Ferrari vale mais sozinha do que a Volkswagen e a Renault juntas

O modelo de luxo e escassez de Maranello supera em capitalização bolsista os dois grupos históricos da indústria alemã e francesa, penalizados pelos custos da transição energética e pelo recuo da procura.
Ferrari vale mais sozinha do que a Volkswagen e a Renault juntas
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A Ferrari atingiu nos mercados de capitais uma avaliação que ultrapassa com folga a soma do valor de mercado de dois dos maiores grupos industriais do continente europeu: o Grupo Volkswagen e o Grupo Renault.

Com uma capitalização bolsista consolidada em torno dos 66,5 mil milhões de euros, o fabricante de Maranello vale, isoladamente, cerca de 20 mil milhões de euros mais do que os dois conglomerados combinados, cuja avaliação conjunta se fixa atualmente na casa dos 45 mil milhões de euros.

A dimensão financeira deste fosso contrasta de forma vincada com a escala física da operação. Enquanto a Volkswagen e a Renault produzem, em conjunto, mais de 11 milhões de veículos por ano, operam dezenas de fábricas no espaço comunitário e empregam centenas de milhares de trabalhadores, a Ferrari mantém um volume anual estritamente limitado entre 13.500 e 14.000 unidades. No entanto, os mercados de capitais têm penalizado sucessivamente os construtores de volume em detrimento das marcas de luxo exclusivo.

A perda de valor bolsista dos dois grupos históricos reflete a conjuntura adversa que a indústria automóvel europeia enfrenta. Os investimentos de dezenas de milhares de milhões de euros na eletrificação coincidiram com um abrandamento na procura de veículos elétricos a bateria por parte dos consumidores, agravado pelo fim abrupto de subsídios estatais em mercados de grande dimensão, com destaque para a Alemanha.

Como consequência direta, os fabricantes generalistas acumulam capacidade fabril excedentária, custos fixos de manutenção elevados e margens operacionais sob forte compressão.

A este cenário soma-se a concorrência agressiva de marcas asiáticas, que entram no mercado europeu com vantagens estruturais em custos de desenvolvimento e de produção que chegam aos 40%, bem como o risco iminente de multas pesadas decorrentes das metas de emissões de dióxido de carbono impostas por Bruxelas.

No caso da Volkswagen, a pressão orçamental culminou no anúncio de planos de reestruturação profunda, que contemplam reduções salariais e o risco inédito de encerramento de unidades de produção em solo alemão, fatores que têm afastado os investidores institucionais.

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Em contrapartida, a Ferrari é avaliada pelos analistas financeiros segundo a lógica de bens de luxo, beneficiando de múltiplos de mercado semelhantes aos das grandes casas de alta relojoaria ou marroquinaria.

A empresa opera com margens operacionais consistentemente acima dos 27%, detém um poder de fixação de preços que lhe permite transferir os custos inflacionistas para o consumidor final e gere uma lista de espera de modelos que preenche a produção com anos de antecedência, mantendo o seu negócio imune aos ciclos macroeconómicos que afetam o segmento de massa.