Fidel Castro e Fangio, história de um amável rapto

Rui Pelejão
Rui Pelejão
Editor-Executivo

Quando festejou os seus 80 anos, o ás do volante argentino, Juan Manuel Fangio recebeu uma inesperada mensagem de parabéns dirigida pelo governo cubano e assinada por Fidel Castro agradecendo a sua simpatia pela causa: “Parabéns, dos seus amigos sequestradores”

Aos 14 anos, depois da mãe morrer, o jovem Fulgêncio Batista y Zaldivar saiu de casa e começou a trabalhar para ganhar a vida difícil num país pobre como Cuba. Trabalhou na apanha da cana do açucar, nas docas, nos caminhos de ferro, foi mecânico, vendedor ambulante de fruta até ir para Havana e ingressar na Guarda Rural e depois no exército onde ascendeu mais tarde ao posto de sargento.

Em 1933, Fulgêncio Batista liderou a revolta dos sargentos que derrubou o sangrento regime de Gerardo Machado. Uma das suas primeira ações foi colar nos ombros a patente de coronel, auto proclamar-se comandante das forças armadas e designar uma série de presidentes fantoches, que controlou durante anos até que em 1940 assumiu ele próprio o cargo de Presidente da República de Cuba, cargo que ocupou até 1944, ano em que após perder as eleições se retirou para um exílio dourado nos EUA.

Em 1952, regressa ao seu país para se candidatar de novo a Presidente, mas perante a incerteza dos resultados, organiza um golpe militar com o apoio dos americanos que instituiu aquilo que ele chamava uma “democracia disciplinada”, um sardónico eufemismo para uma feroz ditadura de direita, aliada das elites económicas cubanas, dos EUA e da máfia americana que a partir daí podia fazer negócios abertamente com o beneplácito do “amigo” Batista.

Os patrões da máfia Lucky Luciano, Vito Genovese e o “inventor” da lavagem de dinheiro, Meyer Lanski, passaram a ser recebidos em Cuba com honras de estado e os seus hotéis e casinos a serem o epicentro da beautiful life cubana e destino de eleição para estrelas de Hollywood e magnatas americanos.

Os patrões da máfia Lucky Luciano, Vito Genovese e o “inventor” da lavagem de dinheiro, Meyer Lanski, passaram a ser recebidos em Cuba com honras de estado

O brilho do regime anti-comunista de Fulgêncio Batista ofuscava tudo, até as perseguições políticas, os assassinatos e os misteriosos desaparecimentos de opositores do regime. Um clássico dos manuais de política é que quanto mais feroz é a perseguição, maior a probabilidade se lançarem as sementes da revolta. O sangue derramado sempre foi a maior semente da liberdade.

Essa semente estava plantada no filho de um abastado agricultor espanhol, antigo estudante de direito na Universidade de Havana, período durante o qual se doutrinara no marxismo anti-imperialista.

Fidel Alejandro Castro ganhou notoriedade quando criou uma rede clandestina chamada “El Movimento” que esteve na base da tentativa de derrube do regime de Batista com o assalto ao Quartel de Moncada no dia 26 de Julho de 1953. O golpe de estado acabou frustrado pelas forças fiéis ao regime e a maior parte dos conspiradores foram mortos ou detidos.

Fidel Castro foi poupado e enviado para os calabouços de Batista até ser deportado para o México. Ainda na prisão, fundou o Movimento 26 de Julho, em homenagem aos companheiros mortos naquele dia. Durante o seu exílio no México organizou o corpo expedicionário que no dia 2 de Dezembro de 1956 entrou a bordo do iate Granma (grand mother, ou seja, a avó).

A embarcação de 12 metros de comprimento foi comprada por 40 mil dólares por Castro e tinha capacidade para 25 pessoas. Embarcaram 82 revolucionários, entre elas estavam o seu irmão Raul Castro, o médico argentino Ernesto “Che” Guevara e Camilo Cinfuegos, além de  dois canhões, 35 espingardas com mira telescópica, 55 espingardas de assalto “Mendoza”, 3 metralhadoras “Thompson”, 50 pistolas e munições.

A travessia de dois mil quilómetros foi penosa, conforme relatou mais tarde “Che” Guevara: “todo o barco apresentava um aspecto ridiculamente trágico: os homens tinham a angústia refletida no rosto e apertavam o estômago com as duas mãos. Parecia um naufrágio”.

