Mercedes-Benz SLS: um GT sobredotado

O meu primeiro contacto com o excelente 6.2 V8 da AMG foi há alguns anos, através de um classe C. Na altura, fiquei impressionado com a agilidade, a falta de inércia e o apetite voraz por rotações. Este V8 é a personificação, se lhe pudermos chamar assim, de tudo o que gosto num motor. Com um tamanho considerado… decente, este propulsor tem potência a altos regimes, binário a baixos e uns dotes vocais de excepção.

Não é refinado, como a origem Mercedes-Benz poderia levar a supor, mas sim bruto e quase rude em alguns aspectos. No entanto, ao mesmo tempo tem uma certa dose de elegância e sofisticação. Não é fácil explicar, mas estou convencido que terá certos pontos em comum com um champanhe de qualidade excelente, desde que seja bruto, claro!

O SLS veio substituir o SLR, este desenvolvido pela McLaren, e pretendia sobretudo criar uma alternativa mais acessível, tanto em custos de produção como em preço final sem, no entanto, descurar todas as características típicas dos produtos da casa-mãe. A ideia de recriar as célebres portas de abertura vertical, seria mais uma homenagem ao 300SL dos anos de 1950 e não tentar fazer uma versão nova deste. Tanto que o original era um 6-cilindros…

O SLS impressiona logo pelas dimensões. Não é pequeno, com uma largura de quase dois metros e um comprimento superior a 4,5 metros e o facto é realçado pela posição de condução muito baixa. Temos muito automóvel à nossa volta. Outro detalhe é o tablier relativamente simples, sem os gadgets habituais. Aqui há um segredo. Estão lá todos, mas com um tratamento algo retro e praticamente invisíveis. Um bom trabalho de camuflagem e integração.

Em movimento, ajudado pela excelente suspensão, o SLS parece que perde tamanho, tal a agilidade nas mudanças de direcção e resposta sem hesitação ás ordens do condutor, mais em linha com um automóvel de dimensões mais contidas. A excelente caixa automática de sete relações é de uma suavidade quase contrastante com o carácter do motor, mas a impressão que fica é de que tem uma eficácia a toda à prova.

As acelerações e recuperações são estonteantes. Para já, o vigor do propulsor é omnipresente, físico, intenso… e os tais dotes vocais estão lá para nos lembrar que estamos ao volante de um produto muito especial. Depois a sensação que transmite aos ocupantes: é daqueles casos, em que não olhando para o velocímetro, a percepção de velocidade requer habituação da parte do condutor. Embora seja imediato sentir a violência do motor a subir de regime e a sensação de sermos quase sugados para o horizonte, a tranquilidade a bordo é desconcertante. O susto vem quando desviamos o olhar da estrada e nos concentramos no velocímetro: é muito fácil chegar aos três dígitos, e entrar pelos três dígitos dentro, para regiões de mais difícil acesso… continua a ser fácil. A diferença entre o antes e o depois de um pestanejo é assombrosa. Uma característica deste motor, que já tinha notado antes, e no SLS é ainda melhor é que não há perdas de vigor na subida de regimes. Dir-se-ia que quanto mais anda, mais quer andar. É bom a este ponto.

O comportamento em estrada é referencial, ajudado pelo excelente feedback da informação que nos chega através do volante e dos excelentes bancos. Sabemos a todo o momento o que as quatro rodas estão a fazer. Nas inserções em curva conseguimos “sentir” o trabalho dos pneus dianteiros, à procura da aderência máxima, enquanto o eixo traseiro permite aquele ligeiro escorregar que ajuda a preparar o automóvel, sem dramas. O vigor do motor pede alguma contenção no pedal da direita, principalmente em curva ou em piso mais escorregadio, mas depois brinda-nos com umas deliciosas detonações, em desaceleração. Nada normal para um produto com a estrela na grelha…

É notório o envolvimento e o calibre das pessoas envolvidas na concepção do SLS. Acho que já disse isto e cada vez me convenço mais, quando as pessoas que participam no projecto gostam de conduzir, o produto final é muito bom e extremamente focado. Mais do que a soma das partes… o todo funciona de uma maneira que roça o perturbante, neste caso.

E como objecto de colecção? O diferencial em relação a outros produtos da marca, nomeadamente o SL, não passa só pelo preço. Nota-se que o SLS tem um cuidado muito próprio, tanto de execução como de atenção ao detalhe, que não é nada vulgar, mesmo para a Mercedes-Benz. Claro que estamos a falar de uma produção muito mais limitada e exclusiva, mas isso, por si só não é sinónimo de nada. Diria que em relação ao citado SL, o facto de ter mais um “S” no final faz toda a diferença. É daqueles casos muito especiais e raros com que somos brindados, de vez em quando…

Post Scriptum: embora ostente a sigla 6.3, como todos os produtos com este motor, a capacidade do motor é 6.2 litros.

Hélio Valente de Oliveira

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