Uber vs táxis: Porque não é fácil tomar partido

Reinaldo Rodrigues/Global Imagens
Pedro Junceiro
Pedro Junceiro
Editor Conteúdos

Ponto prévio: nunca utilizei serviços da Uber ou de qualquer outra aplicação do género em Portugal (apesar de já o ter feito em Londres, sem qualquer motivo de queixa). Mas a razão para tal é simples e nada relacionada com problemas de consciência ou de opinião pessoal sobre a sua legalidade ou não.

Passo a explicar: contrariamente a toda uma nova geração que coleciona aplicações nos seus smartphones, tablets e afins, um dos meus hábitos passa por remover todo o tipo de aplicações ou programas que julgo inúteis quando adquiro um qualquer aparelho eletrónico (se não tenciono usá-las, saltam fora). E gosto de os manter assim enquanto estão na minha posse. Uma mania, vá-se lá saber.

Contudo, há uma verdade inegável. Essas tecnologias vieram mexer com o setor dos transportes. Revolucionárias, vão fundamentar uma total alteração da mobilidade urbana, sustentada pela tal geração ‘amiga’ de aplicações e desapegada a bens como o automóvel: uma geração que terá o seu serviço de automóveis, mas que potencialmente não precisará de ter um (tema que dá pano para mangas, fica para outro dia).

Observando toda esta mudança geracional, compreendem-se os receios dos taxistas, uma classe que vê a sua existência tradicional comprometida. Conheço muitas histórias de pessoas desiludidas com essa classe, seja com a suposta falta de ética, seja com a falta de qualidade dos carros ‘de praça’ ou até da sua maneira de vestir. Ao ouvir muitas dessas histórias, confesso que me sinto feliz por nunca ter apanhado situações de enganos no percurso ou nas contas finais, nem carros a dever anos à sucata. Sei do esforço que muitos fazem pela imagem positiva dos taxistas e, também, das taxas, impostos e valores que pagam para exercerem a sua profissão. Acreditem, é um esforço enorme.

Reconheço, até, que nunca tive qualquer desentendimento com um taxista (quando a bordo de um táxi, entenda-se…), primando a sua vasta maioria pela simpatia que dá azo a conversas. Gosto de conversar com as pessoas, é um facto. Gosto de saber os seus pontos de vista e opiniões. Partilhar ideias. Só assim podemos evoluir enquanto pessoas, falando. Isso aplica-se a tudo. Quanto aos restantes, os que se mantêm calados, são vítimas das circunstâncias: muitas vezes, levam-me simplesmente no silêncio monótono de viagens madrugadoras para o aeroporto, numa sintonia reveladora de que nenhum dos dois quereria estar acordado a horas impróprias. Ossos do ofício para ambos.

Mas, com estas novas tecnologias, não há como observar de outra forma. A margem dos taxistas é curta. Não se trata de ser um ‘cúmplice’ de serviços como os da Uber, Cabify ou outros que apareçam. Nem é uma conspiração urdida em segredo. O facto é que o ‘jogo’ está a mudar e com os grandes construtores automóveis a investirem milhões na indústria da mobilidade urbana – desde a partilha de automóveis às boleias conjuntas –, urge repensar o setor e a sua atividade (até porque as pessoas parecem mostrar mais gosto pelos serviços tecnológicos, o que deveria levantar algumas interrogações às associações de taxistas). A tecnologia progride a uma velocidade impressionante e não há forma de a travar, nem de a colocar em pausa. Pediu-se ao Governo que declarasse estas aplicações ou serviços como ilegais, mas, mesmo que assim fosse, a tecnologia viria doutra forma. Virá na forma do carsharing ou de outra aplicação qualquer.

Por outro lado, não consigo vislumbrar como é que grupos gigantes como a Daimler, BMW, General Motors, Toyota ou Volvo poderão, sequer, equacionar que serviços de mobilidade que estão a ser desenvolvidos por si em cooperação com outras entidades possam ser travados porque afetam a classe taxista. É uma abordagem fria, mas que reflete a visão empresarial de uma modernidade igualmente fria e muitas vezes apenas atenta a números.

O mais curioso é que pensei em tudo isto enquanto fazia mais uma viagem de táxi pela (congestionada) área metropolitana de Lisboa. O que me leva a outro aspeto, o qual me apoquenta de forma mais inclemente: um dia os táxis serão todos autónomos e não terei ninguém a quem perguntar ‘Então amigo, como é que vai o negócio?‘.