Em busca do segredo da felicidade do Butão

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

A minha grande curiosidade em visitar o Butão era, para além das normais visitas a templos e museus e de me maravilhar com a exuberante paisagem dos Himalaias sem neve, de que já tinha tido um fantástico exemplo no Nepal, tentar perceber qual o segredo para aquela gente conseguir ser, como dizem “a população mais feliz do planeta”.

Ontem, no trânsito, já tinha percebido que eles cumprem as regras, mas isso só por si não torna ninguém feliz, antes pelo contràrio.

Li extractos de discursos de alguns dos últimos reis do Butão. Sim, é uma monarquia, desde que o país existe como tal, no início do século passado. Curiosamente nestes discursos os reis nunca falam em inflação, crise, desemprego ou outras desgraças que afligem os países ditos civilizados. Os discursos dos reis referem sempre as coisas boas que vão acontecendo no país, que nunca esteve em guerra desde que o primeiro rei conseguiu unificar o território, e dizem que a ambição deles é que a população viva cada vez mais feliz. Nunca referem mais próspera ou com menores dificuldades financeiras. Simplesmente, mais feliz.

O Butão é um pequeno país, com cerca de metade do tamanho de Portugal, todo ele nos Himalaias e com menos de 700 mil habitantes.

À medida que rodava país dentro ia-me apercebendo de razões que podem influenciar essa felicidade de que tanto se fala. Primeiro ponto importante, ela não vem do dinheiro. A maioria da população vive com muito pouco dinheiro. Muito menos que os portugueses, por exemplo. E sentimos logo no primeiro contacto com esta gente que estão muito mais felizes, de um modo geral, do que quem vive no Dubai, a destrocar petrodólares ou em Londres, Paris ou Nova Iorque. Não há psicólogos ou psiquiatras mas apenas Monges Budistas e “Great Lamas”.

Mas como dizia, a primeira razão palpável desta felicidade é que saímos da confusão e sujidade da Índia e entramos diretamente nos Himalaias que formam como que uma fronteira natural no sul do país. Passados três quilómetros já estamos com uma paisagem deslumbrante à nossa frente de enormes montanhas forradas a verde, com muito pouco trânsito e sem lixo nas ruas.

Eu que nem era de lá, já me estava a sentir mais feliz por ali estar. A principal estrada de entrada no país, como todas as outras é estreita, por vezes em mau estado e entrelaçada nos Himalaias como se estivesse a eles abraçada. Precipícios de um lado, montanha que abate do outro, camiões que não se conseguem cruzar sem saírem os dois para as respectivas bermas seriam uma situação complicada em qualquer outro lugar. Ali faz parte e ninguém se queixa, hipnotizado que está por aquela calma transmitida pelo ar das montanhas que nos faz respirar mais devagar.

Constatei o estado de espírito da população logo no trânsito da montanha em que tanto carros como camiões, quando percebiam que vinha uma moto atrás mais rápida que eles, encostavam na berma e faziam sinal para eu passar. Mais tarde, confirmei essa mentalidade generalizada quando a polícia nos mandou parar a dizer que teríamos de esperar cerca de hora e meia por estarem a reparar a estrada.

Formou-se uma enorme fila de carros, carrinhas e camiões que foram sendo desviados para um largo onde havia um pequeno restaurante à beira da estrada. Não ouvi uma única pessoa a queixar-se ou a dizer que estava atrasada para seja o que for. Para eles o tempo não é importante e estarem ali parados ou a caminho do que tinham para fazer parecia ser exatamente a mesma coisa. Mais espantado fiquei quando, passada uma hora, outro polícia veio anunciar que teríamos que esperar mais duas horas porque a estrada que estavam a arranjar tinha abatido montanha abaixo.

E não há outra estrada de chegada à capital por aquele lado do país. Aquela gente recebeu a notícia com o ar mais natural do mundo e limitaram-se a esperar calmamente. Não estavam a conter uma fúria interior, mas simplesmente não se sentiam afectados pelo que nem sequer consideravam um problema. Este estado de espírito sim, certamente faz parte do estudo para obtenção do diploma da felicidade.

Outra curiosidade deste povo é a maneira de se vestirem. A maior parte dos homens anda de saias, que são mesmo obrigatórias para quem trabalha para o estado, enquanto as mulheres que se vêm na rua vestem quase todas calças, independentemente das suas preferências sexuais.

Ao contrário do Nepal que, por ser a terra Natal do Buda, teria mais razões para ser um país maioritariamente budista, mas onde a população é quase toda hindu, aqui 95% são budistas. Para eles há só um Deus, o mesmo de todas as religiões. Acredito que este estado de espírito do povo do Butão se deve muito à calma e meditação incentivadas pela religião budista que todos seguem e que lhes é incutida desde miúdos na escola. As crianças são ensinadas a meditar nas escolas e em vez da ginástica comum, praticam yoga.

Neste primeiro dia fiquei na cidade de Paro, a segunda do país. Comecei por ir ver, ao longe, o extraordinário mosteiro “Tigers Nest” cravado na escarpa da montanha a várias centenas de metros de altura. Aqui, onde agora vivem monges, terá estado o segundo Buda quando, no século VIII chegou à região.

Fui depois visitar um templo budista para perceber um pouco o que lá se passa. Um grupo de uns 30 monges estava a acabar uma cerimónia a que infelizmente não me deixaram assistir, nem a mim nem ao meu guia que não sendo monge é budista.

Sentia-se que era uma cerimónia importante e eram dirigidos por um “Great Lama” ou mestre Budista. Vi-o sair do recinto, com um homem que faz de guarda ao chefe e vai batendo um chicote no chão na frente do caminho. A acompanharem o “Great Lama” ou “Rimpoche” vêm ainda dois monges e um militar fardado e de espingarda ao ombro, não vá o guarda do chicote ter dificuldades em cumprir a sua missão, mesmo se tanto militar como espingarda tinham ar de nunca terem disparado um tiro. Todo este folclore, que se destinava simplesmente à caminhada do “Great Lama” do Templo para a casa que ocupava na ocasião, no terreno adjacente, como na maior parte dos casos de deslocações de pessoas importantes por todo o mundo, é mais para marcar a importância do personagem que para ter um efeito prático de proteção. Os monges recolheram a uma espécie de camarata do outro lado do Templo. Eu fiquei num hotel simples, mas limpo onde me serviram um excelente jantar.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica o seu diário de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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