Jochen Rindt: O único campeão a título póstumo na F1

Faria hoje 75 anos o único campeão póstumo da história da Fórmula 1, o austríaco Jochen Rindt. Morreu nos treinos para o GP de Itália de Fórmula 1 em 1970.

O automobilismo tinha duas classes de iniciados: os ricos, que podem comprar os carros, e os que tinha de lutar em oficinas, em pequenos empregos para pagar o ‘vício’. Jochen Rindt fez parte do lote dos afortunados que conseguiram concretizar a sua ambição com o respaldo de uma família com posses. Aos 15 meses de idade, no verão de 1943, os pais morreram num bombardeamento em Hamburgo. Jochen herdou a Klein & Rindt, uma fábrica de condimentos fundada em 1840, e jamais enfrentou dificuldades económicas.

Adolescente, em Graz, no sul da Áustria, Jochen era endiabrado e um pouco irresponsável. “Eu era o melhor da minha classe em esqui e no ténis”, gabava-se. Mas, mantinha sempre o avô advogado, Hugo Martinowitz, bem ocupado a safá-lo da polícia depois de repetidos desvarios ao volante de tudo o que tivesse motor, quase sempre acompanhado do seu grupo, de que fazia parte o amigo Helmut Marko. O herói deles era o Conde von Trips que poderia ter sido Campeão do Mundo de Fórmula 1, em 1961, não tivesse morrido num acidente em Monza, a 10 de setembro. Em 1962, Jochen foi aceite na Faculdade de Viena de Comércio Internacional, mas jamais cursou. Um Alfa Romeo Giulietta Ti foi mais interessante…sobretudo depois de transformado na Conrero à conta da avó…

Jogos de snobs?

Jackie Stewart sempre pilotou carros de outros. Jochen comprou-os, no início. Para 1963, o jovem austríaco comprou o Cooper Fórmula Júnior de Kurt Barry, e estreou-o em Vallelunga. Conheceu Piers Courage, o milionário (cervejas Courage), garoto maravilha do automobilismo britânico, que o achou um snob.

Para 1964, Rindt entrou no stand do Racing Car Show de Londres, em janeiro, e entregou a Jack Brabham um cheque de 4000 libras por um Fórmula 2. Contratou um mecânico e mudou-se para o apartamento londrino partilhado entre Frank Williams, Piers Courage, Charles Lucas e Charlie Crichton-Stuart. Depois foi só a subir, aos 22 anos, a grande sensação dos circuitos ingleses: mais rápido que Clark em Mallory Park, ganhou a sua segunda corrida de F2, batendo Graham Hill. A BP aumentou-lhe o contrato “para valores que pensava estar a sonhar” – 25 libras por corrida e 1200 por ano.

O Rei da F2 chega à F1

Depressa passa a ganhar tudo na F2, de que é considerado o Rei, batendo regularmente Jim Clark. Ao todo foram 29 vitórias, de 1964 a 1970. Foi o mesmo domínio na F2 que Clark exercia na F1. Rindt foi campeão britânico e francês. Em agosto de 1964, no aeródromo de Zeltweg, o já não tão desconhecido Jochen entrou na F1 com um Brabham-BRM de Rob Walker (quem mais para ser o porteiro da fama de mais um enorme talento?).

Foi, no entanto, nas 24 Horas de Le Mans de 1965, que ele se ‘emancipou’. Numa época em que era normal trocar pastilhas de travão e pneus apenas uma vez em toda a prova, o Ferrari 250LM de Luigi Chinetti pilotado por Rindt e Masten Gregory gastou seis jogos de pastilhas e de pneus na sua cavalgada para a vitória com um motor sem potência.

Cooper e Ecclestone

Foi John Cooper quem lhe deu um volante regular na F1, em 1965. Pouco depois de lhe dar um lugar na equipa ao lado de Bruce McLaren, John teve de vender a sua Cooper ao grupo Chipstead, liderado por Jonathan Sieff, da família que controlava o gigante de retalho Marks & Spencer. A equipa passou a ser comandada por Roy Salvadori, com quem os pilotos jamais de dariam muito bem.

Entretanto, um bem-sucedido vendedor de pneus, motos e carros usados – Bernie Ecclestone – volta a interessar-se pelo automobilismo. Em 1958 saíra de cena quando Stuart Lewis-Evans, de quem era manager, morrera devido a queimaduras num acidente num Vanwall, no último GP de 1958, em Casablanca. Em 1965, o pequeno comerciante reaproximava-se da Cooper, Brabham e Lotus. Não levou muito tempo para Ecclestone se tornar manager de Jochen Rindt.

Em 1966, o Cooper passou a ter motores Maserati e o mecânico de Jochen passou a ser Ronald Dennis, com 18 anos, a partir de 1980 patrão da McLaren. Em 1967, Jochen. apesar de ser apenas 4º em Spa e em Monza, viu o seu rendimento fixo aumentar para dez mil libras, graças à classificação no campeonato do ano anterior. O estatuto do austríaco na F1 consolidou-se, com um estilo que amadurecera, mais gentil e com total controlo dos carros, tornando-o um dos três melhores pilotos.

A beleza na F1

Nina, Sally Courage e Sally Stokes eram modelos. Helen era uma tímida jovem. Encontraram Jochen, Piers, Jim e Jackie passaram a ser as beldades dos paddocks britânicos e mundiais. Nina, de família sueca e russa, conheceu Jochen em Budapeste em 1963. A 5 de março de 1967 casaram, na mais antiga igreja de Helsínquia. Em 1970, as três primeiras já eram viúvas.

