O café é uma instituição nacional em vias de extinção. A seguir à tasca é o café que vai à viola. Agora há o shopping, o starbucks, o McDonalds, o lounge-café ou a padaria portuguesa.  Enquanto isso, o velho café, de cadeiras de madeira e inox, tampos de mesa em mármore e espelhos nas paredes, arte nova, todos rócócó, com cagadelas de mosca, isso tudo vai direitinho para o galheiro, para o maneta, ou para a loja de antiguidades.
Talvez seja por isso que em Portugal se bebe tĂŁo mau cafĂ©, bica, simbalino e se escreve tĂŁo má poesia. A melhor lĂrica do Ăşltimo sĂ©culo foi escrita Ă mesa dos grandes cafĂ©s, ágoras do capilĂ©, do pastelinho e do estribilho. Agora a poesia escreve-se em Mac`s e m Mc`Donalds e raramente em guardanapos.
Felizmente há no paĂs, cafĂ©s onde ainda se pode escrever nos guardanapos e beber um cafĂ© como deve ser. Um deles Ă© o CafĂ© Calcinha em LoulĂ©. Trata-se de exemplar Ăşnico de edifĂcio Art DĂ©co daquela cidade algarvia e está ali desde que a firma Prazeres & Reis o abriu no dia 27 de Agosto de 1927.
A ideia e o nome foi copiada, muito antes do tempo dos franchises, do cĂ©lebre CafĂ© Calcinha do Rio de Janeiro, onde a malandragem carioca bebia seu capilĂ© e admirava a calcinha da meladinha. O original já está extinto, sobrevive a cĂłpia em LoulĂ©. Um edifĂcio Art DĂ©co e uma histĂłria que a autarquia consagrou como de utilidade pĂşblica e que quer adquirir, antes que se transforme numa loja do chinĂŞs ou num starbuck de trazer por casa.
Por aquelas mesas e esplanada meio decrĂ©pita e datada passaram gerações de louletanos e de tertĂşlias lendárias. AntĂłnio Aleixo, poeta repentista natural de Vila Real de Santo AntĂłnio costumava ali declamar os seus poemas, nos intervalos da sua vida errante como pedreiro, guarda de polĂcia ou tecelĂŁo. Ali e no famoso CafĂ© Aliança em Faro, que nĂŁo sobreviveu Ă usura do tempo e Ă desmemoriarĂŁo dos homens.
O Café Calcinha, apesar de velho e cansado, ainda está de pé. Ali se pode beber um bom café e um recheado e doce folhado de Loulé, enquanto lemos um dos poemas de António Aleixo, cujo busto de bronze está sentado, logo ali ao lado na esplanada.
Ser Doido-Alegre, que Maior Ventura!
Ser doido-alegre, que maior ventura!
Morrer vivendo p’ra além da verdade.
É tão feliz quem goza tal loucura
Que nem na morte crĂŞ, que felicidade!
Encara, rindo, a vida que o tortura,
Sem ver na esmola, a falsa caridade,
Que bem no fundo Ă© sĂł vaidade pura,
Se acaso houver pureza na vaidade.
Já que não tenho, tal como preciso,
A felicidade que esse doido tem
De ver no purgatĂłrio um paraĂso…
Direi, ao contemplar o seu sorriso,
Ai quem me dera ser doido também
P’ra suportar melhor quem tem juĂzo.
António Aleixo, in “Este Livro que Vos Deixo…”
Rui PelejĂŁo

