Do jantar no Le Mans Legend Café à oportunidade de ver a corrida a partir de alguns dos locais mais emblemáticos do circuito ou conversar com figuras como Hurley Haywood, Hans-Joachim Stuck e Jacky Ickx, há um planeta à parte a que poucos têm acesso de cada vez que a Porsche vai a Le Mans.
Há quem diga que é o maior evento desportivo do mundo. E não é para menos: afinal, mais de 260 mil pessoas enchem, todos os anos, a pequena vila francesa de Le Mans com o fervorismo saudável dos adeptos das corridas de automóveis. Ao contrário do que acontece no futebol, aqui toda a gente pode ‘vestir’ tranquilamente as cores da sua marca favorita, seja a Porsche, Audi, Toyota, ou Aston Martin (as que sobressaem em relação às demais, por andarem nisto há mais tempo, mas também por serem fabricantes, e desse modo com ‘músculo’ financeiro para terem as suas próprias tendas de merchandising), sem medo de ser escorraçado pelo vizinho do lado. E isso, parecendo que não, também explica a multidão que se forma em cada recanto do circuito, simultaneamente concentrada e dispersa pelas bancadas, o paddock e a periferia do traçado em cada piscar de olhos.
Não quero desmoralizar ninguém, pelo contrário. Mas continuo a achar que ir a Le Mans com a Porsche é a melhor coisa do mundo, e a melhor forma de se viver a prova. Sou um sortudo, bem sei. Foi a terceira vez consecutiva que tive o prazer de pisar os pés no solo sagrado da meca das corridas de resistência a convite da casa alemã, e a envolvente insiste em fascinar-me como se tratasse da primeira vez. Porquê? É o que pretendo contar nas linhas que se seguem, admitindo desde já que este não será um texto imparcial, nem o pretende ser, uma vez que isso seria camuflar o indisfarçável: andar a reboque da marca que mais vezes subiu ao primeiro lugar tem, em definitivo, as suas vantagens. Já uma vez escrevi, ao serviço de outra publicação, que o relato não pretende provocar ninguém. Antes explicar o que se sente numa prova com este misticismo e grandeza, e o motivo para lá ir, nem que seja uma vez na vida. Se é um leitor habitual, terá reparado que não temos por hábito escrever textos na primeira pessoa no AutoSport. O protagonismo deve assentar na publicação que representamos, pois é através dela que cobrimos os eventos, e não no jornalista, que deve reportar-se aos factos. Mas há experiências tão pessoais que esse distanciamento torna-se virtualmente impossível. Daí que neste caso tenha escolhido contar-lhe o que vivi recorrendo ao discurso direto. Um luxo São 23h30, mais coisa menos coisa. Se há imagem que vou guardar para sempre na minha memória é a passagem dos carros à noite no Porsche Experience Center — local onde, ao início da tarde de sexta-feira, decorreu a última conferência de imprensa, e simultaneamente a derradeira oportunidade para trocar dois dedos de conversa com os pilotos. 
Quem nunca viu uma corrida com lusco-fusco, e com a estonteante tonalidade laranja do céu a transfigurar-se lentamente numa mescla escura e estrelada, está a perder uma das melhores formas de se ‘viver’ o desporto motorizado. Tudo ganha mais intensidade, com o cansaço que se abate sobre o nosso corpo após um corta-mato de vários quilómetros a andar para trás e para frente, consequência da imensidão do perímetro do circuito e dos vários caminhos que nos levam às zonas de acesso; a perceção de que também os pilotos estão a testar a sua própria resistência, e que por isso os erros de condução e de julgamento, antecipação e análise das condições do traçado de La Sarthe surgirão mais vezes; o silêncio que se abate sobre a pista com o desgaste físico de outros fanáticos e a ressonância maior do rugir dos motores, que quase sem darmos por isso clama para si toda a atenção dos nossos sentidos.
