Tendências: Os carros estão condenados a serem bonitos

Luis Pimenta
Luis Pimenta
Tendências

Pensando bem, o único carro autónomo que alimentou a minha imaginação foi o Spinner, do filme “Blade Runner”. Ver Harrison Ford descolar entre os prédios da megacidade enquanto comia calmamente massa chinesa com pauzinhos (coisa que até à mesa é um malabarismo, quanto mais num carro) é uma imagem que fica. Todo o filme é uma estética, um tratado de iconografia daqueles que estão reservados às grandes obras. E os veículos que pairam nos cenários de Ridley Scott fazem parte dessa linguagem única.

Porque será que nos lembramos tanto destes Spinners? Uma boa parte da resposta poderá estar na forma elaborada como foram desenhados, fruto dos delírios futuristas de um designer: Syd Mead. As cidades e os veículos de “Blade Runner”? As naves de “Alien”? As motos e o mundo eletrónico de “Tron”? Sim, saiu tudo do estirador deste norte-americano, hoje com 83 anos, formado no Art Center College of Design, de Pasadena (EUA), por sinal uma das escolas de referência no design automóvel. Apesar de ter trabalhado para clientes como a Ford, Philips, Honda ou a ItalDesign, Mead tornou-se realmente conhecido pelos seus projectos de ficção científica na indústria cinematográfica, sendo o seu trabalho em “Blade Runner” um dos mais aclamados. É dele, de resto, a imagem de abertura desta crónica.

Mas a obra de Syd Mead diz-nos também outra coisa: os carros são ícones instantâneos. Mesmo que seja um Spinner, com motorização antigravitacional e outros mimos no equipamento de série, não há como ficar indiferente à estética de um automóvel. Lembramo-nos mais facilmente de 10 grandes designers ou de 10 grandes engenheiros da história do automóvel? Pois…

Não é por acaso que algumas das contratações mais sensacionais da indústria na última década tenham acontecido precisamente com chefes de design. O futuro que aí vem, com motorizações elétricas e, quem sabe, com carros autónomos, coloca o problema da diferenciação, algo que é como água de beber para o sucesso de qualquer marca.

Um dos casos mais emblemáticos do poder do design na indústria actual é o de Peter Schreyer, que há exatamente 10 anos incorporou a Kia para liderar uma estratégia de crescimento assente no desenho dos seus modelos. Este alemão, autor de projectos tão carismáticos quanto o Audi TT ou o VW New Beetle, é hoje um dos presidentes da marca, um marco absolutamente inédito para um estrangeiro na fechada tradição de gestão da Coreia do Sul. Dale Harrow, reitor do Royal College of Art e um dos mais reconhecidos nomes em design automóvel, disse recentemente que “há poucas pessoas que conseguem entrar numa companhia e fazer uma mudança significativa. Peter Schreyer conseguiu-o”.

Li há poucos dias as palavras do responsável de design do Grupo Volkswagen, Michael Mauer, em que este diz que “o design será um elemento chave para definir que marcas irão sobreviver no futuro”. Assim de repente, parece-me coisa demasiado peremptória, mas tendo em conta que quem o diz é o autor de projectos como o actual Porsche 911 e 918 Spyder, merece toda a atenção. Até porque Mauer justifica: “Alguns dos elementos de diferenciação dos dias de hoje, tais como a sonoridade do motor, deixarão de ser relevantes pelo que o design se tornará cada vez mais importante enquanto unique selling point”.

A condução elétrica e a condução autónoma removem muitos obstáculos a bordo –  a colocação das baterias no piso, a reduzida dimensão do motor, por exemplo – o que permite alterar o design de forma mais radical do que alguma vez assistimos nas últimas décadas.

Ian Callum, que lidera o design da Jaguar, sublinha que “os carros elétricos oferecem grandes possibilidades em termos de arquitetura e espaço interior. Espaço é luxo e isso é algo em que estamos a trabalhar neste momento”.

