Nigel Mansell o forasteiro que humilhou os cowboys na Indy Car

Emerson Fittipaldi já o tinha feito antes – vir das pistas da F1 para as da Indycar e vencer. Mas, de forma quase arrogante como Nigel Mansell o fez, nunca
ninguém tinha sequer imaginado ser possível…

Mas foi: zangado com Frank Williams e com a F1 em geral, Nigel Mansell, no final de 1992, ainda com o título de Campeão do Mundo fresquinho no bolso, surpreendeu toda a gente ao anunciar a sua intenção de atravessar o Atlântico e aterrar em Terras do Tio Sam – para enfrentar e vencer os especialistas
locais da Indycar. Ninguém acreditou alguma vez que isso não passasse de mais um dos inúmeros caprichos daquele britânico já com 40 anos, famoso pelas suas tiradas de (mau) humor e que, sempre que as coisas corriam mal, culpava este mundo e o outro pelos seus próprios fracassos. Mas, na verdade, foi muito mais que um mero capricho – Mansell, de facto, abriu a porta a outros pilotos da F1. Depois dele chegaram, viram e venceram, Alessandro Zanardi e Sébastien Bourdais. O piloto que falava ‘estrangeiro’ Pois é: para lá das suas vitórias, dos seus azares, da sua forma musculada de pilotar, dos seus desvarios
de personalidade, da sua paixão pela mulher Rozeanne, das suas críticas à futilidade dos seus pares, do seu hobby como polícia na Ilha de Man, Nigel Mansell será sempre lembrado pelas suas façanhas nos dois anos em que esteve na Indy Car, 1993 e 1994.

No primeiro ano, depois da surpresa que foi a desfaçatez com que chegou a Phoenix e pulverizou todos os recordes sem nunca antes ter andado numa oval, foi o seu percurso absolutamente inédito e surpreendente, para um rookie naquela competição. Que, nessa altura, tinha a fama de possuir dos mais duros e difíceis pilotos do mundo e em que era preciso ter muita experiência para os conseguir bater. Já para não falar nas dificuldades desde sempre associadas à pilotagem nas ovais, em especial nas mais rápidas. Mansell não quis saber de nada disso: em 16 corridas, faltou a uma, depois de te aprendido como se bate num muro nas ovais. Nas outras, terminou em quase todas e venceu cinco – para lá da sua espantosa estreia, em Surfers Paradise, em que humilhou os seus adversários sem contemplações, ganhou todas as que se realizaram precisamente nas ovais, como que ‘mostrando’ aos yankees que, afinal, os ‘meninos’ da F1 não eram assim tão ‘meninos’ como isso. Pelo menos ele, Nigel Mansell, não o era de todo… A única exceção foi mesmo as Indy 500, onde ‘apenas’ quase venceu. No ano seguinte, mesmo se permaneceu na Newman/Haas, já não foi tão evidente a sua supremacia. Na verdade, não houve nenhuma supremacia: os seus rivais reagiram finalmente ao ‘número’ do domínio do ‘estrangeiro’ e tudo fizeram para voltar contra ele os sempre volúveis ânimos dos fãs. Reflexo disso mesmo, foi o cancelamento de uma sessão de autógrafos prevista para depois das Indy 500, num armazém da K-Mart, que teve que ser cancelada por falta de… interessados! Indy 500, é bom dizê-lo, onde sofreu um violento acidente, de que saiu tão confuso, que recusou assistência médica e acabou por criticar à boca cheia Dennis Vitolo, o piloto que, na verdade, tinha sido o culpado do sucedido.

Mais uma coisa que não caiu bem no orgulho americano e, mal terminou a temporada, deixou a equipa e a IndyCar, aceitando um breve regresso à F1. Onde ainda teve tempo para ganhar, semanas depois, o GP da Austrália, dois anos após o seu abandono.

Nigel Mansell

O fenómeno que quase dominou Indianapolis

Nigel Mansell sempre foi um fenómeno – sobre todos os aspetos. E a sua forma de pilotar estava no rol das suas melhores (e piores) particularidades. Alcunhado de ‘brutânico’, pela sua rudeza social, mas também pela forma musculada como pilotava na F1, toda a gente lhe augurava a pior das sortes
quando chegasse à temível oval de Indianapolis. Em especial, depois de ter quase partido a espinha (e a cabeça…) em Phoenix, pouco mais de um mês antes…

As Indy 500 eram então a segunda prova em ovais do calendário – e a primeira nas complicadas super speedways, onde as velocidades atingiam os 400 km/h e onde as forças centrífugas ‘empurravam’ os pilotos para os muros, mal acontecesse o menor dos erros. Com Mansell, todas essas teorias foram por água abaixo. A principal – aquela que garantia que, quando um carro fugisse de traseira, o melhor era deixá-lo ir e nunca (mas mesmo nunca!) tentar corrigi-lo
com o volante – foi perfeitamente ridicularizada por Mansell. Oitavo na grelha de partida, o que significa em Indianapolis largar da terceira fila, o britânico chegou ao comando da prova depois da situação de bandeiras amarelas provocada quando Robby Gordon ficou parado na pista, com a caixa de velocidades quebrada. Atrás de si, estavam Emerson Fittipaldi e Arie Luyendyk – e ficaram célebres as comunicações do brasileiro com a sua boxe, gritando: “Ele vai bater, ele vai bater”.