O barco saiu de Tuxpan, México, uma semana antes e desembarcou na costa sul-oriental de Cuba, a uns dois quilômetros da praia Las Coloradas, ao noroeste de Cabo Cruz, num lugar lamacento e de densos floresta que cobrem esse litoral e formam uma rede emaranhada. À espera estavam as tropas de Batista, que dizimaram os exaustos guerrilheiros. Dos 82 que deixaram o México, Fidel Castro contou apenas 19 sobreviventes que encontraram refúgio na Sierra Maestra. Foi a partir dali e com aqueles andrajosos náufragos em terra firme que Fidel Castro iniciou a revolução cubana.

 

Fangio, o maestro das pampas

Filho de emigrantes italianos, Juan Manuel Fangio nasceu em Balcare na Argentina no dia 24 de junho de 1911 e cedo mostrou inclinação para a mecânica automóvel. Aos 14 anos deixou a escola da sua cidade natal  para trabalhar como aprendiz de mecânico numa oficina local. O seu talento para o volante com os carros dos clientes acabou por o levar a iniciar-se nas corridas de automóveis, depois de ter sobrevivido a uma pneumonia que quase o ia matando e ao penoso cumprimento do serviço militar obrigatório.

Depois da tropa, Fangio montou a sua própria oficina e construiu o seu primeiro carro de corrida a partir de um Ford A. Naquele tempo na América do Sul as corridas eram autênticas maratonas de quilómetros em estradas poeirentas ligando distantes cidades. Fangio foi conquistando fama no seu país até se aventurar no estrangeiro, vencendo o
GP Getúlio Vargas no Brasil em 1941.

Após o final da II Guerra Mundial, Juan Manuel Fangio, era já um velho piloto, muitas vezes o mais velho na grelha de partida, mas o seu virtuosismo e combatividade acabaram por fazer dele um dos maiores ases do volante de todos os tempos, dominando os primeiros anos do Campeonato do Mundo de F1, onde se estreou em 1950 na poderosa equipa da Alfa Romeo tendo como companheiros de equipa Giuseppe Farina e Luigi Fagioli.

A Alfa, com os seus Alfettas do pós-guerra, era a força dominante, mas apesar das suas três vitórias, Fangio deixou escapar o primeiro título da história do mundial de F1 para Farina. Mas não foi por isso que “El Chueco” ou o “Maestro” deixou de gravar o seu nome nos anais da competição. Fê-lo por cinco vezes durante essa década, conquistando títulos mundiais com a Alfa Romeo, Maserati, Mercedes e, inevitavelmente, com a Ferrari. Pentacampeão do mundo de F1, uma proeza que só seria batida meio século depois pelo alemão Michael Schumacher.

No final da sua carreira na F1, em 1957, Juan Manuel Fangio tinha 46 anos e era uma super estrela planetária, conhecido, admirado e respeitado nos quatro cantos do mundo como o maior ás do volante vivo, até porque os ases do volante daquele tempo não tinham grande esperança de vida, já que o automobilismo era e continuaria a ser o mais mortal dos desportos.

 

O Grande Prémio de Cuba, propaganda do regime

O episódio ocorreu no início de fevereiro de 1958 em Havana. Fangio havia pendurado o capacete e decidira terminar a sua carreira após conquistar o seu quinto título mundial em 1957 com a Maserati, após uma épica e emocionante corrida no Nurburgring, circuito que o piloto escocês Jackie Stewart cunharia anos mais tarde como “o inferno verde”.

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Fangio suplantara mais uma vez o seu arquirival britânico Stirling Moss. Como escrevia o poeta brasileiro Drummond de Andrade “tem campeões para tudo, até para campeonatos perdidos”, Stirling Moss foi um deles.

Antes de regressar a Buenos Aires para se dedicar aos seus negócios, o “maestro” Fangio, acedeu ao convite para participar com um Maserati 400 S no Grande Prémio de Cuba, uma prova de sport cars patrocinada por Fulgêncio Batista. O objetivo do ditador cubano era promover uma imagem de normalidade e segurança do país e mostrar aos amigos americanos que o foco de guerrilha do Movimento 26 de Julho, liderado por Fidel Castro, estava confinado à Sierra Maestra.

Após o desastroso desembarque em Cuba da expedição do iate Granma os revolucionários encontraram refúgio nas regiões montanhosas da Sierra Maestra, onde tiveram o apoio popular que lhes permitiu reorganizarem-se e iniciarem o combate ao regime sanguinário de Fulgêncio Batista. Mas não era só nas montanhas que se combatia a ditadura, havia células de resistência ativas no país inteiro, especialmente em Havana, e foi uma delas que decidiu levar a cabo a ousada “operação Fangio”.

