Os automóveis actuais são, indiscutivelmente, mais seguros, mais confortáveis e mais eficientes do que os seus antecessores, nascidos há algumas décadas. Apesar disso, há algo de único e de extraordinário quando nos sentamos ao volante de um automóvel clássico. É toda uma experiência que desperta os sentidos, levando-nos a revisitar uma era em que os habitáculos eram mais espartanos e a condução era uma habilidade, uma era em que os sistemas de navegação eram conhecidos, simplesmente, por mapas e a tecnologia de segurança activa, os ecrãs tácteis e os smartphones não eram mais do que pura ficção.
O apelo intrĂnseco do universo dos automĂłveis clássicos Ă© muito abrangente e está bem patente um pouco por toda a Europa. Dele fazem parte, nĂŁo sĂł os chamados petrolheads, como tambĂ©m os entusiastas da engenharia, do design e da prĂłpria histĂłria do automĂłvel. Mas qual Ă© o seu fascĂnio? Os veĂculos clássicos destacam-se pelo seu estilo distinto, permitindo que um indivĂduo marque uma posição relativamente Ă sua personalidade e gostos, bem como no que diz respeito Ă sua prĂłpria atitude perante a condução. Permitem, ainda, o contacto de pessoas que tĂŞm em comum essa mesma cultura, reunindo-se numa comunidade que promove encontros regulares aos fins-de-semana, seja em exposições de veĂculos clássicos, em provas de ralis e/ou regularidade ou em qualquer outro tipo de evento. É, tambĂ©m, uma forma de relembrarem a sua prĂłpria juventude, associando, inevitavelmente, os seus automĂłveis a momentos marcantes das suas vidas. E, para alĂ©m disso, quem Ă© que se esquece daquele que foi o seu primeiro automĂłvel?
Alguns modelos podem, ainda, valorizar-se no mercado dos usados ou dos coleccionadores. Os automĂłveis clássicos conseguem ser, por vezes, econĂłmicos a nĂvel de utilização, pois podem usufruir, consoante o paĂs, de um imposto de circulação mais reduzido, de seguros mais acessĂveis ou atĂ© de determinadas isenções de restrições de circulação em zonas de baixas emissões. Na UniĂŁo Europeia, para que um automĂłvel possa ser considerado um clássico, deverá ter, pelo menos, 30 anos, assim como deverá estar em boas condições de conservação, ou seja, o mais original possĂvel.

Estatuto de clássico: O momento-chave
SĂŁo vários os modelos da Mazda que tĂŞm atingindo os 30 anos de vida, factor que lhes abre as portas a esse estatuto de clássico. Cada um deles tem contribuĂdo, Ă sua maneira, para a histĂłria e evolução do automĂłvel, tendo ajudado a definir toda a herança e alma da Mazda.
O Mazda MX-5 Ă©, talvez, o modelo que melhor representa essa herança e a essĂŞncia da marca japonesa. Inspirado nos econĂłmicos roadsters das dĂ©cadas de 1950 e 60, a Mazda desenhou a primeira geração do MX-5 (“NA”) incorporando-lhe a tradicional relação de condução – Homem e máquina como um todo – de acordo com o princĂpio Jinba Ittai. Quando o “NA” foi lançado na Europa em 1990, o modelo esgotou quase de imediato, deixando muitos compradores em lista de espera durante um ano, para finalmente conseguirem o seu exemplar. Nesse ano foram vendidas cerca de 14.000 unidades na Europa, incluindo 2290 exemplares de uma edição limitada com carroçaria pintada na cor British Racing Green, naquela que foi a primeira Edição Especial do MX-5 para a Europa.
Graças ao seu design e construção de baixo peso, ao seu imbatĂvel e divertido comportamento dinâmico e preço acessĂvel, o MX-5 fez renascer um segmento de mercado virtualmente extinto. De facto, viria a tornar-se no veĂculo de dois lugares mais popular de sempre, tendo, presentemente, vendas acumuladas de mais de 1,1 milhões de unidades, divididas pelas suas quatro gerações. Elogiado pela sua pureza e fiabilidade, o “NA” Ă©, ainda hoje muito popular, sendo uma presença habitual em eventos de modelos clássicos um pouco por toda a Europa e representa o nĂşcleo de uma coesa e vasta comunidade global dedicada ao MX-5, representada por inĂşmeros clubes que se dedicam, em exclusivo, ao automĂłvel considerado por muitos como aquele que proporciona “a melhor mĂ©dia de sorrisos por cada 100 quilĂłmetros”. NĂŁo Ă© por acaso que a Mazda desenhou a actual geração (“ND”) de forma a representar aquilo que os fĂŁs mais apreciam no MX-5 “NA”, o original.