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‘Ele’ era, nem mais nem menos, Mansell – que, a mais de 350 km/h, efetuava vigorosas correções de trajetória com o volante, sem problemas aparentes e conseguindo sempre controlar o carro. Mais tarde, ‘Emmo’ confessou: “Era impressionante! Eu sempre acreditei que ele não iria nunca conseguir. Mas lá estava eu, atrás dele, a ver o carro a fugir e ele a dar golpes com o volante, como se não estivesse a mais de 350 km/h! Isso ninguém fazia na Indy! Era uma coisa impossível, controlar um carro dessa forma. Para nós, a batida estava mais que garantida!”. Afinal, nunca bateu – e apenas perdeu a prova quando, após uma última situação de bandeiras amarelas, fez um mau restart, vendo-se batido pelos mais experientes Fittipaldi e Luyendyk, que terminaram à sua frente.

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Phoenix: uma estreia de estalo!

Nigel Mansell chegou, viu e venceu – com exceção das ovais. Temíveis para os europeus e com uma abordagem muito peculiar, em termos de pilotagem, Mansell descobriu isso mesmo – e da pior forma! – da primeira vez em que enfrentou uma, a de Phoenix, no Arizona. Esta até nem é das mais complicadas, pois a zona de banking é relativamente suave e tem somente uma milha de perímetro. Porém, logo nos treinos, o piloto da Newman/Haas Racing não conseguiu evitar o contacto com o muro, quando seguia a mais de 275 km/h. Na verdade, estava a ser uma manhã de sábado de sonho. Mansell, que tinha testado na pista em Janeiro, quando bateu por mais de meio segundo o recorde oficial, já tinha quebrado esse mesmo recorde, ao ‘voar’ a uma média de 279 km/h. Depois, foi o acidente: ao abordar a Curva 1 a fundo, a traseira do Lola/Ford deslizou demais e o embate, primeiro na barreira de contenção, colocada antes do muro em cimento, foi brutal e quase sem desaceleração: “A traseira do meu carro fugiu. Pensei: ‘Não há problema, consigo ir buscá-la!’, mas não fui capaz… e a única coisa de que me lembro a seguir foi de estar no helicóptero, já a levantar voo”. Com uma concussão cerebral e várias nódoas negras, Mansell passou a noite no hospital da cidade e, apesar de ter de lá saído a tempo de participar na corrida, já que disso não tinha sido proibido pelos médicos, acabou por decidir ir para casa na Inglaterra, pois não estava a conseguir aguentar as dores nas costas provocadas pelo embate.

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Prova a prova

A PPG Indycar World Series de 1993 tece um total de 16 corridas, entre 21 de Março (Surfers Paradise) e 3 de Outubro (Laguna Seca). Dessas, seis realizaram-se em pistas ovais e as restantes em circuitos urbanos ou convencionais. Nigel Mansell participou em 15, tendo ficado de fora apenas na segunda prova – e a primeira em que ele enfrentava uma pista oval: bateu nos treinos. Nas restantes, venceu em quatro e apenas não ganhou nas Indy 500 por acaso. O britânico terminou nos pontos em 11 vezes – das quais dez no pódio e cinco no lugar mais alto. No final dessa temporada, Mansell ganhou o campeonato com 191 pontos – mais oito que o veterano Emerson Fittipaldi e 37 que o canadiano Paul Tracy.

21 de Março – Australian FAI IndyCar Grand Prix (Surfers Paradise, circuito urbano) – Pole Position/1º/Volta mais rápida
4 de Abril – Valvoline 200 (Phoenix, oval) – Não alinhou (acidente nos treinos)
18 de Abril – Toyota Grand Prix of Long Beach (Long Beach, circuito urbano) – Pole Position/3º/-
30 de Maio – 77th Indianapolis 500 (Indianapolis, oval) – -/3º/-
6 de Junho – Miller Genuine Draft 200 (Milwaukee, oval) – -/1º/-
13 de Junho – ITT Automotive Grand Prix of Detroit (Detroit, circuito urbano) – Pole Position/15º/Volta mais rápida
27 de Junho – Budweiser/G.I. Joe’s 200/Havoline (Portland Raceway, circuito convencional) – Pole Position/2º/-
11 de Julho – Budweiser Grand Prix of Cleveland (Cleveland, circuito urbano) – -/3º/-
18 de Julho – Molson Indy Toronto (Toronto, circuito urbano) – -/20º/-
1 de Agosto – Marlboro 500 (Michigan International Speedway, oval) – -/1º/Volta mais rápida
8 de Agosto – New England 200 (New Hampshire International Speedway, oval) – Pole Position/1º/Volta mais rápida
22 de Agosto – Texaco/Havoline 200 (Road America, circuito convencional) – -/2º/-
29 de Agosto – Molson Indy Vancouver (Vancouver, circuito urbano) – -/6º/-
12 de Setembro – Bosch Spark Plug Grand Prix (Nazareth Speedway, oval) – Pole Position/1º/-
3 de Outubro – Toyota Grand Prix of Monterey (Laguna Seca, circuito convencional) – -/23º/-

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