A alma mecânica na era do silêncio (e do faz de conta)

Adelaide Cabral

Perito em IA da OCDE, cofundador da AI Safety Connect, professor na Sciences Po, Paris

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Há dias em que a indústria automóvel parece um guião de comédia irónica escrito por engenheiros em estado de negação.

A transição energética avança a passo de carga rápida e o cerco aperta-se em redor de quem ainda olha para o automóvel como um objeto de culto, uma extensão dos sentidos e não um mero eletrodoméstico com quatro jantes.

Para um verdadeiro petrol-head, o problema dos elétricos não é sequer a ausência de gasóleo ou de gasolina (quer dizer, há sempre aquela incómoda e constante preocupação com a autonomia, mas adiante!); é o vazio auditivo, essa esterilidade acústica que transforma uma aceleração vigorosa numa experiência digna de uma trotinete de última geração. Onde vai parar a alma quando o escape emudece?

Ora, o cúmulo da comédia humana – e industrial – reside no caminho que nos trouxe até aqui. Durante décadas, exércitos de engenheiros especializados em isolamento acústico, enfiados em laboratórios das melhores marcas automóveis, gastaram biliões de euros e esfalfaram-se a limar arestas para eliminar o ruído mecânico. Objetivo sagrado? O silêncio absoluto. Isolar o habitáculo, suavizar o escape, abafar o motor, calar o ronco térmico, silenciando aquele que é o batimento cardíaco do automóvel em nome da serenidade total. Queríamos a placidez de uma biblioteca em movimento.

Até que o milagre do silêncio se consumou. Chegámos à era elétrica e a indústria festejou. Missão cumprida! Silêncio absoluto.

Só que, surpresa das surpresas, o condutor comum – e o petrol-head em particular – deu por falta de algo basilar: o drama da condução. Aquele crescendo metálico quando se carrega com decisão no pedal direito, a vibração contida no chassis, a sinfonia mecânica que avisa os sentidos antes mesmo de os olhos acompanharem a subida do ponteiro. O tal ronco visceral que avisa o sistema nervoso central de que estamos a domar uma máquina e não a aspirar a alcatifa da sala.

E foi aqui que a esquizofrenia de gabinete atingiu o paroxismo. A indústria automóvel deu meia-volta e decidiu criar... ruído artificial!

Sim, leu bem. Gastámos 30 anos a silenciar o carro à força para, agora, investirmos fortunas a programar colunas de som que introduzem no seu interior o ruído fingido de um motor a combustão. É o equivalente adulto a colar cartas de um baralho nos raios da bicicleta para fingir que vamos de mota pela rua abaixo.

Marcas como a BMW – através de sistemas pioneiros como o Active Sound Design e os programas IconicSounds Electric (desenvolvidos inclusivamente com o prestigiado compositor de Hollywood Hans Zimmer) – simulam propositadamente o ronco, a pulsação e a energia de um motor térmico através das colunas de som do habitáculo. E a BMW não está sozinha; a indústria em peso, de marcas generalistas a desportivas, recorre a artifícios sonoros semelhantes para mascarar o vazio acústico.

Por exemplo, a fasquia do absurdo subiu ainda mais com casos como o da americana Dodge. No novo e puramente elétrico Charger Daytona, os homens de Detroit decidiram equipar um muscle car a pilhas com um sistema pomposamente batizado como Fratzonic Chambered Exhaust – um escape acústico artificial capaz de bramir uns ensurdecedores 126 decibéis, o equivalente exato ao ruidoso e fóssil motor V8 Hellcat!

A Hyundai também entrou na festa com o seu N Active Sound+, oferecendo aos condutores de elétricos desportivos a doce ilusão sonora de simularem passagens de caixa com direito a rateres digitais.

É difícil não rir à gargalhada perante a ironia. Gastámos décadas a lutar para silenciar a mecânica, para agora pagarmos fortunas por uma banda sonora digital que nos devolve, em jeito de karaoke, o ronco que banimos. No fundo, é a maior confissão de culpa da própria indústria: querem convencer-nos de que o futuro é verde, limpo e silencioso, mas depois não resistem a meter-nos um V8 de mentira nos headphones. Só rindo mesmo!!!

Motor24
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