Gama MX: revigorante e pouco convencional
Depois do MX-5, surgiram na Europa dois novos modelos da famĂlia “MX”, com a revelação do Mazda MX-3 e do Mazda MX-6 no SalĂŁo de Frankfurt de 1991. Normalmente utilizada por concepts e protĂłtipos da Mazda, a denominação “MX” sempre se destacou por ser aplicada em projectos especiais da Mazda e estes coupĂ©s de produção, pouco convencionais, nĂŁo eram excepção.
Diferenciando-se de outros coupĂ©s desportivos mĂ©dios em termos de equipamento premium e tecnologia, o MX-6 estava disponĂvel com um sistema opcional de quatro rodas direccionais e com um motor V6 com 24 válvulas. Já o mais pequeno e econĂłmico MX-3 atraiu um grande nĂşmero de compradores, num compacto “2+2” que se destacava pela sua dinâmica de referĂŞncia e pelo seu rotativo motor V6, com 1.8 litros de cilindrada, de 133cv, Ă altura o mais pequeno motor V6 de produção do mundo. Cumpria a aceleração dos 0 aos 100 km/h em cerca de 8,5 segundos e superava os 200 km/h de velocidade máxima.
No formato coupé, a designação “MX” mantém-se no presente, através do roadster MX-5 (soft-top e RF), alargando-se ao recém-lançado Mazda MX-30, um distinto crossover que é, também, o primeiro modelo 100 por cento eléctrico da Mazda.
Os modelos de cunho ainda mais desportivo fazem parte do ADN da Mazda, tal como o próprio motor rotativo, cuja compacidade e relação peso/potência o tornavam ideal para a máxima performance e para o mundo da competição. De facto, ambos são inseparáveis desde que a Mazda lançou o seu primeiro modelo com motor rotativo, o Cosmo Sport/110S de 1967. No mundo da competição, a marca viria a dominar a sua classe no campeonato IMSA, bem como noutros eventos, principalmente através do desportivo RX-7, originalmente apresentado em 1978, o modelo com motor rotativo mais vendido de sempre.
Em 1991, no seguimento da impressionante vitória alcançada nas 24 Horas de Le Mans, a Mazda lançou o mais rápido, mais potente e mais ágil RX-7 de produção. Conhecido como “FD”, a terceira geração do RX-7 herdou a reputação dos seus antecessores – a segunda geração “FC”, produzida entre 1985 e 1991, e a primeira geração, com a designação “SA/FB RX-7”, em produção entre 1978 e 1985 – e utilizava um melhorado motor twin-turbo com uma potência de 239cv. Assim, o “FD” declarava uma relação peso/potência de apenas 5,2 kg/cv, permitindo-lhe uma performance digna de um supercarro e rivalizar com modelos muito mais caros. O seu design intemporal continua, ainda hoje, a destacar-se entre os demais.

Simplicidade sem idade e fiabilidade lendária
Para muitos, o apelo dos automóveis clássicos está na simplicidade do seu design e na tecnologia empregue, mas os modelos de maior volume de produção da Mazda possuem, também eles, um charme muito próprio.
Tomemos como exemplo o Mazda 323. Antecessor do actual Mazda3, o modelo foi lançado na Europa em grande estilo, através de duas unidades que ligaram a cidade de Hiroshima ao Salão de Frankfurt de 1977, numa viagem de cerca de 15.000 km que durou 40 dias, durante a qual não se registaram quaisquer avarias. A sua lendária fiabilidade e versatilidade fizeram do 323 um dos modelos de importação mais populares na Europa, registando um recorde de vendas em 1991 para um modelo japonês na Alemanha.
Este compacto estava disponĂvel em vários formatos de carroçaria, incluindo um 323F mais desportivo mas igualmente familiar, um coupĂ© de cinco portas com farĂłis escamoteáveis (tal como a primeira geração do MX-5), juntamente com as carroçarias hatchback, berlina e carrinha. A Mazda comercializou-o no continente europeu, inclusivamente, uma versĂŁo com motor turbo e tracção integral baseada nos seus bem-sucedidos modelos de ralis, com diferenciais autoblocantes e uma potĂŞncia de 185cv, unidades que sĂŁo agora muito procuradas por colecionadores.
Bem mais simples, mas igualmente distinto à sua maneira, o Mazda 121, lançado em 1991, era um pequeno compacto urbano de design simpático, cujo tejadilho arredondado escondia um habitáculo surpreendentemente espaçoso. Contava com soluções práticas como o banco traseiro deslizante, operável quer pela frente, quer pela bagageira, e um opcional tejadilho de abrir eléctrico em tecido, que se podia recolher a partir da frente, de trás, ou em ambos os sentidos simultaneamente.

Aprender com o passado
Entrar para o habitáculo de um destes modelos Ă© como que dar inĂcio a uma viagem no tempo. Muitas coisas mudaram para melhor ao longo dos Ăşltimos 30 anos, nĂŁo há dĂşvidas, mas os designs mais clássicos continuam a ter a capacidade de nos ensinar sobre tudo aquilo que entusiasma as pessoas, como os habitáculos inteligentes e espaçosos, a sua elegante simplicidade, bem como uma divertida e envolvente experiĂŞncia de condução, elementos de que a Mazda nunca abdicou.