Juan Manuel Fangio era o cabeça de cartaz da corrida que se iria disputar nas ruas de Havana, com a longa reta da marginal do Malecón a ser enfeitada com a pompa e circunstância de um regime opulento e carnavalesco.

Fulgêncio Batista tinha-se empenhado pessoalmente nesta grande operação de relações públicas e foi dar as boas vindas ao pentacampeão argentino nas sessões de treinos que iriam anteceder o grande evento.

Além de Fangio, que iria receber 50 mil dólares mais despesas pela sua presença, tinham aceite os chorudos cheques de Batista, pilotos como Stirling Moss, Phil Hill, Masten Gregory, ou o aristocrata espanhol Alfonso de Portago, que se fazia acompanhar da sua nova namorada a atriz Linda Christian, ex-mulher do galã de Hollywood, Tyrone Power.

não era só nas montanhas que se combatia a ditadura, havia células de resistência ativas no país inteiro, especialmente em Havana, e foi uma delas que levou a cabo a “operação Fangio”

Glamour, mojitos e fiestas no Trocadero ou no Hotel Nacional davam à cidade uma atmosfera de festa que parecia fazer esquecer que Cuba era um país em guerra e que os guerrilheiros barbudos se vinham lentamente aproximando da capital.

Mas para Gary Cooper e outras estrelas de Hollywood que acederam ao convite de Batista para assistir à corrida, os assuntos domésticos do país, não eram tema que lhes dissesse respeito. Stirling Moss, recordaria mais tarde a emoção que rodeava a corrida: “Correr ao longo da marginal do Malecon na vibrante cidade de Havana foi uma experiência inesquecível. A atmosfera era incrível, a competição intensa e a hospitalidade das pessoas para lá de palavras.”

 

O espetacular rapto de Fangio

Havia no entanto preocupações em relação ao tipo de hospitalidade que alguns cubanos podiam dedicar aos convidados do Grande Prémio de Cuba.

As medidas de segurança eram apertadas e os serviços secretos e a polícia estavam atentos a qualquer movimentação, tendo feito uma limpeza prévia de supostos opositores do regime. Mas os cárceres de Havana não teriam capacidade para aferrolhar todos aqueles que se opunham à ditadura e que queriam sabotar o Grande Prémio de Cuba com uma espetacular operação de contra-relações públicas.

O ideólogo da “operação Fangio” foi Faustino Pérez, herói da revolução e um dos sobreviventes no desembarque do Granma, que Fidel escolhera para liderar as operações clandestinas do Movimento 26 de Julho e que mais tarde liderou as forças revolucionárias no desembarque da Baía dos Porcos.

Pérez, médico de formação, decidiu que a forma mais cirúrgica e menos sangrenta de abalar o Grande Prémio era raptar o seu cabeça de cartaz. Para isso, encarregou o jovem revolucionário Oscar Lucero Moya de liderar um pequeno comando para raptar o piloto argentino. Moya e mais nove operacionais, onde se incluía a sua mulher, prepararam o rapto após um jornalista os ter informado onde Fangio estava hospedado.

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Foi assim que no dia 23 de fevereiro de 1957, Juan Manuel Fangio desceu do seu quarto no hotel Lincoln, em Havana Velha, após um fatigante dia de treinos no terrível calor húmido de Havana. No bar, repleto de adeptos das corrida e jet set internacional, esperavam-no alguns dos seus amigos e companheiros de corridas, como o mecânico e preparador argentino Alejandro De Tomaso (criador da mítica marca desportivo De Tomaso), o mecânico Guerino Bertochi, o seu manager Marcelo Giambertone, ou o publicitário Carlos Gonzalez.

Fangio recordou mais tarde o episódio: “Aproximou-se um homem com um casaco de cabedal, tinha uma pistola automática nas mãos e disse-nos que não nos devíamos mexer ou nos mataria.”

O homem com a pistola na mão era o franzino  operacional Oscar Lucero, e os seus cúmplices estavam espalhados na sala. A principio, Fangio pensava que era uma brincadeira, mas cedo percebeu que a conversa era séria e perguntou para onde o levavam: “Disse-me que me levariam para um lugar seguro e que não tinham intenções de me fazer mal. Descobri depois que haviam três carros envolvidos. Eles guiavam devagar para não atrair atenções. As pessoas que viajavam comigo pediram-me desculpas por aquilo que estavam a fazer, mas o que queriam era atrair a atenção do mundo para a sua causa”.