O negro abate-se e é retorcido — confunde-nos os olhos à medida que os ‘holofotes’ dos carros vão dominando a paisagem. E eis que surge a sensação de extrema felicidade. A confirmação de que é real. De que estamos ali, onde se forjou a história do automóvel e das corridas, e não noutro sítio qualquer. É esta a magia de uma prova de vinte e quatro horas, e desta particular, visível nos olhos e no entusiasmo das pessoas com quem nos vamos cruzando de cada vez que damos um passo. Desde que regressou a Le Mans, em 2014, apenas por uma vez — precisamente no ano de estreia — a Porsche não venceu a corrida. Com o dramático triunfo que lhe foi parar às mãos há três semanas atingiu a soma impressionante de 18 vitórias, mais cinco do que a Audi, que tem 13, um número igualmente incrível se nos lembrarmos que foram obtidas nos últimos… 16 anos! É fácil perceber quem lidera no campeonato das percentagens, mas enquanto a Audi terá como lendas Tom Kristensen (a maior de todas), Emanuele Pirro, Frank Biela ou Rinaldo Capello, a Porsche tem Jacky Ickx, Hans-Joachim Stuck, Vic Elford, Gijs van Lennep ou Derek Bell — verdadeiros heróis de uma era que já não volta. Todos seriam irrelevantes caso a marca lhes passasse ao lado. Mas se há coisa que Zuffenhausen compreende, e valoriza, é o poder da sua história. E esse é o primeiro ponto que nos fica gravado na pele há medida que começamos a penetrar no seu mundo muito particular, disponível, arrisco-me a dizer, apenas para a imprensa especializada, os seus convidados e parceiros (parte do retorno de um patrocinador como a Chopard ou a Schaeffler está também na oportunidade de levar os seus representantes a uma prova deste gabarito), e um leque muito especial de clientes endinheirados, dispostos a pagar qualquer coisa entre cinco e oito mil euros para saborearem com a maior das mordomias a experiência da mais famosa corrida do mundo. Se no primeiro ano o que é hoje conhecido como Porsche Experience Center era um edifício de um andar com uma varanda generosa e serviço de catering gourmet, utilizado também para expor a gama de veículos e para algumas entrevistas selecionadas com os membros da equipa, hoje transformou-se num aglomerado ainda maior de dois pisos, repartidos por 2600 m2, que assume cariz de concessionário assim que termina a semana mais importante do mundo motorizado.
No parque de estacionamento, a frota de serviço (muitas Volkswagen Transporter da ‘casa-mãe’, e alguns Cayenne, Cayman e Panamera) é brilhantemente coordenada para transportar as centenas de convidados de regresso ao hotel, o Media Center onde os profissionais da imprensa passam parte do seu tempo e têm a oportunidade de conviver com velhas glórias ou os pontos emblemáticos do circuito. Já o amplo rés-do-chão ‘esconde’ uma loja onde se podem adquirir os casacos, t-shirts, cintos e óculos da marca, e uma pequena oficina com a chancela do Porsche Classic Center com o objetivo de angariar futuros utilizadores do serviço. Foi aí (no rés-do-chão), à custa dos conhecimentos (e ‘charme’) do Diretor de Comunicação e Relações Públicas da Porsche Portugal, Nuno Costa, que vimos também o Porsche n º 19 que venceu a edição de 2015, ainda com a sujidade e mosquitos desse fim de semana. Como se vê, tudo ajuda a compor a envolvente! 

Ainda no segundo andar, mas na direção oposta, assumem protagonismo uma sala de jantar com direito a cozinha de autor e vista para as curvas Ford que se encontram antes da reta da meta, e uma área que a marca designa por Porsche Auditorium — o espaço onde, ao longo da corrida, promove entrevistas com as suas referências.
É aqui onde verdadeiramente se sente o peso do emblema; a sua história e grandeza; o enorme palmarés. Não só pela dimensão e qualidade (há dois anos que contrata um apresentador e duas das vozes mais conceituadas de Le Mans, antigos jornalistas, para fazer o relato da prova, introduzir os convidados e fazer um ponto de situação de meia em meia hora, tudo para que os tais clientes que pagaram uma fortuna possam estar a par de todas as incidências da corrida). Mas sobretudo pelos nomes que surgem no palco, de Patrick Dempsey a Derek Bell, de Hans-Joachim Stuck a Hurley Haywood — todos vencedores ou figuras que se destacaram no universo da casa germânica.
Nada contra a Audi, que é um baluarte da corrida. Mas poderia a marca de Ingolstadt fazer o mesmo, tendo em conta o que separa as duas insígnias (a Porsche, com 65 anos de fidelidade ao circuito gaulês; a Audi, com dezasseis), como questionou o britânico Derek Bell, numa conversa que tivemos o ano passado? Enquanto pensa nisso, subimos mais um lance de escadas rumo ao ex-libris do edifício: o majestoso bar e a enorme a varanda em ‘L’ onde iniciei esta viagem sobre a profusão de cores que pintam a noite, os sons que não se esquecem e o vento que fica marcado na cara. Na Porsche, o céu é mesmo o limite… Como já vimos, a juntar ao Experience Center há o Media Center (no primeiro ano a Porsche ainda criou um espaço para que os históricos e as suas famílias pudessem conviver tranquilamente, o Legends Lounge), sendo que a montagem dos dois espaços, em conjunto com a reserva do alojamento, obriga a um enorme esforço logístico. Franziska Jostock, responsável por essa organização, revelou que “o planeamento começa em janeiro” e que os hotéis (um deles, o Ecklo, exclusivo para os 160 jornalistas internacionais convidados, onde ficámos) são reservados para o ano seguinte logo após o final da prova. Há ainda quem fique em auto-caravanas de modo a estar mais próximo do circuito. Para a corrida, a Porsche leva cerca de 150 pessoas apenas do lado do marketing, sem contar com as equipas das agências subcontratadas.
