Volta ao mundo de moto: Os macacos ao pôr do sol na Malásia

Francisco Sande e Castro
Francisco Sande e Castro
Jornalista e Escritor

Can Pak Bera fica a menos de cem quilómetros da fronteira com a Malásia. Deixei o Hotel perto das onze horas e, ao parar numa bomba de gasolina, um homem da minha idade olhou para a moto e para os meus cabelos brancos e, com um ar sorridente, veio apalpar-me os músculos dos braços.

Fiquei só com 380 Bhats no bolso, o equivalente a cerca de 10 euros. Quando cheguei à fronteira, depois de tratar do Carnet da moto fui carimbar o passaporte mas o guarda olhou para o meu visto e disse-me que tinha caducado no dia anterior pelo que deveria pagar 500 Bhats, a tabela por cada dia de atraso. Disse-lhe que já só tinha 380, se não me fazia um desconto mas ele com cara de poucos amigos devolveu-me o passaporte e disse ou paga 500 Bhats ou não passa. Uma rapariga Israelita, bem gira por sinal, ao ouvir a conversa deu-me os 120 Bhats que faltavam. Fiquei-lhe imensamente agradecido e trocámos contactos.

A paisagem do norte da Malásia está ao nível da Tailândia, com muita vegetação, assim como a chuva, que este ano decidiu ficar por mais tempo e voltou a cair-me em cima, com força, pouco depois de entrar no país.

O primeiro aspecto curioso que nos salta à vista é que, à semelhança dos Americanos, os Malaios têm o habito de ter uma bandeira do país hasteada à porta de casa. Isto ainda é mais caricato pelo facto de a bandeira da Malásia ser muito parecida com a americana, com as mesmas riscas encarnadas e brancas, diferenciando-se apenas na parte em que ambas têm o fundo azul mas onde as estrelas dos estados americanos aparecem substituídas por um sol e uma lua. Se pensarmos que isto é um país onde a grande maioria da população é muçulmana, o que se traduz, normalmente, num ódio aos americanos, ainda mais insólita é a situação.

Como entrei na Malásia sem um tostão em moeda local nem sequer dinheiro Tailandês, tendo apenas os 1500 dólares que transporto escondidos na moto para qualquer emergência, parti em direção à cidade mais próxima para procurar uma caixa multibanco. Ainda sem mapa do país utilizei a bússola do GPS para voltar para perto da costa ocidental de onde pretendia seguir para sul. Depois de levantar moeda Malaia em Simpang Ampat parei junto a uma pequena feira onde comi uma espetada de caranguejo e umas batatas fritas como almoço e segui junto à costa na esperança de encontrar um hotel onde ficar, por já serem quatro da tarde. Mas, fui andando, com vários desvios para estradas secundárias junto ao estreito de Malaca, e nada.

Perto das seis da tarde e quando já começava a escurecer, depois de ter perguntado a várias pessoas que me diziam não haver nada por perto, recorri ao GPS que me indicava um Hotel 10 Km para sul. Lá segui o que o aparelho me disse, como habitualmente com a distancia a passar para o dobro, e cheguei a um “resort” com um aspecto frio e desconfortável, com ar de pertencer ao estado, dentro da floresta. Na recepção fui atendido por duas mulheres de cabeça tapada, uma baixinha e magra e outra gorda e alta, que se mostraram muito divertidas com a minha presença e quiseram logo aprender como se dizia “welcome” em português e “how are you?”

Quando perguntei à pequenota se ali se viam animais ela respondeu:

– À noite não.

– E de dia?

– De dia também não.

Um empregado que estava por perto e ouviu a conversa contradisse:

– Eu costumo ver aqui uns macacos pretos com uma rodela branca à volta dos olhos e um rabo muito comprido que saem de uma grande árvore, perto do “bungalow” onde vai ficar, pelas sete e meia da manhã e regressam ao pôr do sol.

A mulher ainda ficou mais divertida. Trabalha ali há tantos anos e nunca tinha ouvido falar em tais espécimes. A ver se os vejo amanhã.

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica o seu diário de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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