F1: O que vale este pódio da Ferrari?

Desde Monza que a Ferrari nĆ£o via qualquer dos seus pilotos no pódio, mas em Abu Dhabi, SĆ©bastian Vettel e a Scuderia estiveram a um nĆ­vel bem alto, permitindo que a equipa termine a Ć©poca de ā€˜peito cheio’ e com motivação acrescida para 2017.

Este pódio de Vettel em Abu Dhabi tem muito mais importĆ¢ncia do que parece. Uma equipa que estava farta de levar socos no estĆ“mago, tem vindo a sofrer crĆ­ticas de todos os quadrantes e quando muitos jĆ” só estavam Ć  espera do fim da Ć©poca para dar o K.O, final, eis que a equipa se levanta e dĆ” um ā€˜soco’ de volta. E depois soou o gongo! Que chegou na melhor altura, pois atĆ© ao próximo assalto a Scuderia pode trabalhar muito, treinar muito no ā€˜ringue’ e quando chegar o primeiro teste de Barcelona, o próximo ā€˜round’, logo se verĆ” se os crĆ­ticos se reerguem ou calam.

NĆ£o hĆ” a volta a dar, foi mazinha a Ć©poca da Ferrari. Podemos aqui falar de Maurizio Arrivabene, que veio do Marketing e nĆ£o percebe nada daquilo, podemos falar do carro que nasceu mal, da estratĆ©gia, de tudo e mais alguma coisa. Mas esquecemos-nos de uma coisa muito importante. Uma equipa que ā€˜perde’ um Diretor TĆ©cnico (que agora todos os outros querem) como James Allison, nĆ£o hĆ” como nĆ£o sofrer, e se calhar muito do que a Ferrari nĆ£o foi como equipa em 2016, tem a ver com isso. Para alĆ©m disso, o que vale uma equipa num determinado ano depende sempre muito do que fizeram as outras, e como se percebe, a Mercedes esteve ainda melhor do que o costume, e a Red Bull cresceu muito. Portanto, o que a Ferrari nĆ£o fez, foi crescer acima dos seus adversĆ”rios, porque quem se recorda da corrida de Melbourne, corrida que a Ferrari só nĆ£o ganhou por causa da mĆ” estratĆ©gia que escolheu, nĆ£o pode dizer que tudo estĆ” mal.

Claro que muito do que vai ser a Ferrari no próximo ano depende muito do trabalho que jĆ” foi feito atĆ© aqui pois o carro de 2017 jĆ” tem que estar praticamente pronto: ā€œEste pódio Ć© um bom tónico de motivação para toda a equipa, e para os adeptos em casa. Temos vindo a trabalhar muito desde o verĆ£o, e na pista nunca ninguĆ©m desistiu. Ɖ claro para todos que nĆ£o alcanƧƔmos os nossos objetivos, mas esta corrida mostra que algo estĆ” a rumar na direção certaā€, disse Maurizio Arrivabene.

Depois de uma Ć©poca difĆ­cil, a Ferrari tem agora algum tempo para ā€˜respirar’, e trabalhar forte para tentar ter uma Ć©poca de 2017 melhor, mas se as primeiras corridas forem basicamente, mais do mesmo, entĆ£o sim, a Ferrari entrarĆ” definitivamente numa espiral complicada, que muitos nĆ£o se cansam de dizer que jĆ” nĆ£o tem volta, tĆ£o cedo. Os tais ciclos. Por exemplo o antigo piloto Gerhard Berger, que Ć© de opiniĆ£o que esta situação se deve ao facto da equipa italiana apresentar ā€œfalta de qualidadeā€ ao nĆ­vel da estrutura diretiva, que Ć© liderada por Maurizio Arrivabene. ā€œNa Mercedes temos o Toto Wolff, Niki Lauda, Paddy Lowe, Aldo Costa e o Andy Cowell, enquanto a Red Bull possui o Christian Horner, Helmut Marko, Adrian Newey e o Dietrich Mateschitz. Se olharmos para as personalidades destas duas equipas e compararmos com a Ferrari vemos que esta nĆ£o apresenta o mesmo nĆ­vel em termos de estrutura diretivaā€. Contudo, Maurizio Arrivabene diz que nĆ£o precisa de ajuda. Pudera, o que se esperava que ele dissesse, que nĆ£o Ć© capaz? ā€œNĆ£o preciso de ajuda de ninguĆ©m para liderar o departamento de competição da Ferrari. Tenho centenas de pessoas que trabalham perto de mim. Temos um grupo tĆ©cnico liderado pelo Mattia Binotto. SĆ£o elementos com uma grande paixĆ£o e que trabalham bem em conjunto. Por isso temos uma equipaā€.