Olhos de água
Quem acompanhou a última edição das 24 Horas de Le Mans reparou certamente no silêncio e nas lágrimas que se abateram sobre a garagem da Toyota quando os japoneses, a seis minutos do fim da prova, foram confrontados com a maior desilusão da sua vida desportiva. Mas não foram os únicos a verter partículas de água: na conferência de imprensa a que assisti, Frank-Stephen Wallisser, o responsável pelo programa desportivo da Porsche, não conseguiu controlar a emoção perante uma centena de jornalistas à conta das mudanças no Balance of Performance (BoP) que afetaram o desempenho do 911 antes do início da corrida: “Tínhamos um carro perfeito. O feedback dos pilotos era fantástico quanto ao equilíbrio e comportamento dos pneus, e de repente encontras-te em oitavo, a 3,8 segundos dos carros com o ‘F’ [Ford]. Precisamos do BoP — é relevante para as corridas de GT. Mas não precisamos disto. Confiamos em que os oficiais possam tomar nas próximas horas as decisões corretas para equilibrar o plantel”, afirmou, antes de, já em lágrimas, e sob um forte aplauso, dizer: “Vamos continuar a lutar!” Depois, já longe dos olhares curiosos, explicou-me melhor o que lhe ia na alma: “As corridas de GT são todas sobre variedade. Diferente tipos de motor, de posicionamento, de desenho. Não é apenas a visão da Porsche, é mesmo a pensar nos adeptos. O BoP permite que este tipo de carros tão distintos possam correr muito perto uns dos outros, e agora temos duas classes separadas. Já a minha emoção faz parte do desporto”, salientou, prestes a emocionar-se novamente. O neozelandês Earl Bamber, ‘despromovido’ para os GT após a vitória à geral em 2015, acrescentou: “São pessoas que gostam de brincar com as regras. Penso que é difícil de equilibrar o último segundo. Agora, quatro segundos…”
Apesar dos ajustes que acabaram por ser efetuados com base nos argumentos da Porsche, a Ford venceu mesmo a classe após uma luta animada com a Ferrari, reeditando um confronto com 50 anos. Mas a equipa alemã vingaria o resultado na classe LMP1 à custa de um verdadeiro ‘golpe’ de teatro — nem de propósito numa corrida que também atrai outras personalidades da sociedade civil, sejam eles atores (Patrick Dempsey, Steve McQueen, Paul Newman) ou antigos futebolistas e ciclistas olímpicos (Fabian Barthez e Chris Hoy). O motivo, na opinião do australiano Mark Webber, deve-se ao próprio “dramatismo” da prova, enunciando não só as razões para a aura cinematográfica das 24 Horas de Le Mans, mas igualmente para que você queira marcar presença no próximo ano: “É a luz. O pôr-do-sol e o seu nascimento. O desafio do homem contra a máquina. O drama do cansaço, da privação do sono. O trabalho de equipa. E o perigo inerente.” Pelo meio, confessou que uma prova destas, na verdade, “são 30 horas”, e que ao longo desse período dorme apenas uma: “Ainda há o warm-up e levantamo-nos cedo, cerca das 7h30, no sábado”.
Após o terceiro lugar obtido na classe GTE-Am o ano passado, Patrick Dempsey, ausente em 2016 da função de piloto, referiu que estava a aproveitar a experiência como um fã: “Vejo de outra forma o esforço que toda a gente coloca aqui e o seu entusiasmo. É uma prova que exige a excelência e o melhor das pessoas, tal como a Porsche, que elevou tudo em mim e mudou a minha vida de forma profunda ao dar-me a oportunidade de correr em Le Mans com dois pilotos extraordinários, a quem estou muito grato. Desta vez a minha função é mais comunicar com os pilotos, saber do que precisam, e após ter passado pela experiência consigo compreendê-los melhor. Mas também interagir com os fãs, conhecê-los mais de perto. Sabes, Le Mans é verdadeiramente impressionante, e eu realmente adoro estar aqui. Há qualquer coisa de especial neste local.” Sem dúvida, Patrick. Sem dúvida. André Bettencourt Rodrigues / Autosport