Nos dias de hoje, não há automóvel novo vendido na Europa que não possua de série um sistema de travagem com anti-blocagem, mais conhecido como ABS, para “anti-lock braking system”, em inglês. A Mercedes e a Bosch festejaram recentemente o 40.º aniversário da criação moderna do conceito, mas a ideia do ABS vai mais longe ao passado, tendo começado há mais de um século.
A primeira proposta para evitar um sistema de travagem anti-deslizamento foi feita em 1908 por um inventor britânico chamado J. E. Francis. Karl Wessel e Robert Bosch registaram patentes sobre o conceito em 1928 e 1936, respetivamente, mas nenhuma passou para a produção nem foi usada em nenhum veículo. Até aí, um sistema parecido com ABS, inventado em 1920 por Gabriel Voisin, só tinha encontrado utilidade na indústria aeronáutica, facilitando a redução da velocidade dos aviões quando aterravam em pistas molhadas.
Foi preciso esperar até ao final dos anos 50 para este conceito passar a ser visto em veículos de estrada. O Maxaret, criado pela Dunlop, era usado para impedir deslizamento de rodas de aviões a aterrar, em que um volante-motor parava quando detetava que uma roda e um tambor giravam a velocidades diferentes. Em 1958, a Royal Enfield usou um ABS em testes intensivos na sua motor Super Meteor, e em 1965, a Jensen Motors instalou-o no inovador Jensen FF, o primeiro automóvel de produção com quatro rodas motrizes.
Em 1971, a indústria automóvel americana introduziu vários sistemas diferentes, controlados eletronicamente, que reduziam a força de travagem quando detetavam algum tipo de deslizamento em piso escorregadio. A Bendix criou um sistema para o Chrysler Imperial, chamado Sure Brake; a Ford criou o Sure-Track para o Lincoln Continental; e a GM em Delco trabalharam em conjunto no Trackmaster, instalado em todos os Cadillac e no Oldsmobile Toronado. No mesmo ano, a Fiat instalou travões anti-deslizamento num camião.
Mais de 40 anos depois de Robert Bosch ter patenteado um sistema que nunca usou, a empresa alemã que fundou finalmente criou aquilo que hoje é reconhecido como ABS. A Mercedes começou a trabalhar no conceito nos anos 50, vendo o seu trabalho limitado pela falta de sistemas de computador capazes de funcionar em automóveis. Em 1966, encontrou na Teldix, uma subsidiária da Bosch, a parceira ideal para o desenvolvimento do sistema, graças ao uso de novos microprocessadores digitais, capazes de lidar com a análise de informação recolhida pelos sensores. Em 1970, o sistema estava pronto, e era mais fiável e menos complexo que qualquer sistema anterior.
Finalmente, o ABS foi apresentado ao público em 1978. Conforme foi explicado pela Mercedes, “o ABS usa um computador para monitorizar a velocidade de rotação de cada roda durante a travagem. Se a velocidade diminuiu muito depressa e a roda corre o risco de bloquear, o computador reduz automaticamente a pressão nos travões. A roda desacelera menos e a pressão de travagem volta a aumentar, travando normalmente. O processo é repetido várias vezes durante segundos”. O Mercedes Classe S foi o primeiro automóvel a usar o ABS moderno, como opcional, passando a estar instalado de série dois anos depois.
Foi preciso esperar até 1988 para ver o ABS chegar a uma moto de produção, a BMW K100. O ABS abriu o caminho para criar outros sistemas computadorizados de assistência de condução, o controlo de patinagem (1985), o controlo de estabilidade (1995, mais conhecido como ESP), a assistência de travagem (1996) e o cruise control adaptativo (1995).