A maioria dos compradores de carros desportivos raramente tem a oportunidade de testar as capacidades destes veículos num ambiente seguro. O que é uma pena, pois, por definição, o local onde pertence um automóvel desportivo é na pista, onde foi desenvolvido.
A Mercedes-AMG sabe disso e criou um evento onde, para além de clientes e outros jornalistas, também o Motor24 esteve presente e pôde experimentar desde o “pocket-rocket”, A 45 S de 421 CV, passando pelas versões AMG dos 100% elétricos EQE berlina e SUV, até ao Mercedes-AMG GT 63 S E Performance, no circuito espanhol de Jarama, em condições de condução excecionais.
Apesar de a nossa experiência ter sido em crescendo, ao começarmos por cumprir um percurso labiríntico entre pinos – que não podiam ser derrubados sob o risco de sofrermos penalizações –, o mais rápido possível com o compacto AMG A 45 S. O ponto alto seria a revelação da segunda geração do AMG GT Coupé (258.600€), um desportivo criado para disputar o mesmo terreno do Porsche 911.
Podemos dizer que nesta segunda encarnação, o AMG GT é um modelo inteiramente novo
Depois de algum tempo em primeiro lugar na pequena competição entre jornalistas lusos e espanhóis com o AMG A 45 S, o “pequeno diabo” que serve de entrada para a gama de alta performance com 421 CV e 500 Nm de torque. Alguns pinos derrubados acabaram por nos atirar para o fundo da tabela. É altura de passarmos para a pista dos “adultos”, onde nos espera o AMG GT Coupé, na versão já disponibilizada no mercado nacional como AMG GT 63 4MATIC+.
Podemos dizer que nesta segunda encarnação, o AMG GT é um modelo inteiramente novo. Utiliza uma combinação de alumínio, aço, magnésio e materiais compósitos de fibra para a maior rigidez possível e um peso reduzido. A marca recorreu à plataforma do SL para lhe servir de base, e pela primeira vez, oferece como opção, a hipótese de um habitáculo mais espaçoso na configuração 2+2 lugares e uma bagageira com 321 litros.
Sentados no lugar do condutor, enquanto estamos parados, o som do motor de 4,0 litros V8 biturbo montado à mão na fábrica de Affalterbach, não é gutural como o dos congéneres norte-americanos, mas tem ainda assim uma agradável nota grave. Disponibiliza 585 CV e 800 Nm de binário. O aumento de potência face ao anterior deve-se sobretudo a uma maior pressão dos turbos, maior caudal de ar e à alteração do software de controlo do motor. Associado a uma caixa de velocidades AMG SPEEDSHIFT MCT 9G, demora 3,2 segundos dos 0 aos 100 km/h e a velocidade máxima são 315 km/h.
Antes de arrancarmos há indicações dos monitores: “Não desliguem o ESP”
Antes de arrancarmos há indicações expressas por parte dos monitores que devem ser seguidas à risca: “Não desliguem o ESP, nem mudem as definições 50/50 da tração integral” – que no limite pode ser enviada totalmente para as rodas traseiras. No final da primeira volta ao circuito de Jarama, já tínhamos a certeza que toda a tecnologia incluída no novo AMG GT Coupé estava ali para nos criar a ilusão de que tínhamos o talento de Lewis Hamilton. Apesar de estarmos no modo “Race” – que não deverá utilizado em estrada aberta –, sentimos que o eixo traseiro direcional que controla a direção das rodas no sentido oposto às dianteiras até aos 100 km/h e no mesmo sentido a velocidade superior, fazia o AMG GT Coupé curvar como se seguisse sobre carris. Claro que há um trabalho notório no controlo dos movimentos da carroçaria por parte da suspensão multi-link com AMG Active Ride Control, equipada com amortecedores e hidráulicos interligados ativos. Substituem a barra estabilizadora de torção convencional e para além disso, se necessário, a secção dianteira pode ser elevada em 30 milímetros, facilitando, por exemplo, a entrada em garagens.