Brabham, um porto seguro

A vida e os resultados na Cooper obrigaram Jochen a sair: “Eu posso mudar de equipa com mais facilidade que tu”, disse a Salvadori. Para 1968 Rindt teve ofertas de todas as equipas, exceto a Lotus, e ainda a hipótese de criar uma equipa privada, na Winkelmann, com um carro projetado por Robin Herd. A F1 estava em grandes mudanças com o novo motor Ford, e as novas estratégias da Firestone e BP. Jochen optou pela Brabham, para onde levou o seu mecânico Ron Dennis. O ano foi marcado pelas mortes de Clark, numa prova de F2, em Hockenheim, a 7 de abrilAbril; de Mike Spence, nos treinos, em Indianapolis, num Lotus; Ludovico Scarfiotti, nos treinos da rampa de Rossfeld, na Baviera, em Porsche; e Jo Schlesser, no GP de França, em Rouen, num Honda. No ano anterior, Lorenzo Bandino morrera num Ferrari, em Mónaco.
Todas estas mortes ocorreram a dias 7, exceto a de Scarfiotti, a 8.

Lotus, a tentação

No final de 1968, Rindt enfrentou grandes dúvidas. Por muito pouco continuava na Brabham, onde se sentia muito bem com Jack protegendo-o e aconselhando-o, e com os carros seguros de Ron Tauranac. No entanto, a tentação da Lotus – mais a competitividade dos carros de Chapman do que o dinheiro – foi grande demais, e na temporada da Tasman Series no inverno europeu, Jochen já pilotou um Lotus. O primeiro aviso sério veio em Montjuich, Barcelona, a 4 de maio – a asa do seu Lotus 49 biplano quebrou e ele entrou pela multidão, matando seis espetadores e causando-lhe sério traumatismo, nariz e queixo partidos.No entanto, guiar um Lotus era um deleite.

Saída da Lotus?

Mas, a meio de 1969, Rindt pensou em sair da Lotus. Ele estava cada vez mais dividido quanto aos riscos, e a morte de Gerhard Mitter, a 1 de agosto, nos treinos para o GP da Alemanha, num BMW de F2, ainda o alertou mais para os problemas de segurança. Ele tinha um trunfo para deixar Chapman: Robin Herd sairia da Cosworth para projetar dois carros para Rindt ser campeão em 1970 – um com tração às quatro rodas e um às duas. Tudo financiado por Ecclestone e Rindt, com participação de Alex Soler-Roig. Alan Rees seria Team Manager, mas aí tudo se complicou quando este trouxe consigo Max Mosley e Graham Coaker, e os três queriam construir carros de F1, F2 e F3 em série, o que agradou a Herd. Rindt estava fora e assim nasceu a March (Mosley, Alan, Rees, Coaker e Herd). Houve a hipótese de Jochen ir para a McLaren, com o abandono de Bruce da F1, mas o austríaco queria participar na milionária CanAm, o que coibiu o acordo.
Depois chegou Watkins Glen e a primeira vitória.

Vitórias com o Lotus 72

A temporada de 1970 trouxe a Rindt cinco vitórias, uma ainda com o 49C no Mónaco, e as demais com o 72. A primeira com o novo carro, em Zandvoort, foi a mais sofrida, devido ao acidente mortal de Piers Courage. Jochen e Nina ficaram destroçados. Nina não aguentava mais e pressionava o marido para abandonar. Mas, este queria “terminar o que começara, e agora já a ganhar queria ir até ao título – se quero ser respeitado não posso abandonar a meio”. Ecclestone era da mesma opinião: “Não é a decisão de abandonares no futuro que vai evitar um acidente”. Isso estremeceu o relacionamento entre o casal. Rindt deliciava-se com o Lotus 72: “Neste carro até um macaco pode ganhar”.

Monza – a morte na Lotus

Os temores da fragilidade dos Lotus confirmaram-se em Monza. A meio do treino de sábado, Dennis Hulme seguia atrás do Lotus 72 de Rindt e, na reta entre a Variante Ascari e a Parabólica, viu o Lotus guinar de repente para a esquerda, sob a forte travagem, e embater de frente nos rails, ricocheteando para a pista. Apesar da violência do embate a mais de 300 km/h, terá sido a falta das tiras do cinto de segurança nas virilhas (que Rindt se recusava a usar) que, no choque, levou o seu jochen_rindt__netherlands_1970__ Jim Culp Flickrcorpo enterrar-se no cockpit e o cinto cortar a sua garganta, matando-o instantaneamente. O acidente terá sido provocado pela quebra de um semieixo de travão interno, enfraquecido pelo polimento antes do teste de fratura.

Nos últimos 18 meses de vida, Jochen já não se sentia obrigado a ganhar corridas. Por isso, a sua pilotagem era mais suave, menos agressiva, e assim, ganhou rapidez. Curioso que foi nesse período curto que ele conquistou as suas seis vitórias na Fórmula 1. No entanto, a sua motivação sofria com a dedicação ao Jochen Rindt Show – o maior evento automóvel no final de cada temporada, e que teria sido a sua ocupação empresarial depois da F1 – e com as mortes de amigos ao volante. Foi um homem dividido que morreu como o mais rápido piloto na F1, em 1970.