro o DS7 Crossabck terá nível 2 e em 2020 teremos de nível 3 e assim sucessivamente. Estamos nessa corrida, temos mais de 100.000 km de viagens de testes com carros autónomos. Mas a pergunta é: seremos capazes de suportar financeiramente o custo de um carro autónomo, que será o instrumento mais avançado em termos tecnológicos na terra? Posso dizer que automóvel está a ficar muito mais avançado do que um avião. A densidade de tecnologia está-se tornar absolutamente enorme, por isso queria evitar a situação em que apenas os mais ricos da sociedade poderiam suportar os custos de um aparelho de mobilidade e todos os outros teriam de partilhar um meio de mobilidade. Por isso, quando falamos em liberdade e mobilidade, temos de pensar na liberdade individual e se estamos a dizer que a liberdade individual do indivíduo não vai existir mais, porque se essa era a ideia, creio que devíamos discutir a ideia enquanto sociedade antes de tomarmos decisões”, enalteceu.

Conectividade sem medos

Ainda assim, sem largar essa ambição, a PSA está a trabalhar neste sentido e na conectividade, que o português aponta ser “chave” no novo conceito de mobilidade.

“A conectividade vai-nos levar a um maior ponto de proximidade com os nossos clientes, permitindo-nos perceber o que os nossos clientes querem e que instrumentos de mobilidade precisam de ser projetados e construídos com o menor custo possível. Temos uma empresa muito ágil. Há quatro anos estivemos numa situação de quase morte. Dessa experiência, a lição que retirámos foi que o essencial é a agilidade. Estamos num mundo caótico em que o tamanho não é a melhor proteção para a companhia, mas, antes, a flexibilidade mental. Atualmente, muitos perguntam-me se tenho medo desta mudança rápida que está a acontecer e eu digo que não. Não se preocupem com a PSA, a empresa vai-se adaptar e vamos demonstrar a nossa agilidade e flexibilidade mental a este mundo caótico que está a mudar a alta velocidade. Por isso, estabelecemos um, laboratório empresarial para analisar as novas tendências, porque queremos fazer parte deste ambiente de mobilidade e fazer parte das companhias que vão revolucionar o mundo, como é o caso da marca de mobilidade Free2Move”.

“A Humanidade produz hoje mais dados em dois dias do que toda a informação produzida entre 1989 e 2003. O que quer dizer que a criação de dados é essencial e que a futura tecnologia 5G vai-nos levar a novas áreas de negócios e que a comunicação entre carros e infraestruturas será sinónimo de segurança e mobilidade. Sabemos que essa área de dados é muito importante e que tem de estar muito bem protegida em termos de segurança de dados, daí termos estabelecido um departamento especifico para assegurar essa proteção de dados de forma adequada e uma parceria com a Huawei”, lembrou, terminando a sua apresentação mencionando que há uma condição essencial para toda a estratégia de mobilidade que o Grupo PSA apresenta: capacidade de execução.

“Queremos implementar esta estratégia de mobilidade reconhecendo que, no final de contas, o mais importante não é a estratégia, porque é apenas 5% da questão, mas sim os outros 95%, que são a capacidade de execução. O que conta é se estamos mesmo a proteger a liberdade de movimento das pessoas? Estamos mesmo a trazer as soluções para que sejam sempre livres para fazerem as suas vidas? Não sei se irá funcionar, mas estamos a abraçar este desafio com sinceridade e com empenho”, concluiu.

Em Paris.

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