Luca Baldisserri, antigo chefe dos engenheiros da Ferrari, foi recentemente muito duro com a sua antiga equipa ao referir que a Ferrari jĆ” nĆ£o Ć© uma equipa de Fórmula 1, mas sim ā€œum grupo de pessoas assustadasā€. Palavras muito duras relativas a uma equipa onde jĆ” ninguĆ©m consegue esconder os problemas que existem. Baldisserri, que saiu da Scuderia o ano passado, diz que a Ferrari estĆ” perdida: ā€œNem o Sergio Marchionne (presidente) nem o Maurizio Arrivabene (diretor da equipa) tĆŖm experiĆŖncia nas corridas, e por isso a cultura da equipa perdeu-se. JĆ” nĆ£o sĆ£o uma equipa, mas um grupo de pessoas assustadas. HĆ” um clima de medo, ninguĆ©m corre riscos por medo de falhar e cair em desgraƧaā€, comeƧou por dizer antes de se referir Ć  famosa lideranƧa ā€˜horizontal’: ā€œA cadeia de comando na Fórmula 1 tem que ser mais do que vertical, tem que ser ā€˜militar’. Os nĆŗmero um estĆ£o lĆ” para mostrar o caminho, motivar as pessoas, decidir, e se alguĆ©m comete um erro, nĆ£o deve ser despedido e isso aconteceu a James Allison, que Ć© uma grande perda na equipaā€ terminando a falar de Mattia Binotto, que substituiu Allison no departamento tĆ©cnico: ā€œO Mattia sabe como motivar as pessoas, tem grande experiĆŖncia mas nĆ£o Ć© um diretor tĆ©cnico. Ele sabe que nĆ£o pode desenhar um carro e nĆ£o tem os conhecimentos dos chassis, aerodinĆ¢mica e mecĆ¢nica. Mas seria um bom chefe de equipaā€, disse Baldisserri, falando tambĆ©m dos pilotos; ā€œA Ferrari tem que recuperar o Vettel, o Raikkonen estĆ” a fazer melhor este anoā€.

Cronologia

O ano de 2015 foi de autêntica revolução na Ferrari, com a chegada a Maranello de Maurizio Arrivabene, James Allison e Sebastian Vettel. Isso permitiu à Scuderia ter desde logo um ano de 2015 muito promissor, mas como é habitual na Ferrari a pressão que vem de cima, é cega, surda e muda, e sendo Sérgio Marchionne um puro homem de negócios, cometeu o erro de achar que a Fórmula 1 se gere como um outro qualquer negócio, e sem uma verdadeira consciência das dificuldades que é vingar neste mundo super competitivo, colocou uma enorme pressão em todos os elementos de Maranello.

Neste momento, com a época de 2016 quase cumprida jÔ é perfeitamente claro que só por milagre as coisas se invertem ao ponto dos homens de vermelho passarem a ganhar. Não é preciso ser uma sumidade na Fórmula 1 para saber que a vantagem que a Mercedes conseguiu em 2014 com a fabulosa unidade motriz que construiu, a que juntou um chassis sem mÔcula, só com muito melhor trabalho é possível reduzir essa diferença a zero com alguma rapidez, e sendo certo que a Ferrari tem vindo a recuperar um pouco, chegando ao final do ano de 2015 a cerca de sete décimos por volta dos Mercedes, a verdade é que a equipa de Maranello entrou numa espiral de problemas e azares que têm condicionado muito toda a sua prestação.

