Quando me deparei com a notícia de que a Volvo se prepara para lançar cintos de segurança "adaptados a mulheres" no futuro EX60, confesso que revirei os olhos. O meu primeiro instinto foi quase de desconfiança: lá vem o marketing do politicamente correto aterrar no mundo automóvel. Pensei logo: "Para onde raio foi a igualdade? Se somos todos iguais, porque é que eu agora preciso de um cinto de senhora?"
Mas bastou-me começar a ler acerca dos dados para perder rapidamente a vontade de rir. Acontece que esta jogada da marca sueca não tem nada a ver com ativismo de sofá. Tem a ver com o facto de andarmos há décadas a conduzir carros que, no fundo, têm "preferido" salvar a vida a um homem.
A estatística que a indústria raramente grita aos sete ventos nos anúncios é esta: num acidente igualzinho, no mesmo modelo de carro, as mulheres têm um risco muitíssimo maior de sofrer lesões graves. Não é por sermos mais "frágeis"; é por pura falha de design. Durante mais de meio século, os carros foram desenhados e testados à medida do Crash Test Dummy padrão — um boneco de testes com 1,77m de altura e 76kg.
Como nós, mulheres, somos regra geral mais baixinhas, conduzimos com o banco muito mais chegado à frente.
Resultado?
Quando o airbag dispara — calibrado para alguém mais pesado e sentado mais atrás —, levamos com o estrondo todo na pior zona possível. E o cinto linear que nos devia proteger não encaixa propriamente bem na nossa fisionomia, quer no peito quer na pélvis. Numa pancada a sério, o que devia ser o nosso salva-vidas acaba, muitas vezes, por nos magoar a sério.
A Volvo, que anda a estudar acidentes com foco nestas diferenças desde os anos 70, vai agora lançar um cinto multiadaptativo. É suposto funcionar com sensores que leem a nossa postura, altura e peso mal nos sentamos, e ajustam a força do cinto no momento do acidente, usando até Inteligência Artificial para prever as chatices antes de elas acontecerem.
Muito fixe, sim senhora.
Mas a minha grande questão no meio disto tudo não é bater palmas à Volvo; é olhar para o lado e perguntar: e o resto do mercado anda a dormir?
Se a Volvo já inventou o cinto de três pontos no passado e ofereceu a patente ao mundo, e se em 2019 partilhou de borla décadas de dados sobre acidentes com mulheres para quem quisesse ver, não faria sentido que as marcas de automóveis se unissem de vez nesta causa?
Proteger o corpo feminino — ou qualquer pessoa que não encaixe no tal padrão do "homem médio" — não pode ser um luxo tecnológico ou um extra num catálogo premium. Devia ser o novo normal, uma aliança obrigatória entre todos os fabricantes.
Exigir um carro que não me castigue num acidente só porque tenho 1,60m não é nenhum capricho de agenda feminista, nem um ataque aos homens. É só pedir o mínimo de decência a quem desenha os carros que conduzimos.
Afinal, a verdadeira igualdade não é darem-me uma ferramenta desenhada para um homem e esperarem que eu me safe com sorte.
Igualdade é garantir que eu, ou qualquer outra pessoa, temos exatamente as mesmas hipóteses de sair do carro pelo próprio pé e voltar para casa.
A segurança automóvel não precisa de perder o género; precisa é de abrir os olhos.