Ontem e hoje andei a fazer visitas turĆsticas com a guia aqui do Hotel, a Bahar. Uma miĆŗda muito gira que fala pelos cotovelos. Fomos primeiro visitar o PalĆ”cio dos SultƵes na parte baixa da cidade, depois o museu das jóias, dentro do Banco Central Iraniano e hoje o PalĆ”cio dos Ćŗltimos XĆ”s, os Pahlavi pai e filho.
Com as voltas que demos pela cidade, comecei a perceber melhor os transportes pĆŗblicos. Existe um metro, melhor que qualquer europeu pois foi construĆdo hĆ” menos de dez anos e depois, alĆ©m dos autocarros hĆ” nĆ£o só os tĆ”xis normais como outros, idĆŖnticos, mas que fazem trajetos fixos e que estĆ£o parados numa praƧa Ć espera de terem dois ou mais clientes para arrancarem.
Estes funcionam como autocarros. Se houver trĆŖs ou quatro clientes diferentes vĆ£o todos no mesmo tĆ”xi e cada um paga um preƧo fixo. Para alĆ©m disso hĆ” as moto-tĆ”xi que sĆ£o 125 cc que se desembaraƧam do trĆ¢nsito como ninguĆ©m e levam os clientes Ć pendura. Quando nĆ£o morrem de ataque cardĆaco chegam mais rapidamente ao destino. Como todos os transportes sĆ£o baratos, mesmo para eles, fiquei com a sensação que só utilizam estes moto-tĆ”xi quando estĆ£o atrasados para qualquer encontro importante.
No metro existem carruagens reservadas para mulheres e, ao entrar no primeiro autocarro atrĆ”s da Bahar ela disse-me āNĆ£o. NĆ£o pode entrar por este lado. VĆ” pela direitaā A parte direita da porta lateral encaminha-nos para a parte da frente do autocarro, reservada aos homens, enquanto as mulheres viajam na parte de trĆ”s. Elas podem vir para o nosso lado, embora nĆ£o seja muito comum, mas os homens jamais podem entrar na parte das mulheres. As duas secƧƵes estĆ£o separadas por uma barra e pudemos ficar, junto Ć barra, a falar um com o outro. NĆ£o fiquei com a sensação que estivĆ©ssemos a pecar.
Quando vĆnhamos de regresso do PalĆ”cio ao meu lado, na parte dos homens, vinham duas mulheres sentadas. Ćs tantas uma levantou-se para sair e um homem, sem reparar que era uma mulher que ali estava sentada, preparava-se para se sentar ao lado dela. Quando reparou, deu um salto e fugiu para a parte da frente do autocarro, nĆ£o fosse alguĆ©m ver que ele ia cometendo o sacrilĆ©gio de se sentar ao lado de uma mulher. A mulher tambĆ©m fez um ar indignado como quem diz: āolha a lata do bicho, que se ia sentar aqui ao meu lado?!ā
Como jĆ” tinha referido as mulheres sĆ£o obrigadas a andar com a cabeƧa tapada e quando, antes de ontem, perguntei Ć minha amiga Hasala o que acontecia se a polĆcia as visse sem lenƧo na cabeƧa, ela disse-me que iam presas e apanhavam umas vergastadas nas pernas de maneira que Ć© remĆ©dio santo: nenhuma se atreve. O extremismo Ć© tal para evitar contacto entre homens e mulheres que a Bahar me contou que o mĆŖs passado um polĆcia a viu a despedir-se de uns clientes, Ć porta do Hotel, de aperto de mĆ£o e veio confirmar se ela tinha dado um aperto de mĆ£o aqueles homens. Ela teve que negar veementemente para nĆ£o ir parar Ć esquadra. E com isto tudo lĆ” namoram e casam e tĆŖm filhos.
Visitei os palÔcios, tanto dos antigos Sultões como dos mais recentes XÔs mas não me impressionaram por aà além. Claro que são fantÔsticos, mas não são de ficar com a boca aberta, a não ser pelos extraordinÔrios tapetes. O que verdadeiramente impressiona é a coleção de jóias, entre as quais estÔ o maior diamante do mundo e centenas de peças como espadas, frascos e caixas, acessórios para os cavalos, etc. com milhares de diamantes, rubis, esmeraldas, ouro e venha o diabo e escolha, de valor verdadeiramente incalculÔvel, expostas no museu do banco nacional, protegidas por um sofisticado sistema de alarme e portas com um metro de espessura.
_______________________________________________________________________
*Francisco Sande e Castro estĆ” a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica diariamente o seu livro de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura
ler + em Volta ao Mundo em Crosstourer