Não restam dúvidas a ninguém que tanto a Ferrari como a Red Bull trabalharam bem nos seus carros deste ano, deram um salto qualitativo, mas esse salto só se faria notar muito se a Mercedes tivesse ficado a marcar passo, o que esteve longe de acontecer em Brackley. Por isso se a Ferrari cresceu dez, a Red Bull cresceu vinte, a Mercedes também cresceu e atenuou ou reduziu mesmo a zero a recuperação dos seus adversÔrios.

No que às unidades motrizes diz respeito, a Ferrari aproximou-se da Mercedes, partiram bem atrÔs dos homens de Brackley, mas evoluíram bem no seu conhecimento e perceção do que é a tecnologia híbrida, e aprenderam depressa. Neste aspeto, a margem ainda não foi toda colmatada, mas para lÔ caminham. O problema estÔ longe de ser aí.

Tem sido um padrão a Ferrari ser conservadora no design dos seus carros, competentes, mas não tão agressivos quanto a Red Bull, e nem sequer, mais recentemente, que a Mercedes. HÔ neste ponto uma clara prova de falta de inovação e pensamento criativo, e James Allison não conseguiu tocar todos os instrumentos. HÔ na sua equipa demasiado conservadorismo.

Outro ponto muito importante são os pneus Pirelli. Tanto a Mercedes como a Red Bull investiram na ciência de perceber depressa as suas anomalias, depressa constituíram equipas específicas para perceber e estudar a fundo o que acontecia e porque acontecia, e a Ferrari demorou muito a reconhecer a importância disto. Nos últimos tempos foi buscar pessoal para o fazer, mas continua a ser a Ferrari a equipa que mais sofre com as mudanças de temperatura das pistas. Se repararem, até pode estar a andar bem e quando as coisas mudam, quase sempre é a Ferrari a mais surpreendida.

Contudo, hÔ alguns detalhes que fazem pensar que as coisas poderiam estar a ser muito diferentes em corrida, caso algumas escolhas tÔticas tivessem sido diferentes e se a fiabilidade do monolugar italiano não tivesse dado tantos problemas como tem dado. Tudo isto acabou por desmotivar Vettel, que, com um carro igual nem sequer tem sido claramente melhor que Raikkonen, o que não pode acontecer nesta fase da carreira de cada um. Vettel estÔ numa encruzilhada.

Ferrari entrou bem, mas caiu…

No início do ano não restava a mais pequena dúvida que James Allison tinha tido nas mãos boa parte da responsabilidade de projetar um bom carro, o que fez, tal como se viu em Melbourne, com Sebastian Vettel e Kimi Raikkonen a terem um carro ganhador, num resultado que só mesmo os estrategas da equipas trataram de estragar. AliÔs, na altura pensou-se que a Ferrari poderia bater o pé à Mercedes, e só mesmo a escolha tÔtica não o permitiu em Melbourne. Mas o problema é que esta questão da mÔ estratégia não ficou por aqui. Melbourne foi um caso e Montreal outro, e ambos custaram possíveis triunfos a Sebastian Vettel. E daí para cÔ muitas outras sucederam. Ainda agora no Japão, com Vettel. Logicamente que hÔ fatores que podem ajudar a justificar as decisões, mas a sensação que fica é que os estrategas da Ferrari são pouco flexíveis na sua anÔlise, parece que confiam cegamente nos números e não fazem muito uso do instinto e do bom senso.

As coisas andaram num limbo durante diversos Grandes PrĆ©mios, pois com tantos problemas mecĆ¢nicos e estratĆ©gias que correram mal, havia a esperanƧa que quando tudo se juntasse, as coisas pudessem ser diferentes e a vitória lĆ” apareceria, mas nĆ£o foi nada disso que sucedeu nos Ćŗltimos tempos. Bem antes pelo contrĆ”rio, jĆ” que o que foi notório Ć© uma clara evolução da Red Bull ao ponto de ser hoje em dia, claramente, a ā€˜forƧa’ que mais oposição dĆ” Ć  Mercedes. HĆ” uns meses, a crĆ­tica italiana andava a escrever coisas como ā€œVettel nĆ£o pode fazer muito com um carro lentoā€ escreveu a La Gazzetta dello Sport, o Corriere dello Sport refere ā€œSerĆ” que decisƵes como a de dispensar o grande expert em aerodinĆ¢mica, Nicholas Tombazis, foi correta?ā€ O La Repubblica acrescenta: ā€œA crise da Ferrari adensa-se com a Red Bull a ganhar asas. A performance dos homens de Maranello esteve cinzenta como os cĆ©us de Silverstoneā€ leu-se na imprensa. Imagine-se agora.