O piloto argentino foi conduzido discretamente num Plymouth até um esconderijo e depois movido para outra casa segura. Os captores pediram-lhe para escrever uma nota a dizer que estava vivo e enviaram-na com um comunicado a agências noticiosas internacionais, aguardando pelo efeito bombástico que a sua arriscada operação teria na opinião pública internacional.

Humilhado e embaraçado pela facilidade com que os revolucionários levaram a cabo o rapto, Fulgêncio Batista mandou os seus esbirro montar uma operação de caça ao homem em Havana. No dia seguinte a imprensa internacional fazia eco do rapto de Fangio e havia muitas vozes críticas deste aparatoso método de propaganda dos revolucionários. O Grande Prémio esteve para ser cancelado, mas Batista estava determinado em não deixar que a sua festa de propaganda automobilística fosse avante.

Humilhado e embaraçado pela facilidade com que os revolucionários levaram a cabo o rapto, Fulgêncio Batista mandou os seus esbirros montar uma operação de caça ao homem em Havana

A corrida iria mesmo ter lugar nas ruas de Havana e até foi designado um substituto para o Maserati de Fangio, o belga Maurice Trintignant. Naquela manhã de segunda-feira, Fangio recebeu a visita do mentor do seu rapto, Faustino Perez, que lhe pediu desculpa pelo incómodo e o informou que seria libertado após a realização do Grande Prémio.

Fangio confessou mais tarde que foi tratado com muita cordialidade e que esteve sempre em condições confortáveis. Os seus amáveis raptores retribuíram os elogios, considerando Fangio um simpático e irrepreensível gentleman. Com esta espécie de recíproco síndrome de Estocolmo entre raptores e raptado, Fangio foi convidado a escutar a transmissão do Grande Prémio pela rádio. O argentino, desiludido por não poder participar, recusou a oferta.

A prova ficaria marcada pelo terrível acidente do piloto cubano Armando Garcia Cifuentes, que na sétima volta perdeu o controlo do seu Ferrari de 2 litros na curva junto à embaixada americana. O despiste provocou a morte de seis pessoas e ferimentos em mais de quarenta, o que levaria à suspensão da corrida e à atribuição da vitória a Stirling Moss.

Na casa onde era mantido cativo, o ambiente era sombrio. Oscar Lucero Moya temia que se combinasse a entrega de Fangio às forças de Batista o mais provável é que fossem todos mortos, incluindo Fangio. A solução foi entrar em contacto com o embaixador argentino, que era familiar de “Che” Guevara, para entregar Fangio são e salvo.

Perto da meia noite um Plymouth conduzido por Arnold Rodriguez estacionava discretamente à porta da embaixada e deixava o pentacampeão do mundo seguir em liberdade com uma carta de desculpas para o governo argentino, explicando as razões deste rapto. “Foram sempre muito amáveis e ele ainda me disse que se a revolução fosse bem sucedida, seria convidado a voltar a Cuba como convidado de honra.”

Perto da meia noite um Plymouth conduzido por Arnold Rodriguez estacionava discretamente à porta da embaixada e deixava o pentacampeão do mundo seguir em liberdade.

A revolução foi de facto bem sucedida, não sem antes o regime de Batista fazer mais uma vítima. Alguns dias antes da entrada triunfal de Fidel Castro em Havana, o raptor de Fangio — Oscar Lucero Moya, — era torturado até à morte pela polícia política, após 20 dias de detenção, deixando escrito em sangue nas paredes da sua cela: “18 de mayo de 1958 aún vivo Oscar.”

Juan Manuel Fangio receberia dias mais tarde um convite para participar no famoso programa americano de televisão apresentado por  Ed Sullivan para contar a história do seu rapto: “Já ganhei cinco campeonatos do mundo, mas foi preciso ser raptado para ser reconhecido nos EUA”.

Quanto aos seus raptores Fangio limitou-se a dar o seu tácito apoio: “Se a causa revolucionária é boa, então eu, como argentino aceito o meu rapto.”

Anos mais tarde Fangio visitou Cuba como embaixador da Mercedes e Fidel interrompeu uma reunião para cumprimentar o célebre piloto, oferecendo-lhe a amizade e a gratidão do povo e do governo cubano. No dia dos seus 80 anos, Fangio recebeu uma mensagem de parabéns assinada “pelos seus amigos, os raptores.”