Harleys, golfe no estacionamento, jeans e um adeus ao Japão

Quando, naquela noite, saí do Hotel para jantar a filha do dono, que falava inglês, ao ver-me na moto, disse-me que estavam à espera de um tufão para o dia seguinte.

– Para que altura do dia?

– Acho que é só a partir da tarde.

– Boa.

No dia seguinte saí mais cedo que o costume, não fosse o tufão antecipar-se.

Pelas nove da manhã estava na estrada, mas demorei quase duas horas a percorrer os primeiros 80 Km em estradas secundárias. Ao longe comecei a ver nuvens pretas como nunca tinha visto e os primeiros pingos do que se anunciava bateram-me na viseira.

Finalmente apanhava a autoestrada e, a menos de 160 Km/h, para não abusar da paciência da polícia, segui em direção ao Sul. Só parei quando me vi longe do tufão, que se aproximava e se abateu com força sobre a região de Tóquio. Tinha escapado por pouco. Se não me tivessem pedido para regressar ao sul um dia antes …

Fiz perto de 600 Km em autoestrada naquele dia e, no fim, tiraram-me uma conta de perto de 100 euros em portagens. Bem mais que em gasolina.

Nas áreas de serviço em que parei voltei a encontrar alguns grupos de Harleys, que se arrastam a 90 Km/h pelas auto estradas, provavelmente para não ficarem com pés e mãos dormentes com as vibrações. Os proprietários de Harleys, em qualquer parte do mundo, fazem uma espécie de grupo à parte, e gostam de dar um ar de durões, mas aqui no Japão parece não bater a bota com a perdigota e, embora alguns disfarcem, outros não resistem em ser simpáticos, fazendo pequenos acenos com a cabeça, sem que os colegas vejam. Está-lhes no sangue.

Numa das paragens que fiz estava no parque de estacionamento um velho da minha idade, junto a um imponente Lexus branco, a fazer “swings” de golf no ar enquanto esperava pela mulher e filha. Achei graça, virei-me para ele e fiz também um “swing”. O homem riu-se e veio ter comigo.

-“What handicap are you”? disse-me ele com boa pronúncia.

-“14”

-“Ha, ha. I knew it by your swing. I’m 36”.

Já tinha estado em Portugal e o que mais o marcou foi o Cabo da Roca. Os japoneses ficam fascinados com a ideia de irem ao ponto mais Ocidental da Europa e visitam o local aos milhares. Se pusessem lá uma estátua do Budha então era o delírio.

Cheguei a Kobe por volta das cinco da tarde e, antes de ir para o Hotel, ainda passei no concessionário onde tinha combinado deixar a moto na manhã seguinte, para ser encaixotada, anunciar que já estava na cidade. Não valia a pena telefonar ou mandar um mail porque ali ninguém fala ou percebe uma palavra de Inglês.

Antes do jantar ainda dei uma volta a pé pelo centro e, como a loja da Levi’s estava em saldo, resolvi comprar uns jeans. A menina, muito simpática e divertida, não tinha as calças com a altura certa de pernas para mim mas disse-me:

– Não há problema, faço-lhe a bainha em cinco minutos.

– Em cinco minutos? não é possível.

– Quer apostar? Conte.

– Levou as calças e três minutos depois trouxe-as com a bainha feita, com costura igual à de origem. Um bom exemplo dos japoneses a trabalharem.

Quem não está habituado a ouvir: “a costureira só cá vem na quarta. O melhor é passar a buscar para a semana”?

Gostei muito mais do Japão do que estava à espera. Não só pelas paisagens de cortar o fôlego como pelas cidades mas, principalmente, pelas pessoas.

A próxima etapa será os Estados Unidos

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*Francisco Sande e Castro está a dar a volta ao mundo de moto e M24 publica o seu diário de bordo. Acompanhe-o nesta grande aventura

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