Falta de sorte

O patrĆ£o da equipa, Maurizio Arrivabene tem um entendimento mais esotĆ©rico da questĆ£o e diz que no campeonato da mĆ” sorte, a Ferrari estĆ” destacada na frente, o que Ć© verdade pois tanto Sebastian Vettel como Kimi Raikkonen tĆŖm tido uma boa dose de problemas mecĆ¢nicos, mas isso estĆ” muito longe de explicar tudo. Recentemente, na MalĆ”sia, uma pista em que a Ferrari era normalmente competitiva, venceu lĆ” o ano passado, veja-se o que sucedeu este ano. E Pelo que se percebe quando se olha para o ā€˜filme’ todo, parece claro que a próxima Ć©poca tambĆ©m estĆ” comprometida, a nĆ£o ser que James Allison tenha deixado um trabalho bom, e muito adiantado, pois quem lĆ” estĆ” agora nĆ£o parece que possa fazer melhor. Claro que ficarĆ” sempre a dĆŗvidas e só quando se vir o Ferrari em pista se saberĆ”, mas muito poucos acreditam nisso…

Cronologia dos tĆ­tulos

Fala-se agora em crise da Ferrari, mas a verdade Ć© que depois das fabulosas Ć©pocas de Michael Schumacher, só por uma vez alcanƧou um tĆ­tulo de pilotos, Kimi Raikkonen em 2007 e dois de Construtores, precisamente em 2007 e no ano seguinte. Desde aĆ­ a ā€˜seca’ de tĆ­tulos em Maranello tem sido constante, ainda que por vĆ”rias vezes tivesse estado perto do conseguir. Como se recordam, em 2008, Felipe Massa perdeu para Lewis Hamilton após quase um ā€˜milagre’ na Ćŗltima volta do GP do Brasil, isto depois duma Ć©poca com oito vitórias e o 16Āŗ tĆ­tulo de construtores, batendo a McLaren por 21 pontos.

Em 2009 o Mundial foi um descalabro para a Ferrari e em 2010, jĆ” com Fernando Alonso, a luta pelo tĆ­tulo chegou a pender muito para o homem da Ferrari – foi o tempo de polĆ©mica ā€œFelipe, Fernando Ć© mais rĆ”pido que tu, percebeste a mensagem?ā€ e no final do ano, uma escolha estratĆ©gica totalmente errada na ā€˜marcação’ a Mark Webber, esquecendo Sebastian Vettel foi fatal ao espanhol e aos homens de Maranello, acabando por ser o jovem alemĆ£o, que era terceiro Ć  entrada da Ćŗltima prova, a ser CampeĆ£o. Em 2011 as coisas voltaram a correr muito mal para a Scuderia, mas em 2012, Alonso levou novamente a decisĆ£o do campeonato atĆ© Ć  Ćŗltima prova, perdendo outra vez para Vettel. Em 2013, Alonso nada pode fazer face ao poderio da Red Bull, e quando terminaram os quatro anos de domĆ­nio Red Bull e Sebastian Vettel, comeƧou o da Mercedes. 2014 foi o Ćŗltimo ano de Fernando Alonso em Maranello, desmotivado por nĆ£o conseguir o almejado terceiro tĆ­tulo Mundial com a Ferrari a cair para o quarto lugar dos Construtores, pela primeira vez desde 1993. No final do ano, Sebastian Vettel rumou a Maranello. No ano seguinte, apesar das promissoras trĆŖs vitórias a diferenƧa para a Mercedes continuou a ser muito grande e esperava-se que em 2016 as coisas mudassem para melhor. Longe disso, apesar de alguns sinais contraditórios, a Ferrari parece estar cada vez mais longe das vitórias…

JosƩ Luis Abreu / Autosport