Para além do modo “Race”, existem ainda mais cinco: “Slippery”, “Comfort”, “Sport”, “Sport +” e “Individual”, que mudam as características de comportamento dinâmico do veículo e podem ser selecionadas no sistema de informação e entretenimento, ou num botão no volante. Para os fãs de track days, o AMG GT Coupé vem equipado de série com o AMG Track Pace – um auxiliar de condução em pista –, que para além de memorizar o seu traçado no sistema também pode ser apresentado no ecrã do sistema multimédia com função de realidade aumentada do MBUX. Isto permite ao condutor melhorar o seu estilo de condução com um instrutor virtual. Regista mais de 80 dados específicos do veículo como: velocidade, aceleração, ângulo da direção, acionamento do pedal dos travões, dez vezes por segundo. O menu ‘Telemetria’ pode apresentar 40 parâmetros em tempo real. É possível também visualizar os tempos por volta e por setor no ecrã multimédia, no head-up display e no painel de instrumentos. O sistema de navegação no head-up display mostra os ângulos de viragem e os pontos de travagem para ajudar o condutor a encontrar a melhor trajetória.
Por muito impressionante que seja a performance de um automóvel desportivo, de pouco vale se não for prático para utilizar no dia-a-dia. Nesse aspeto o novo AMG GT Coupé melhorou substancialmente, ao oferecer a possibilidade de optar pela solução mais espaçosa de 2+2 lugares, que já permite levar as crianças à escola. O excelente conforto dos bancos do condutor e do passageiro, pode ser elevado com câmaras de ar insufláveis opcionais, que nos modos Sport, Sport+ e RACE são ajustadas automaticamente ao corpo para fornecer um ótimo apoio lateral. Para além disso está equipado com a mais recente tecnologia de ajudas à condução, bem como serviços de conectividade que integram Apple CarPlay e Android Auto, assistente de voz inteligente e sistema de som surround Burmester, para uma utilização diária perfeitamente tranquila.
A nossa experiência em pista ainda contemplou o 100% elétrico EQE 43 4MATIC Limousine, com motor de 476 CV (350 kW) e autonomia de 505 km. Apesar de não estar naturalmente o seu ambiente, foi possível atestar a eficácia da tecnologia da travagem regenerativa, e das quatro rodas direcionais ao longo das três voltas no circuito.
Para finalizar, tivemos ainda direito a uma sessão de ‘Drift’ com o AMG GT 63 S E Performance (248.650€), um “monstro” híbrido plug-in com 843 CV e 1420 Nm de binário provenientes da tecnologia da Fórmula 1. O que parecia fácil visto de fora enquanto víamos a demonstração do instrutor, tornou-se num exercício de “cócegas ao pedal do acelerador” com uma pena até encontrar o equilíbrio certo para manter a deriva.
A “cereja no topo do bolo” foi ainda a possibilidade de ver de perto o hipercarro Mercedes-AMG ONE, que é na prática um Fórmula 1 homologado para andar na estrada. Trata-se de um automóvel com um motor de combustão V6 turbo de 1.6 litros e quatro motores elétricos. Produz uma potência total de 1063 CV (782 Kw) e tem transmissão manual automatizada de sete velocidades com embraiagem de carbono com 4 discos. O motor a combustão, montado em posição central traseira, debita 574 CV às 9000 rpm, mas tem o seu limitador apenas às 11 000 rpm. Os quatro motores elétricos somam 450 kW (611 CV). Um está montado na cambota, outro está integrado no turbocompressor e os restantes dois encontram-se no eixo dianteiro. A cadeia cinemática híbrida E PERFORMANCE é construída pelos especialistas da Mercedes AMG High Performance Powertrains em Brixworth (Reino Unido), que também são responsáveis pelo desenvolvimento e produção das unidades de propulsão dos monolugares da equipa Mercedes AMG Petronas F1. A montagem de todo o veículo é realizada em Coventry (também no Reino Unido).
Confessamos que tínhamos a remota esperança de poder dar uma volta no lugar do pendura com um piloto profissional aos comandos deste exemplar. Mas compreendemos que a sua raridade – apenas 275 unidades serão construídas –, e o estratosférico preço de mais de 3 milhões de euros não tenham tornado o sonho possível.