POR RICARDO GRILO
A grande corrida entre as capitais de França e Espanha nĂŁo foi a primeira prova de estrada que ocorreu na Europa. Mas ao contrĂĄrio das antecessoras, esta prova de trĂȘs dias e 1400 km de extensĂŁo atravĂ©s de estradas que raramente teriam visto algum veĂculo motorizado, era mesmo uma maratona radical. Ainda para mais quando em 1903 os automĂłveis jĂĄ atingiam velocidades muito considerĂĄveis, sem ter sistemas eficazes de suspensĂŁo ou de reabsorção da energia cinĂ©tica acumulada (leia-se travagem).
De modo surpreendente, houve 315 inscritos, dos quais alinhariam Ă partida 275 concorrentes, divididos entre automĂłveis de duas classes e motos. A primeira etapa, entre Paris e BordĂ©us tinha 547 quilĂłmetros, reunindo ao longo do percurso cerca de trĂȘs milhĂ”es de espectadores, distribuĂdos por duas quase ininterruptas filas humanas que ladeavam a estrada.
O primeiro concorrente a chegar a Bordéus foi Louis Renault com o Renault t#3 que aproveitou bem a estrada limpa para fazer o percurso à impressionante velocidade média de 100 km/h.
Para se compreender o significado desta velocidade em estradas desenhadas para carroças, recordemos que em 1899 um veĂculo elĂ©ctrico denominado âLa Jamais Contenteâ tinha batido o recorde do mundo de velocidade, ultrapassando pela primeira vez a barreira mĂĄgica dos 100 km/h. Agora, quatro anos depois, a mĂ©dia de 100 km era alcançada num percurso com mais de 500 km em estrada aberta! Mas logo em seguida, Louis Renault seria relegado para o segundo posto quando chegou Ă meta da etapa o Mors Dauphin de Fernand Gabriel que tinha cumprido o percurso Ă mĂ©dia de 104 km/h vencendo assim a etapa. E a corrida, como veremos adiante.
Estas velocidades inĂ©ditas tinham um preço a cobrar, que se traduziu por 10 mortos entre pilotos e espectadores, ao que se somaram ainda algumas dezenas de feridos. Tudo isto na primeira de trĂȘs etapas!
Um dos mortos seria Marcel Renault, cujo Renault (que vemos nesta foto colorida) tinha o #63 que correspondia ao 63Âș carro a ir para a estrada. Muito rĂĄpido, Marcel vinha a ultrapassar todos os concorrentes Ă sua frente, aproximando-se dos primeiros carros que abriam a estrada e indiciando que estaria muito bem classificado. Mas em seguida veio a tragĂ©dia.
Quando rodava na RN 10 perto da vila de Payré (entre Poitiers e Ruffec) Marcel entrou na nuvem de poeira levantada pelo Decauville #4 de Leon Théry.
A partir daqui as versĂ”es divergem. A primeira defende que devido Ă poeira Marcel nĂŁo pode ver a bandeira amarela que anunciava uma curva perigosa e uma passagem de nĂvel. Desse modo, terĂĄ entrado demasiado rĂĄpido na curva, perdeu o controle do carro, enfiou duas rodas na sarjeta e colidiu em contra uma ĂĄrvore.
A segunda versĂŁo, que me parece mais verosĂmil tendo em conta as fotos do carro apĂłs o acidente, defende que Marcel terĂĄ enfiado duas rodas na vala quando seguia na poeira do Decauville que pretendia ultrapassar, tendo capotado em seguida, ferindo mortalmente os dois ocupantes do Renault.
Certo Ă© que o infeliz Marcel ficou estendido na terra, sendo levado mais tarde para o hospital, onde morreria 48 horas depois, sem nunca ter recuperado a consciĂȘncia.
Chocado, Louis Renault nunca mais voltaria a pilotar um carro de competição.
Quanto Ă corrida, uma reuniĂŁo de emergĂȘncia do Concelho de Ministros em Paris decidiu pela paragem da prova em BordĂ©us, com os carros a serem encaminhados para o comboio sem serem sequer autorizados a colocar os motores em marcha. O vencedor oficioso seria o carro mais rĂĄpido da primeira etapa, o Mors-Dauphin de Fernand Gabriel, um modelo desportivo de carroçaria aerodinĂąmica, equipado com um motor de quatro cilindros e 11,559 cc capaz de desenvolver uns expressivos 70 HP.
Para colorir esta foto do quatomĂłvel de Marcel Renault baseei-me numa litografia a cores da Ă©poca e no modelo idĂȘntico que se encontra no museu da Renault. HĂĄ alguns anos, a Brumm editou a miniatura deste carro Ă escala 1/43 mas pintado de negro. Opção essa que me parece totalmente desprovida de sentido.
Imagem colorida por Ricardo Grilo
