O meu clássico com história: “Mirage”, um buggy italiano

Hélder Oliveira, proprietário de um raro “Mirage”, conta-nos na primeira pessoa a emotiva descoberta e todo o caminho até ao estado exemplar e que se encontra.

A descoberta deste “old school” italiano foi um mero acaso. Um certo domingo de passeio pelo interior do concelho de Castro Marim, reparo numa silhueta azul, debaixo de uma alfarrobeira.

Ao acercar-me, afastando os galhos, deparo-me com um buggy, cujo design e estética me pareceu diferente do que tinha visto até aqui. Como o local era completamente isolado, estive bastante tempo a contemplar a minha recente descoberta, com a adrenalina inerente a um momento destes.

Que digam os amantes de clássicos, o que sentem quando descobrem uma raridade. Ainda com a capota preta de lona montada, mas com as laterais muito degradadas,percebi que o interior estava nas mesmas condições, com água dentro, como se de uma piscina se tratasse.

Mas o que me saltou à vista foi aquele volante de madeira com o símbolo VW e raios em inox, que indicava tratar-se de um espécime com pedigree. Até que descobri uma pequena chapa de identificação cravada na carroçaria que indicava claramente a sua proveniência: “Automobili Auto Mirage – Bologna”.

Depois de tirar algumas fotos registando aquele encontro inesperado, regressei a casa com todas as dúvidas inerentes: Gostava de recuperar para a vida aquele buggy, que me transportava à minha infância em Angola.

Mas como chegar ao proprietário, quando a casa mais próxima ficava a um quilómetro do sítio onde se encontrava abandonado.

Na semana seguinte volto ao local e começo a perguntar pelo proprietário na casa mais próxima, habitada por holandeses. Explicam-me que têm uma vaga ideia de que o buggy pertence a um italiano proprietário de uma pizzaria na Manta Rota. Fez-se luz… e lá fui rumo a Manta Rota à procura do italiano.

A pizzaria estava encerrada, porque estávamos em pleno inverno. Procurei algum contacto e descobri um número de telemóvel na porta. Liguei. Respondeu-me uma uma voz com sotaque italiano. Estava no bom caminho!

Disse que estava interessado no buggy e ele respondeu que podiamos falar pessoalmente.Voltei ao local como combinado para fazer a transacção. Depois de uma amena conversa,ficou acordado fazer uma permuta com publicidade para a pizzaria, a imprimir na minha editora. Feito! Tinha conseguido recuperar aquele buggy de uma morte certa.

Após alguma investigação na net, descobri que a fábrica Mirage existiu em Bologna nos anos 70 e produzia Buggys curtos a partir do desenho/molde importado da Califórnia e cedido por Mayers Manx, o criador do famoso conceito dune buggy com chassis VW.

Entretanto o restauro iniciou-se logo de seguida, dada a minha impaciência. Primeiro passo, fazer a avaliação geral. Lista de peças novas a substituir. Separar o chassis para melhor perceber o seu estado. Pouco a pouco a coisa foi tomando forma. Primeiro identificar o ano do chassis VW, que veio a verificar-se ser anterior a 1970 e o motor, um 1200 com carburador 30 pic.

Depois, foi renovar todos os componentes mecânicos: bomba central de travões, bombitos, cintas, amortecedores, pintura e isolamento de todo o chassis. O motor apresentava boas condições aparentes pelo que ficou como estava, levando apenas um novo distribuidor e um carburador 34 pic. Finalmente a carroçaria de fibra foi toda lixada e preparada para a pintura final num azul metalizado.

O interior foi completamente refeito, com as “baquês” de fibra a levar um padrão idêntico ao de origem, e o chão todo forrado com alcatifa. Pouco a pouco o Buggy Mirage voltava ao seu estado puro. Como estamos no Algarve, optei por uma capota de lona preta curta, apenas para proteger do sol.

“Et voilá!”, o Mirage estava finalmente pronto! Hoje em dia é assíduo nos encontros do grupo Clássicos na Praça de Vila Real de Santo António, no Algarve e na Andaluzia e desde então tem-me dado muitos quilómetros de prazer. E o gozo que me dá circular com o vento a bater na cara e a ouvir o boxer a roncar…