O carro novo que hoje se incentiva é o usado que amanhã chega a mais portugueses

Miguel Mendes

Diretor executivo da Carmine.pt

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As decisões e os incentivos que hoje influenciam a compra de veículos novos determinam, em larga medida, a oferta de usados que teremos amanhã. É uma ligação que importa ter presente no debate sobre o Orçamento do Estado, sobretudo num momento em que Portugal acelera a transição para a mobilidade elétrica. O carro novo de hoje pode ser o usado de amanhã e, nesse percurso, a eletrificação pode chegar aos consumidores em duas fases: primeiro através do mercado novo e depois através do mercado de usados.

O mercado automóvel funciona como uma cadeia. Os veículos não desaparecem quando são substituídos: muitos entram, alguns anos depois, no mercado de usados, onde podem chegar a consumidores que não têm capacidade financeira para adquirir um automóvel novo. Por isso, qualquer política de renovação do parque deve olhar para os dois mercados como partes de um mesmo sistema.

 Portugal atravessa uma transformação particularmente relevante. De acordo com a ACAP-Associação Automóvel de Portugal, nos primeiros nove meses de 2026, os veículos 100% elétricos representaram 29% das matrículas de ligeiros de passageiros novos, chegando a 47,7% em setembro.

Estes números coexistem, contudo, com outra realidade: a idade média dos ligeiros de passageiros em circulação em Portugal é de 14,3 anos, num parque de cerca de 6,2 milhões de veículos. A diferença entre a velocidade da transformação do mercado novo e a realidade do parque existente deve estar no centro da reflexão sobre política automóvel.

O efeito cascata da renovação

Uma política que estimule a renovação do parque e a aquisição de veículos mais eficientes pode, com o tempo, aumentar a disponibilidade de veículos mais recentes no mercado de usados. Pelo contrário, condições que dificultem a renovação do mercado novo podem limitar a oferta futura de usados e contribuir para prolongar a permanência de veículos mais antigos nas estradas.

A fiscalidade também influencia esta dinâmica. O ISV, aplicável a veículos novos e a usados importados, e o IUC, associado à posse e utilização do automóvel, têm efeitos nas decisões dos consumidores. Importa, por isso, avaliar estas medidas não apenas pelo seu impacto imediato, mas também pelas consequências que podem ter na renovação do parque e na composição futura do mercado de usados.

Esta ligação é particularmente importante no caso da eletrificação: incentivar a aquisição de veículos elétricos novos pode contribuir para que, mais tarde, exista uma oferta mais ampla de elétricos usados.

O desafio é garantir que a transição energética não fica confinada ao mercado de veículos novos. À medida que os primeiros proprietários substituem os seus elétricos, esses automóveis podem chegar a novos utilizadores através do mercado de usados, criando uma segunda vaga de eletrificação e alargando o acesso a esta tecnologia.

É um processo que exige tempo, mas que pode ser decisivo para a renovação do parque: os elétricos que hoje entram no mercado novo ajudarão a criar a oferta de usados elétricos de amanhã.

Esta lógica é especialmente relevante num país onde a capacidade financeira das famílias é desigual. Para muitos consumidores, o mercado de usados não é uma escolha secundária: é a única via financeiramente viável para adquirir um automóvel e, potencialmente, aceder à mobilidade elétrica.

Uma política para todo o ciclo de vida do automóvel

O debate sobre o automóvel não deve limitar-se ao número de veículos novos vendidos, à tecnologia dominante ou ao incentivo disponível no momento da compra. É necessário considerar todo o ciclo de vida do veículo: aquisição, utilização, renovação e entrada no mercado de usados.

As decisões tomadas hoje no mercado novo ajudam a determinar a oferta disponível amanhã no mercado de usados. Por isso, uma política automóvel eficaz deve avaliar o impacto das decisões de hoje não apenas no mercado novo, mas também na oferta de usados que estará disponível amanhã.

O Orçamento do Estado pode desempenhar aqui um papel importante. As opções em matéria de ISV, IUC e incentivos à mobilidade sustentável devem ser avaliadas também pelo seu impacto na renovação do parque, na oferta futura de usados e na acessibilidade da mobilidade para os consumidores.

A eletrificação do parque automóvel não se fará apenas através da venda de veículos novos. Terá também de passar pela capacidade de estes veículos chegarem, mais tarde, ao mercado de usados, onde poderão tornar-se uma opção para um universo mais alargado de portugueses.

O elétrico que hoje apoiamos no mercado novo pode ser o carro acessível que amanhã permitirá a milhares de portugueses entrar na mobilidade elétrica. Novo e usado não são dois mercados: são dois momentos da mesma política automóvel.