Pelo Cambodja como no Tomb Raider

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Depois daquele dia passado na floresta, caí na cama, de rastos, às dez da noite. Acordei às seis e pelas sete estava a tomar o pequeno almoço numa das barracas da vila, ao lado de um talho de rua onde uma cabeça de vaca olhava para mim. Aqui não há pão e ovos também não se usam ao pequeno almoço. Tive que me adaptar a comer uma espécie de esparguete com ervas e sementes mergulhado num caldo quente. Não era mau. A menina ainda me propôs juntar uns pedaços de carne ou miolos de vaca àquela sopa, mas preferi não arriscar.

Parti pelas oito e meia para percorrer de volta os 65 Km de estrada de terra que me tinham levado até ali. Desta vez pude rodar a 90 Km/h nas partes de melhor piso e fiz aquele trajeto numa hora. Já perto do fim, com as vibrações, soltaram-se os parafusos que prendem o vidro da carenagem e encostei numa “chafarica” de um miúdo que reparava pequenas motos, para recolocar as fixações. Uma jovem cliente, que esperava estendida numa rede presa na parede da barraca que a sua moto ficasse pronta, levantou-se quando ouviu o barulho da “Cross Tourer” a chegar.

Arranquei, já com o vidro no sítio, vinte minutos depois e apanhei a partir dali uma boa estrada alcatroada durante uns 100 quilómetros e depois outros 150 Km de mau piso, com vários troços em terra batida.

Nesta zona do Norte do Cambodja não há bombas de gasolina como as conhecemos mas apenas comerciantes que, com um bidão e uma bomba manual, vendem gasolina à porta de casa ou do estabelecimento, protegidos por um chapéu de sol. Muitas vezes não é má, mas mais cara que nas bombas convencionais, onde nestes países é vendida ao equivalente a um euro por litro.

À medida que rodo para sul a temperatura vai aumentando e hoje chegou aos 40º o que, mesmo sem forros no fato, dá para suar bastante. De vez em quando ponho-me em pé para o ar entrar pelo blusão.

Nos últimos 100 quilómetros do dia voltei a apanhar estrada boa mas, quando estava a cerca de 60 Km de Kampong Cham, a cidade em que tinha planeado ficar, tive o meu primeiro furo da viagem. Por sorte estava a atravessar uma aldeia e quando olhei para o outro lado da rua havia uma dessas oficinas de motos locais. Parei para reparar o furo e eles estranharam o pneu ser “tubeless”, “como os dos carros”, referia o patrão. Foram a uma oficina que repara rodas de carros buscar um taco e, meia hora depois estava outra vez na estrada.

Kampong Cham é uma cidade gira, sobre o rio, onde volto a encontrar turistas.

No dia seguinte parti só por volta do meio dia para percorrer os 270 Km que me separavam de Siem Reap. Voltei a apanhar uma parte em terra batida e mais uma vez os suportes do vidro, que já estão em mau estado e não tenho para substituir, se desapertaram.

Siem Reap é fantástica, atravessada por um estreito rio, com um ambiente extraordinário. Instalei-me num pequeno hotel, junto ao rio, cujo proprietário é um francês, filho de mãe vietnamita, sobrinho da rainha do Cambodja e casado com uma mulher local linda. Recebeu-me de forma fantástica e convidou-me para jantar com a família.

Á noite dei uma passeio a pé pela cidade. Uma animada rua com letreiros pendurados a anunciarem Pub’s Street é preenchida com bares e restaurantes cheios de turistas ocidentais, com música ao vivo em vários deles cujo som se mistura com o das bandas de rua, dando um ambiente de festa exótico ao local.

Ali a prostituição também é um dos atrativos turísticos e os homens dos táxis locais, pequenas motos com um reboque atrelado onde levam os passageiros, não se cansam de perguntar: “do you want a girl for bum, bum”?

Na manhã seguinte fui visitar a cidade velha e ao ver, da avenida de entrada, o Palácio de Angkor Wat, tive a mesma sensação de quando, há muitos anos atrás, vi pela primeira vez a imagem de Petra, na Jordania, com o sol da manhã a bater-lhe na fachada, em cima do dorso de um cavalo, ao descer o estreito desfiladeiro que ali nos leva. Sentimos uma falta de ar de encantamento por imagens que não são possíveis de reproduzir fotograficamente.

Aquele que é o maior monumento religioso do mundo foi mandado construir no século XII pelo rei Khmer Suryavarman II. Embora seja considerado um templo, na altura Hindu, era a residência do Rei. É rodeado por um enorme lago artificial em forma de quadrado e naquelas instalações, que incluíam duas piscinas em pátios interiores e jardins fabulosos, chegaram a viver 12.500 pessoas, incluindo, segundo reza a história, 18 bispos hindus e 615 bailarinas.

Comecei a imaginar o maravilhoso que deveria ser reinar naquela época, naquele palácio, com as bailarinas sempre a dançarem à nossa volta e os bispos a perdoarem-nos os pecados.

Fui visitar depois outras ruínas desta fabulosa velha cidade de Angkor Wat onde está incluído o Palácio Ta Prohm, considerado “World Heritage Site” pela Unesco. Esteve ao abandono durante séculos e quando o decidiram restaurar, já em pleno século XXI, optaram, e bem, por manter as seculares árvores que entretanto tinham crescido à volta e dentro das ruínas, dando-lhe um aspecto fantasmagórico, aproveitado para as filmagens de “Tomb Raider”.