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Santa Engrácia era uma menina

A tolerância em relação às filas de trânsito mede-se em horas, dias, semanas e meses. Ou em anos. Com algum azar. Quem, como eu, viveu muitos anos em Santo António dos Cavaleiros (ou em Loures e Odivelas) e tinha de subir a Calçada de Carriche para alcançar o “mundo” lisboeta, foi obrigado a esticar essa paciência ao ponto do não retorno. Ao ponto em que deixamos de ser nós a esperar na fila de trânsito, mas, ao invés, é esta que passa a esperar por nós.

Na década de 90, por demasiados anos, conduzi um Fiat Uno 55s, um modelo descapotável – mas por baixo. Pelo chão. Tinha tantos buracos que podia ver-se a estrada a passar. Quando não estava parado numa fila de trânsito. Era um carro com afrontamentos crónicos. Não havia subida em que não tivesse de parar para lhe dar água. E a meio da Calçada de Carriche ardia sempre em febre.

Em 1993, no dia em que um jovem candidato à Câmara Municipal de Lisboa convocou os jornalistas para demonstrar que, naquela maldita subida, um burro seria capaz de ganhar uma corrida a um potente Ferrari, lá estava eu. Não como jornalista, esclareça-se, mas como condutor apeado, de garrafa de litro e meio de água do Luso na mão, a tentar salvar um Uno, branco sujo, do seu próprio destino. Assisti, portanto, ao vivo ao triunfo do burro perante uma assistência que não tinha uma expressão muito mais “esclarecida”.

O populismo não terá começado nesse evento, mas a carreira daquele jovem político, chamado António Costa, deu um salto significativo, apesar de não ter ganho as eleições nesse ano. Ganharia a autarquia anos mais tarde e, curiosamente, passou a tratar todos os condutores como asnos, até ao momento em que entregou a câmara a Fernando Medina e partiu rumo à conquista do Executivo.

Ao longo da sua história, a Calçada de Carriche permaneceu como uma espécie de Santa Engrácia das estradas nacionais. A eterna promessa e obra adiada. Mas, hoje, até um doutorado em filas de trânsito, como eu, terá de confessar que Santa Engrácia era uma menina. As obras da igreja demoraram mais de três centenas de anos? Fernando Medina pretende deixar obra para toda a eternidade. Não uma. Mas todas. E não uma de cada vez. Todas ao mesmo tempo. A vida dos lisboetas pode ser um inferno no presente, mas, no futuro, “quando as obras terminarem, “agradecerão”. Se terminarem, claro.

O Panteão Nacional foi construído na igreja de Santa Engrácia. Talvez Fernando Medina sonhe lá acabar um dia, dada a dimensão das obras realizadas em Lisboa. Ou talvez caia num dos muitos buracos que mandou abrir em simultâneo. Por enquanto, aos burros dos condutores lisboetas, resta puxar a carroça pelos caminhos de cabras e esperar. Calma e pacificamente. Em qualquer uma das artérias bloqueadas, como um AVC, no coração da capital.

Jorge Flores

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