Opiniao Motor24

O Lego ultra-caro: a verdade sobre os elétricos que ninguém consegue arranjar

Raquel Baptista Lopes

Há alguns anos, a conta a pagar por um pequeno azar no trânsito era bastante direta. Um encosto no passeio ou um toque de estacionamento resolvia-se com uma visita à oficina do bairro e algumas centenas de euros. Assunto arrumado.

Hoje, o cenário começa a ser outro. Se tiver o azar de dar o mesmo toque num elétrico moderno e arranhar a blindagem do chamado "pack de baterias estrutural", prepare-se para o choque. O perito da seguradora vai - quase certamente - olhar para os danos, fazer as contas ao milímetro e declarar "perda total".

O desfecho? Um carro com 20 mil quilómetros, praticamente impecável, segue direto para a sucata.

Pensemos um pouco no absurdo disto.

Se fosse um computador ou um smartphone a avariar, reagiríamos de ânimo leve? Aceitaríamos atirá-lo para o caixote do lixo à primeira avaria? Claro que não. A nossa primeira reação seria levá-lo à loja de reparações mais próxima para tentar substituir o ecrã ou a peça estragada.

Então como é que aceitamos e normalizamos este destino 'fatal' para uma máquina que custa dezenas de milhares de euros? Como é que deitar fora um automóvel inteiro e construir um de raiz - obrigando a desenterrar mais uma montanha de minérios noutro continente qualquer - pode sequer ser rotulado de "mobilidade sustentável"?

O elefante na sala, muitas vezes ofuscado pelos ecrãs gigantes e pelas faixas de LED, é que estamos a transformar o automóvel num eletrodoméstico irreparável. Há dias, ao ver um vídeo da linha de montagem das baterias da BYD (uma lógica de construção que já se expande a quase toda a indústria), dei por mim a pensar: "Se for preciso substituir uma única peça desta bateria - que está assente no chassis, mas soterrada debaixo de todo o habitáculo -, vou ter de mandar desmontar o carro inteiro como se fosse um set de Lego ultra-caro?" E se quisermos ser ainda mais pessimistas, ter de pagar a peso de ouro a um especialista que domine os segredos daquele ciclo de (re)montagem?

Para as marcas, fundir as baterias no chassis é excelente: torna a produção mais barata e a estrutura mais rígida. Mas, para nós, é um pesadelo logístico e financeiro.

Bem sei que a grande palavra da moda agora é a "Economia Circular" ou "recirculação". Ouvimos falar de mega-projetos industriais onde os fabricantes prometem recondicionar viaturas usadas e reciclar baterias. A ideia é excelente no papel. O problema é o fosso gigante entre a teoria verde das fábricas e o nosso dia a dia na estrada (ou, mais diretamente, a realidade das nossas carteiras).

De que serve uma marca ter uma unidade de reciclagem de ponta noutro país europeu, se o meu carro tem a bateria soldada ao esqueleto e é logo declarado como irrecuperável cá em Portugal ao mínimo dano? Enquanto a construção de base for pensada na lógica do "bloco único", a tal economia circular arrisca-se a ser apenas um penso rápido. Não basta reciclar o que sobra; é preciso parar de fabricar viaturas que se transformam em lixo precocemente.

É por causa desta lógica descartável que os seguros dos elétricos estão a disparar.

O efeito colateral é uma verdadeira elitização da mobilidade. O 'verde' passa a ser um luxo exclusivo para quem aguenta pagar prémios milionários, enquanto a classe média é empurrada para manter os velhos motores de combustão, ficando bloqueada à porta das "Zonas de Emissões Reduzidas".

Se queremos falar de ecologia a sério, o mercado tem de acordar para duas realidades:

1. O "Direito à Reparação" automóvel. Tal como acontece noutros setores. As viaturas deviam ter um Índice de Reparabilidade bem visível no stand automóvel, e quem produz carros impossíveis de arranjar por mecânicos independente devia ser penalizado na origem.

2. O "Retrofit". Em vez de andarmos a bater palmas aos subsídios públicos para comprar SUV elétricos, devíamos canalizar os fundos ambientais para a conversão. Pegar num chassis fiável com 10 anos - cuja pegada de fabrico já foi totalmente paga - e eletrificá-lo. Isso sim, seria o verdadeiro exemplo da sustentabilidade.

O ambientalismo não se faz apenas em stands reluzentes com viaturas a estrear e com publicidades bonitas e com dizeres impactantes, faz-se acima de tudo, na oficina.

Enquanto não abandonarmos a obsessão do "comprar novo para salvar o planeta", não estamos a proteger clima nenhum. Estamos apenas a dar outro nome ao consumo desenfreado.

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