Autor de carros tão icónicos como os Aston Martin DB7 e Vanquish, os Jaguar F-Type e XJ (também desenhou o Ford Puma, mas ninguém é perfeito), Ian Callum não dramatiza com a chegada dos elétricos, mas parece olhar para os carros autónomos como um caso à parte.

Os autónomos “vão retirar a maior parte do carácter” do design dos automóveis, diz ele, mesmo com a ressalva de que ”a condução ainda estará connosco por mais 100 anos”. Callum acumula décadas de experiência e é senhor de um imenso mundo no sector automóvel, razão pela qual costumo devorar com a maior atenção todas as entrevistas que dá. Recordo, de uma delas, quando refletiu sobre os carros sem condutor desta forma: “Nós desenhamos os carros em volta de uma coisa: pessoas”. Isso vai continuar, é certo, mas persistem as dúvidas: “Os carros continuarão a ser importantes para o ego? Restará alguma paixão?”.

Se os carros elétricos até podem ser um caminho interessante para explorar o carácter dos modelos, os autónomos parecem, de facto, ser uma linha para lá da qual tudo pode ruir. Não digo, claro que não, que seja o fim do negócio, mas é inevitável que a mobilidade sem condutor vai obrigar os fabricantes a encontrarem soluções para defenderem o valor e a relevância das suas marcas. Da sua diferenciação. Ou como diz Ian Callum, da sua paixão. A qual, como sabemos, vale uma boa parte da margem de lucro.

Claro que valores como a qualidade, fiabilidade, confiança na marca e um novo conceito de após-venda serão fundamentais, mas o design – volto sempre a ele – será aquele elemento que fará com que o potencial cliente queira, em primeira análise, experimentar aquele carro e não outro. Tenha ele volante ou não. Vivemos, desde sempre, num mundo visual. E a indústria automóvel, sublinho, é altamente iconográfica. É isso que a distingue de muitas outras.

Sergio Pininfarina expressou-o melhor do que ninguém: “Todos os tipos de carro – desportivo, familiar, todo-o-terreno – têm um propósito. A missão do designer é compreender o sentimento que um determinado carro deve transmitir e interpretá-lo no seu projecto”.

Intemporal, não é?

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UE E OS CARROS SEM CONDUTOR – É esperado a todo o momento um relatório da Comissão Europeia sobre os carros sem condutor. A sua publicação deverá acontecer por estes dias e nele estarão as linhas mestras para a legislação que terá necessariamente de regular este mercado, incluindo padrões de tecnologia de comunicação, bem como questões formais de responsabilidade civil.

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ONDE É QUE EU JÁ OUVI ISTO? – “Estou desejoso que chegue o tempo em que as gerações depois da nossa olhem para trás e digam o quão ridículo era o facto de humanos guiarem os seus carros” – Sebastian Thrun (que, entre muitas outras coisas, foi um dos líderes do projeto do carro autónomo da Google)

AND NOW FOR SOMETHING COMPLETELY DIFFERENT – Se conseguiu ler até aqui esta crónica sobre design e carros elétricos ou autónomos, merece uma sobremesa gourmet. Neste caso, a iguaria vem da alta cozinha alemã: a Audi anunciou esta semana que a Quattro GmbH, a sua audi_sport_range_stage_teaserdivisão de tecnologia e performance, passou a denominar-se Audi Sport. É uma mudança sem precedentes desde a fundação, em 1983, e pretende espelhar de forma mais adequada a sua missão, ao mesmo tempo que elimina confusões com o nome do sistema de tração integral da Audi, que não é um exclusivo das versões desportivas. A Audi Sport continuará a produzir os RS, R8 e as versões cliente de competição, mas aquilo que realmente nos deixa com água na boca – para manter a linguagem gastronómica – é o facto de o novo nome ter vindo acompanhado da notícia de que serão lançados 8 novos modelos no próximo ano e meio.

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*Luís Pimenta acompanha o setor automóvel há mais de 25 anos. Editou e dirigiu vários órgãos de comunicação social especializados e generalistas e dedica-se hoje à consultoria e produção de conteúdos e de plataformas de comunicação online.