Enzo, o homem que criou a lenda Ferrari

Pedro Junceiro
Pedro Junceiro
Editor Conteúdos

A história de Enzo Ferrari é indissociável da companhia que criou e que leva o seu nome, inspirando os sonhos de muitos e a paixão doutros tantos. Nascido a 18 de fevereiro de 1898, Enzo Anselmo Ferrari depressa se tornou numa figura de relevo no meio do desporto automóvel, tomando conta do departamento de competição da Alfa Romeo ao abrigo da sua Scuderia Ferrari.

Nascia, dessa forma, a lenda de uma marca que é hoje reverenciada por muitos, seja pelos automóveis de estrada, seja pela competição, assumindo o estatuto de marca com maior número de sucessos na Fórmula 1.

De feitio difícil, como muitos dos seus colaboradores atestaram ao longo dos anos, Enzo Ferrari construiu a sua marca quase de raiz depois de ter terminado a sua colaboração com a Alfa Romeo, muitas vezes mostrando o seu temperamento latino.

Um exemplo disso teve lugar logo no início da década de 1950, com uma história que ficou para o legado da Fórmula 1. Alcançada a sua primeira vitória na modalidade, no GP da Grã-Bretanha, em 1951, por intermédio do ‘toiro’ José Froilan González, Enzo chorou, considerando que ‘matara a sua a mãe’, referindo-se à sua anterior empregadora, a Alfa. Esse mesmo sentimentalismo não o tinha em relação aos seus monolugares, que desmantelava após a sua ‘vida’ competitiva. De igual forma, a sua incursão na indústria automóvel, produzindo veículos de estrada, deveu-se à necessidade de obter fundos para continuar a desenvolver as atividades de competição – além da F1, a Ferrari tinha também presenças importantes em competições de velocidade e de resistência.

Uma delas decorria, anualmente, em Le Mans, onde as 24 Horas de resistência têm lugar. Foi em virtude de mais um dos seus traços de feitio difícil que teve origem aquele que foi um dos maiores duelos da competição no circuito de La Sarthe. Gorada a aquisição da Ferrari por parte da Ford em meados da década de 1960, a marca de Detroit quis vingar-se daquilo que considerou uma rejeição provocativa. A história resume-se rapidamente: numa fase em que a Ferrari passava dificuldades, a Ford procurou adquirir a marca sediada em Maranello, mas uma das premissas dos americanos era a potencial limitação das atividades de competição da Ferrari. Enzo não gostou e rompeu as conversações numa fase muito adiantada. Assim, a Ford quis mostrar que também podia construir carros de competição vencedores, nascendo o GT40 que se impôs em Le Mans por quatro anos consecutivos.

Sucessos na F1 e declínio

A década de 1970 trouxe muitos sucessos a Enzo Ferrari, sobretudo na Fórmula 1, competição em que Niki Lauda trouxe dois títulos à Scuderia (1975 e 1977) e com um título perdido em 1976 após um duelo heróico com James Hunt. A temporada ficou marcada pelo grave acidente de Lauda em Nürburgring, mas que em poucas semanas passou da extrema-unção num hospital para o cockpit do seu 312 T2 em Monza, palco do GP de Itália. Apesar das dificuldades físicas, terminou a corrida em quarto.

O último título de pilotos da Ferrari com o seu fundador ainda vivo foi obra de Jody Scheckter, em 1979, com uma temporada de sonho para a equipa, sobretudo com o despontar da ainda jovem esperança Gilles Villeneuve. O canadiano assumiu um lugar muito especial no coração do ‘Comendador’, sofrendo um duro revés quando Villeneuve morreu ao volante de um 126 C2 nos treinos de qualificação para o GP da Bélgica, em Zolder. A era turbo trouxe poucas alegrias para Enzo e para a sua equipa, sofrendo perante a maior acutilância técnica das equipas inglesas, às quais o italiano se referia, frequente e pejorativamente, como ‘garagistas’.

No capítulo dos veículos de estrada, o F40 foi o seu derradeiro capricho: um desportivo de produção limitada, mas com prestações que impressionassem e que fossem próximas às de um carro de competição. Tornou-se lenda, assim como o historial de uma figura polémica e forte, que soube moldar uma marca à sua imagem e que ainda hoje se afigura como uma das mais importantes do mundo.

“Desde criança, tendo nascido numa oficina, sempre pensei em carros, sempre os amei e sempre disse que chegaria um dia em que também eu iria produzir os meus carros”, como afirmou pouco antes da sua morte, a 14 de agosto de 1988.

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