Red Bull Junior Team: A máquina de criar pilotos para a Fórmula 1?

É no mínimo irónico que um programa que foi colocado de pé para fazer chegar jovens pilotos à Fórmula 1 tenha desta feita que se ‘socorrer’ de um piloto consagrado para ‘tapar um buraco’. Caso Brendon Hartley seja confirmado na F1 para 2018, então essa é a prova que o programa do Red Bull Junior Team falhou algures no seu caminho…

O Red Bull Junior Team é dos programas que mais pilotos lançou nos últimos anos. Criado em 2001, o Junior Team era um programa que pretendia lançar novos talentos para o automobilismo, com a marca de bebidas energéticas a financiar e abrir portas para que os pilotos pudessem mostrar o seu talento e as suas capacidades. Mas com máxima exigência. São muitos os nomes que passaram pelo programa, alguns deles atuais nomes sonantes do automobilismo.

O homem do leme desta operação é e sempre foi Helmut Marko, ex-piloto de F1, com nove Grandes Prémios em seu nome, entre 1971 e 72. Em 1971 venceu as 24 Horas de LeMans mas em 1972 a sua carreira sofreu um revés tremendo, ficando cego do olho esquerdo depois de uma pedra ter perfurado a viseira do seu capacete. Desde então, formou-se em direito, foi agente de Gerhard Berger e Karl Wendlinger, e criou uma equipa de F3000 e Formula 3, que viria a ser a base da Red Bull Junior Team, ele que é também conselheiro (ou consultor, se preferir) da Red Bull, equipa de F1.

Alguns dos primeiros nomes a saírem do RBJT foram Christian Klien e Sebastian Vettel e Vitantonio Liuzzi, mas o programa começou a formar tantos pilotos que a Red Bull deixou de ter capacidade de absorver todos. Foi por isso que Dietrich Mateschitz, dono da Red Bull, comprou a Minardi e batizou-a de Toro Rosso, para ter mais dois lugares onde colocar pilotos, servindo esta equipa de primeira fase na adaptação à F1, rumo à equipa principal. E nesse aspeto tem tido grande sucesso… até hoje.

O maior nome do programa é sem sombra de dúvida Vettel, que conseguiu fazer o trajeto ideal pela formação do Junior Team, passando pelas categorias de iniciação, entrando pela Toro Rosso na F1 . onde ofereceu à equipa de Faenza o seu primeiro e único triunfo na Fórmula 1 – seguindo para a Red Bull onde teve o sucesso que todos conhecem.

Mas além do alemão passaram pelo programa nomes como Robert Wickens, Jean-Karl Vernay, Alex Lynn, Daniel Juncadella, Neel Jani, Karun Chandhok, Mirko Bortolotti, Tom Blomqvist, Jean-Éric Vergne, Brendon Hartley, Sébastien Buemi, Filipe Albuquerque e António Félix da Costa.

A lista de pilotos formados é grande mas como se percebe facilmente, a grande maioria deles nunca chegou à F1.

A filosofia do programa foi sempre dar as melhores condições aos pilotos mas também exigir deles o melhor, independentemente das circunstâncias. E nem todos conseguiram render o pretendido. Outros foram ‘encostados’ por motivos menos claros para a opinião pública. Não querendo parecer demasiado facciosos, Filipe Albuquerque e António Félix da Costa mostraram talento suficiente para subir à F1.

O programa é assim uma espécie de paradoxo, onde os pilotos têm uma oportunidade de ouro, mas também estão sob constante escrutínio de um ‘tal’ de Helmut Marko, o que pode provocar um ambiente menos propício ao sucesso, algo que muito provavelmente sempre foi intencional por parte de Marko, que sabe muito bem que pressão é ‘coisa’ que não falta na Fórmula 1, e quando pressionava os pilotos, quer via telefone ou ‘simples’ SMS, isso fazia parte do contexto do crescimento dos pilotos.

Mas nem todos os pilotos se deram bem com isso e da lista que mostramos acima, todos eles já mostraram claramente qualidades depois da saída do programa.

O caso mais caricato é – agora – ironicamente o de Brendon Hartley. O piloto foi dispensado em 2010 e teve de seguir a sua carreira no endurance, mas regressa agora ao ‘radar’ da Red Bull para o lugar de Kvyat, que foi visto como um dos “the next big thing” da F1. Agora Kvyat foi ‘encostado’ e Hartley tem nova oportunidade de mostrar o seu talento. Erro de avaliação? Decisão mal calculada?

Avaliar pilotos não é assim tão simples e muitos são os grandes talentos que não tiveram a carreira que o seu talento merecia por vários motivos. O Junior Team teve a capacidade de mostrar ao mundo pilotos e de atestar a sua qualidade e nisso tem sido provavelmente a melhor montra, mas por outro lado o ritmo a que integrava e dispensava pilotos não era talvez o melhor, ou mais saudável para a carreira dos pilotos.

Será que esse modelo se esgotou? Não deixa de ser estranho que uma equipa que formou tantos pilotos recorra agora aos serviços de um “ex-aluno” em vez de apostar nos seus novos talentos. Gasly é praticamente uma certeza mas é também o mais velho dos atuais pilotos do programa, sendo que os restantes estão ainda numa fase precoce da sua formação.

Não deixa de ser estranho também ver os grandes talentos emergentes optarem pelos programas da McLaren (Lando Norris), Mercedes (George Russell), Ferrari (Charles Leclerc) ou até Renault (Oliver Rowland) para tentarem dar o passo para a F1. Ou o programa da Red Bull perdeu interesse/influência, ou as restantes equipas estão mais atentas aos novos prodígios.

Que balanço fazer do programa Red Bull Junior Team? É difícil, pois foram vários os talentos lançados para a ribalta, outros esquecidos e atirados a um canto, e outros pouco apoiados quando foi necessário justificar a aposta feita. O recurso a um piloto de créditos já firmados pode ser um sintoma que o programa atravessa uma fase de bem menor fulgor. Mas não podemos também esquecer que Max Verstappen, Carlos Sainz e Daniel Ricciardo, três nomes muito cobiçados, são produto desse mesmo programa, pelo que até se pode dizer que o RBJT chegou a uma espécie de encruzilhada, mas dizer que é um ‘fiasco’, como já vimos para aí escrito algures é totalmente desajustado. Se olharmos para a classificação atual do Mundial de F1, metade do top 6 vem do RBJT e portanto não há como ser injusto. Para o bem ou para o mal, o Red Bull Junior Team tem lugar na história do automobilismo, mesmo que já tenha tido melhores dias…

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